José Sócrates era ouvido por uma plateia atenta. Olhares curiosos e presos no ex-governante, outros aparentemente distraídos, focados nos telemóveis, mas que o escutavam com atenção. “Tinha muitas saudades de o ouvir. Subtil e irónico, um sinal de inteligência”, diria ao Observador um socialista que não se quis identificar, cerca de 70 anos, ao mesmo tempo que enfiava o telemóvel no bolso, já no final da conferência. 

A chuva que caiu durante todo o dia de sábado não demoveu os apoiantes do ex-primeiro-ministro. O auditório da Casa de Artes e Cultura do Tejo, em Vila Velha de Ródão, no distrito de Castelo Branco, encheu-se de gente que queria ouvir o discurso do antigo governante sobre “Política e Justiça”, a sua primeira intervenção pública depois de 11 meses de prisão preventiva e domiciliária, indiciado pelos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. 

Entre as frases, era constantemente interrompido por aplausos, uma plateia cheia de expressões entusiastas e radiantes. Agendada para as 17h deste sábado, a palestra de José Sócrates estava marcada para a mesma hora a que Marcelo Rebelo de Sousa, candidato a Belém nas presidenciais do próximo ano, discursaria em Lisboa (se não tivesse optado por adiar a sua intervenção à última da hora). E foi quando falava sobre política, que o ex-governante deixou uma mensagem forte: “Todos os meus direitos políticos estão intactos e tenciono exercê-los”, disse.

José Sócrates não quis adiantar a que direitos políticos se referia em concreto. Candidato a Belém? “Gostava mais de vê-lo voltar a primeiro-ministro”, revelou Miguel Frederico, deputado municipal em Vila Velha de Ródão. Mas foi dos poucos a manifestar-se nesse sentido, porque a grande maioria das pessoas, quando questionada sobre uma eventual candidatura de Sócrates a Belém, esboçava um sorriso de esperança antes de responder: “Gostava muito”.

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Fernando Serrasqueiro, socialista do núcleo duro de José Sócrates, foi mais ponderado em relação à possibilidade de uma corrida às presidenciais. “Neste momento não há condições, ele está a meio do processo [de investigação]. Primeiro quer defender-se. Este processo, como ele suspeita, pode ser muito moroso, o que impossibilita uma intervenção política mais ativa neste momento”, defendeu.

José Sócrates tem ainda, pelo menos, mais de um mês para anunciar uma eventual candidatura a Belém. Por agora, terá outras solicitações para intervenções públicas e apoiantes parecem não faltar para acompanhar o ex-primeiro-ministro na estrada. “Gostei tanto, ele agora vai a Vila do Conde, era bom que pudéssemos juntar a nossa ida à Covilhã com ele”, afirmou uma rapariga com sotaque nortenho à saída do centro cultural de Vila Velha de Rodão.

O ex-líder socialista falou durante quase uma hora e vinte minutos e a Operação Marquês, em que é o principal arguido, foi o tema central. Defendeu-se sobre a investigação do processo, dissertou sobre justiça, sobre política, e considerou-as inseparáveis. “Parece-me muito pobre, desesperadamente pobre, esse argumento do ‘à justiça o que é da justiça e à política o que é da política’, como se a política não tivesse a obrigação e o dever de debater e discutir quer as formas, os meios e os fins de realizar essa justiça”. Ao Observador, Fernando Serrasqueiro acrescentou: “A interligação que ele faz entre a política e justiça é muito importante. Ajuda-nos a refletir, principalmente em função de uma experiência recente que teve. É preciso evoluir nos processos e a justiça tem a ver com as pessoas, por isso tem a ver com a política”. Essa foi uma das razões para o antigo secretário de estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor ter saído da conferência bastante satisfeito com o resultado. Mas não só: “Foi uma oportunidade de ele poder expressar um conjunto de ideias que tem vindo a pensar ao longo destes últimos tempos. Foi um seminário muito rico em reflexões, para refletirmos em temas cruciais”, rematou.

Já Miguel Frederico, o deputado de Vila Velha de Rodão, preferiu demonstrar algum descontentamento: “A demora do processo de Sócrates é preocupante, assim como a falta de indícios.”

Prestes a terminar a conferência, que não teve lugar a perguntas finais, José Sócrates lembrou o caso de Luaty Beirão, o ativista luso-angolano em greve de fome há 33 dias como forma de protesto pela libertação da prisão preventiva a que foi submetido. O antigo-primeiro-ministro chegou mesmo a comparar a justiça dos dois países: “Não sei têm reparado, é que as autoridades angolanas respondem a esta questão como respondem as autoridades portuguesas, em que dizem que ‘à justiça o que é da justiça, à política o que é da política’”.

António Lopes foi outro dos apoiantes a marcar presença na Casa de Artes e Cultura do Tejo. Apesar da idade avançada, a chuva pouco incomodava. De chapéu na cabeça e bastante calmo, disse apenas: “Gostei muito de o rever e do que disse. Um homem que fez muito pelo Interior. Tenho esperança que regresse rápido e com garra.” Ao lado, um casal de braço dado replicava-nos: “Sócrates é um preso político, só se fez propaganda. Ele não pode ser tratado melhor que um cidadão comum, mas também não pode ser tratado pior.” A mulher, emocionada, acrescentava: “Cada vez o admiro mais. É um resistente.”

Durante a conferência, o ex-líder socialista foi aplaudido com frequência. Por vezes, bastaram duas ou três frases para puxar as palmas. Não só quando se defendia de toda a investigação da Operação Marquês, como quando atacou a atuação do Presidente da República, Cavaco Silva, e fez duras críticas à atual situação governativa. “Não pode governar quem tem a maioria do parlamento contra ele, esse é que não pode governar”. Ou: “Eu sou a favor da NATO, mas sou muito mais a favor de um país onde se possa ser contra a NATO, eu sou a favor da Europa, mas sou muito mais a favor de um país onde se possa ser contra a Europa”. Declarações que recolheram aplausos e manifestações de apoio.

No final, e depois de uma ovação, José Sócrates distribuiu abraços, tirou fotografias, recebeu ramos de flores e palavras de coragem. “Parabéns”, “que saudades!”, “voltaste em força”. Ao Observador, um dos participantes, que não quis ser identificado, disse não estar completamente feliz com a conferência: “50/50. Podia ser melhor, mas não quero falar sobre isso. Boa tarde”.

Já na rua, era esperado por dezenas de pessoas abrigadas em chapéus-de-chuva. Sócrates saiu, aparentando satisfação por ter sido escutado por centenas de pessoas, e está de regresso à estrada. “Rapaz, dá cá um abraço”, atira uma mulher ao mesmo tempo que puxa o ex-primeiro-ministro. “Em força e em forma”, comentou outro dos admiradores do antigo líder do PS. As mensagens de apoio seguiam-se umas atrás das outras, acompanhadas por gargalhadas satisfeitas, enquanto José Sócrates seguia o seu caminho. Resta esperar, para saber qual será o próximo destino.