Mais uma estação, mais uma edição do Portugal Fashion. Mas esta 37ª edição, que terminou a 24 de outubro, foi especial: celebraram-se 20 anos da plataforma que pretende dar visibilidade aos criadores nacionais e à moda portuguesa. Em três dias do evento, a correria entre bastidores e desfiles é avassaladora. Ainda assim, conseguimos raptar quatro dos criadores que apresentaram as propostas para a primavera/verão de 2016 e fizemos nove questões de resposta rápida. 

Qual é a peça que mais se orgulha de ter feito?

Elsa Barreto: O meu vestido de noiva. Foi há 18 anos e, para a altura, era bastante arrojado. Tive que ir comprar os tecidos a Itália. A partir daí comecei a querer fazer vestidos de noiva em Portugal. 

Fátima Lopes: O célebre biquíni de diamantes, claro.

Anabela Baldaque: Um casaco que fiz para mim. Tinha 18 anos, estava em Londres a andar na rua quando uma senhora passou por mim e pediu-me para comprar o meu casaco. Eu tinha-o feito para mim, era bordeaux e bege, tipo blazer curto, algo excêntrico. Estávamos nos anos 80. E eu vendi-o, claro. Precisava de dinheiro para estar em Londres mais um tempo. 

Júlio Torcato: Uma desta coleção: o vestido que a Vera Deus desfilou. Um vestido negro, comprido, oversized.

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A relações-públicas Vera Deus desfilou para Júlio Torcato nesta edição. Este é o vestido que o criador se orgulha de ter feito. (Portugal Fashion)

Qual é a peça que se arrepende de ter feito?

Fátima Lopes: Não me arrependo de nenhuma.

Júlio Torcato: Tantas (risos). Uma vez na Moda Lisboa fiz um desfile demasiado alternativo, demasiado excêntrico. Acho que o desfile foi arruinado pelas meias e pelo calçado.

Elsa Barreto: Não me arrependo de nenhuma mas, quando estamos a trabalhar, às vezes há peças que pomos de lado porque vemos que não resultam.

Anabela Baldaque: Às vezes acontece uma peça não correr bem mas eu dou sempre a volta, nem que desmanche e volte a construir. Mas, para referir algumas, acho que foram uns vestidos que fiz há cerca de seis anos. Estava a tentar fazer peças sem costuras, aquilo tornou-se muito ergonómico e ficou demasiado “saco”. Eu gosto que a roupa vista as pessoas e naquele caso não aconteceu. Quis desconstruir e não resultou.

Se metade da coleção ardesse dois minutos antes do desfile, o que faria?

Elsa Barreto: Dava-me um ataque (risos). A uns minutos é impossível fazer peças novas. Tentava desfilar com o que sobrasse.

Júlio Torcato: Eu faria um desfile estático com os modelos com a outra metade da coleção.

Anabela Baldaque: Além de ficar bastante triste, tentava que o resto do desfile brilhasse. Provavelmente punha uma manequim só com um blazer, outra só com um calção, outra só com um vestido (risos). Distribuía mais as peças e tentava dar-lhe uma coordenação simpática. 

Fátima Lopes: A minutos? Olhe, que remédio. Ou desfilava metade ou não fazia nada. 

Imagine que todos os manequins estavam no mesmo autocarro. Acontecia um acidente e nenhum conseguia ir ao desfile. Como resolvia a situação?

Elsa Barreto: Pegava em pessoas do público para desfilar.

Fátima Lopes: Não fazia desfile nenhum. Deus me livre. Os desfiles podem fazer-se a qualquer altura.

Júlio Torcato: Fazia um casting no público. Eu adoro esse tipo de coisas. 

Anabela Baldaque: Pedia ao público para vestir as minhas peças de roupa e íamos todos para a passerelle

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Anabela Baldaque apresentou as propostas para a próxima estação no Coliseu do Porto. A criadora comemora em 2015 30 anos de carreira.

Alguma vez espiou a coleção de um concorrente?

Elsa Barreto: Todos nós vemos tudo. Mas não se devem fazer coisas iguais. Agora, se falarmos em inspirações? Toda a gente se inspira em tudo.

Júlio Torcato: Todos temos de ver o que os concorrentes fazem. Mas antes das apresentações, não. O stress é muito grande. Eles estão aqui ao lado (nos bastidores) e eu às vezes nem sei quem está [cá].

Anabela Baldaque: Claro. Todas. 

Se só pudesse usar duas cores numa coleção, que não fossem o preto e o branco, quais seriam?

Fátima Lopes: Azul e vermelho.

Júlio Torcato: Azul marinho e verde maçã. 

Anabela Baldaque: Azul e bege.

Elsa Barreto: O amarelo, como usei nesta coleção, e o roxo. Eu sei que há muita gente que não gosta de roxo, mas eu gosto. 

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Uma das propostas de Elsa Barreto para a primavera/verão 2016. A criadora jogou bastante com o amarelo e com o preto. (Portugal Fashion)

É preferível a roupa demasiado justa ou demasiado larga?

Júlio Torcato: Eu prefiro demasiado larga. Quando temos tecido de boa qualidade, a caída dos tecidos define tudo e fica sempre bem. Quando marca demasiado o corpo, acho que esteticamente não fica muito bonito.

Elsa Barreto: As duas são muito más, mas eu prefiro justa. Com a minha coleção funciona melhor. Mas depende de cada coleção. 

Fátima Lopes: Nem uma coisa nem outra. Tem de ser q.b.

Anabela Baldaque: Eu prefiro demasiado larga. Acho que dá muito mais movimento e a pessoa consegue libertar-se com muito mais facilidade. 

Qual foi a pessoa mais importante que já teve a assistir a um desfile seu?

Elsa Barreto: Há muitas figuras públicas que vêm assistir ao meu desfile e eu fico contentíssima, mas o mais importante é a minha família: o meu marido, os meus filhos, os meus pais e os meus irmãos. 

Fátima Lopes: Para mim o mais importante é a minha família. 

Anabela Baldaque: O meu filho. 

Júlio Torcato: O embaixador de Portugal no Brasil, quando fiz um desfile em São Paulo. 

Complete a frase: “Em moda, 20 anos dão para…”

Elsa Barreto: Ter uma noção muito grande de responsabilidade. 

Júlio Torcato: Ter muitas ilusões e muitas desilusões.

Fátima Lopes: Aprender. Quem não aprender em 20 anos é porque é pouco inteligente. Vinte anos é uma vida inteira. Eu tenho 23 anos de carreira.

Anabela Baldaque: Crescer mais 20.