Quando os 19 líderes se reunirem esta sexta-feira em Viena, Áustria, para discutir uma solução para o conflito na Síria terão em cima da mesa notícias frescas de mais uma tragédia no mar Egeu. Mais de 20 mortos durante a noite, mais de uma dezena de crianças, 50 nos últimos dias. Mas as conversas ameaçam centrar-se numa luta regional pelo poder, especialmente entre o Irão e a Arábia Saudita.

Estarão 19 delegações à mesa. A grande novidade é a presença do Irão, que se junta ao lado dos defensores de Assad, juntamente com a Rússia. De fora ficam os representantes sírios, tanto do regime como da oposição. Mas, se já não se esperavam grandes resultados desta nova ronda de negociações, a disputa entre a Arábia Saudita e o Irão ameaça descarrilar ainda mais as negociações.

O pré embate começou com palavras duras dirigidas diretamente pelo regime sírio ao ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita: “Que mantenha a boca fechada e o seu país fora de um assunto que não lhe diz qualquer respeito”.

A Arábia Saudita, cuja monarquia é de origem sunita, não aceitava sequer sentar-se à mesa com o Irão, de maioria xiita, e com quem tem disputado o poder no Médio Oriente, com o epicentro desta disputa agora centrado na Síria.

O Irão, que de há muitas décadas a esta parte se tem mantido fora de qualquer negociação, aproveita o acordo nuclear com os Estados Unidos para voltar a entrar no círculo e exercer influência na região. Mas o acordo não está fechado e as tensões com os EUA estão longe do fim.

Os Estados Unidos têm ainda pela frente a Rússia, com quem a tensão tem aumentado consideravelmente com a questão ucraniana e mais recentemente com a decisão da Rússia de fazer ataques aéreos na Síria. Os responsáveis norte-americanos acreditam que os russos estarão a aproveitar estes bombardeamentos para eliminar inimigos do regime de Assad, em vez de centrarem as suas atenções apenas no Estado Islâmico.

A disputa entre Irão e Arábia Saudita

São os dois blocos mais poderosos no Médio Oriente e estão numa autêntica corrida às armas para assegurar o seu domínio não apenas na Síria, mas também no Iémen, no Iraque e no Bahrain. O Irão juntou-se à Rússia, numa parceria de conveniência, e a Arábia Saudita respondeu dando armas mais sofisticadas aos rebeldes sunitas, incluindo mísseis antitanque capazes de destruir os tanques russos.

Ainda esta terça-feira, as autoridades iranianas acusaram os sauditas de aproveitarem a trágica debandada em Meca que causou quase 800 mortos, entre os quais estavam centenas de iranianos, para raptarem Ghazanfar Roknabadi, antigo embaixador iraniano no Líbano e uma figura central no conflito sírio. Os sauditas duvidavam no mesmo dia que as intenções do Irão fossem sérias e consideravam que a inclusão de Teerão nas negociações seria uma perda de tempo.

Para os sauditas, Assad tem de sair e isso não é negociável. Para o Irão e Rússia, Assad tem de se manter.

Divisões são mais profundas

Irão e Arábia Saudita são suficientes para deitar as negociações por terra, mas estão longe de ser o único problema. Nas negociações de hoje estarão representantes de quase 20 nações e estes estarão divididos em dois grandes blocos. De um lado, o contingente liderado pelos Estados Unidos, que inclui os países sunitas do Golfo pérsico. Do outro lado, Irão, Rússia e os países liderados por maiorias xiitas.

Nas negociações estarão ainda representantes do Reino Unido, França, Alemanha, Egito, Jordânia, Qatar, Turquia, Itália, Iraque, Líbano e Emirados Árabes Unidos, a alta representante da União Europeia para os Assuntos Externos, Federica Mogherini, e o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura.

O papel do acordo nuclear com os EUA

O recente acordo entre os EUA e o Irão deixa o secretário de Estado norte-americano e o ministro dos Negócios Estrangeiros numa posição diferente, onde é do interesse de ambos continuar a construir uma relação cordial que lhes permita continuar a discutir temas com implicações globais, como é o caso da Síria.

Neste ponto, não ajudará certamente a prisão do primeiro norte-americano (de origem iraniana) desde o acordo nuclear, não se sabendo as razões invocadas para a detenção. Siamak Namazi, consultor de uma empresa petrolífera, terá sido detido a 15 de outubro, mas ainda não há confirmação oficial desta detenção.

Ainda este mês, a justiça iraniana decidiu condenar o correspondente do Washington Post em Teerão, Jason Rezaian, que estava preso desde julho de 2014, acusado de espionagem.