A CP transferiu a titularidade das locomotivas usadas no transporte de mercadorias para a CP Carga, antes de estar concluído o processo de privatização desta empresa. A empresa confirma a operação de “capitalização” da empresa sua participada, cuja última etapa foi concluída há um mês, mas assegura que esta transferência se insere no processo de autonomização da CP Carga e que seria efetuada “independentemente do processo de privatização da CP Carga que não se encontra ainda encerrado”

O esclarecimento prestado pela empresa ao Observador surge na sequência de um comunicado emitido pelas comissões de trabalhadores da CP e da CP Carga, segundo o qual a operadora ferroviária “se preparava para passar para a CP Carga todas as locomotivas que até aqui lhe alugava, através de um aumento de capital em espécie” (neste caso, em equipamento).

Esta operação de capitalização da CP Carga, acrescentava o comunicado, “não só limpa toda a sua dívida — 120 milhões de euros –como representa uma descapitalização da CP em igual montante. E isto a troco de dois milhões de euros”. O valor reporta-se ao encaixe que a CP terá com a alienação das ações da empresa de transporte de mercadorias, já que o grosso do preço de 53 milhões de euros a pagar pela compradora, a MCS, será usado para resolver a dívida da CP Carga à CP e outras entidades públicas.

Segundo a informação das comissões de trabalhadores, que são contra a privatização, para efeitos de transferência de capital o parque de 59 locomotivas foi avaliado em 116 milhões de euros, valor que consideram pecar por defeito.

A propósito do que qualifica de “versão incorreta” da operação, fonte oficial da CP acrescenta que a transferência das unidades para a CP Carga não “envolve qualquer movimento de fluxos financeiros”. Mas questionada sobre os valores e o aumento de capital, diz que a transferência terá efeitos contabilísticos nas duas empresas, que se irão refletir nas contas de 2015, “independentemente do sucesso que o processo de privatização venha a registar na sua etapa final”. 

Apesar de a CP afastar uma ligação entre a capitalização da CP Carga e a sua venda, o Observador confirmou que a titularidade das locomotivas era uma das condições asseguradas aos investidores no quadro da privatização da operadora de transporte de mercadorias. Até agora, a CP Carga pagava uma verba pelo leasing das locomotivas, para além de uma renda anual à CP que continuou a ser dona deste material, depois da autonomização jurídica do negócio de transporte de mercadorias em 2009. A CP Carga tem os vagões.

Ainda segundo as comissões de trabalhadores do grupo, a CP Carga teve de se endividar na banca para responder aos encargos relativos à frota. Toda a divida bancária da empresa tem aval da casa-mãe.

A CP Carga foi a última privatização a ser decidida pelo anterior governo, em julho deste ano. O vencedor foi a MSC Rail, uma participada da MSC Portugal, que pertence ao gigante MSC – Mediterranean Shipping Company, o segundo maior armador mundial. A operação só foi notificada à Autoridade da Concorrência em outubro, que ainda está a analisar o processo. Só depois da luz verde desta entidade é que o negócio pode avançar.