Obrigado por ser nosso assinante. Beneficie de uma navegação sem publicidade intrusiva.

Há 15 dias, morreu o crítico de cinema inglês Philip French, que fez uma longa e ilustre carreira na BBC, no “Times” e no “Observer”. French costumava dizer que gostava de filmes que “entretessem com qualidade”. A frase aplica-se como uma luva ao cinema de José Fonseca e Costa, que morreu no domingo, aos 82 anos. O seu funeral realiza-se hoje, terça-feira, no Cemitério dos Prazeres, pelas 15h00.

Era um dos realizadores do grupo do Cinema Novo e do Centro Português de Cinema, em finais da década de 60, início da de 70, que fez a transição para o Portugal do pós-25 de Abril. Após uma série de documentários, estreou-se nas longas-metragens com  “O Recado” (1972), filme subtilmente político onde era palpável o mal-estar e a oposição do realizador, e da sua geração, para com um regime autoritário em agonia, que cairia dois anos depois.

Fonseca e Costa e “O Recado”

Nas entrevistas que me deu ao longo de vários anos, quando da estreia dos seus filmes, Fonseca e Costa insistia sempre nesta ideia: “Temos que fazer um cinema comercial que não transija com a qualidade e que conte histórias. Histórias que agradem ao público”. O realizador de “Balada da Praia dos Cães” era, caso raro no cinema português, um autor com sentido comercial, que dominava como poucos os formatos clássicos da narração cinematográfica. E que percebeu, antes de quase todos os outros, que o cinema português não podia ficar a marca passo nem no registo “revolucionário e de massas” da militância pós-25 de Abril, nem no autorismo gasoso e extasiado com o próprio umbigo. Tinha que falar para o público e estar atento à realidade, sem por isso ser vulgar e embrutecedor, ou demagógico e arrogante, e não devia ter medo de se abalançar, por exemplo, a adaptar livros de grandes autores nacionais ou “best-sellers”. Mesmo que Portugal fosse um país “sem indústria cinematográfica”, como frisava, onde a “burocracia” impedia os cineastas de filmar com normalidade e regularidade.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Juntando o gesto ao discurso, Fonseca e Costa realizou, em 1980, “Kilas, o Mau da Fita”, que foi durante muitos anos o maior sucesso comercial do cinema português, com mais de 100 mil espectadores, exemplo consumado de um filme popular, que apesar de se referir a uma tradição revisteira-“kitsch”, não faz concessões no plano artístico (ver a música de Sérgio Godinho). “Kilas” revela ainda algumas outras características do cinema de Fonseca e Costa, como o recurso à co-produção internacional (com o Brasil, neste caso), a utilização de actores estrangeiros de renome (aqui, vedetas brasileiras como Lima Duarte ou Armando Bogus, entre outros, então revelados em Portugal pelas telenovelas) e a mescla de intérpretes com características, escolas e heranças diversas – caso de Mário Viegas e Milú, que teria aqui a sua última participação no cinema -, muitas vezes contra a sua imagem estabelecida. O exemplo mais flagrante desta é o papel “sério” que deu a Raul Solnado em “Balada da Praia dos Cães” (1987), sobre o livro homónimo de José Cardoso Pires, onde aparecem também actores com Patrick Bauchau e Assumpta Serna.

Excertos de “Kilas, o Mau da Fita”

https://youtu.be/y3bSkOuRGzw

Além de Cardoso Pires, José Fonseca e Costa adaptou também ao cinema obras de David Mourão-Ferreira (“Sem Sombra de Pecado”, em 1982), ou sucessos de novos escritores, como “Os Cornos de Cronos” (1989), de Américo Guerreiro de Sousa. Ao contrário do livro, o filme foi um fracasso comercial e de crítica, que afectou profundamente o realizador, tanto mais que este se revia pessoal, e muito discretamente, na história. Fonseca e Costa ficou cinco anos sem fazer cinema, durante os quais tentou, debalde, arranjar apoios para rodar “O Senhor Ventura”, adaptado do livro de Miguel Torga, que juntamente com “O Anjo Ancorado”, de Cardoso Pires, é um dos seus projectos frustrados, e mais lamentados pelo realizador. 

Sobre “Os Cornos de Cronos”

https://youtu.be/taVHAluVAaE

Em 1995, Fonseca e Costa filmou “Cinco Dias, Cinco Noites”, com base no livro de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal, voltando a arriscar na distribuição, ao dar o papel principal ao modelo Paulo Pires, que contracena com o muito mais experiente Vítor Norte. Aposta ganha, de novo. Mas o cineasta também filmou argumentos de sua autoria, como “A Mulher do Próximo” (1988), ou “Viúva Rica Solteira Não Fica” (2006), este com um forte travo camiliano, mas que o público, injustamente, não plebiscitou.

Excertos de “A Mulher do Próximo”

https://youtu.be/hZjFZC8NUIE

Cenas de “Viúva Rica Solteira não Fica”

O realizador que gostava de contar histórias e foi assistente de Michelangelo Antonioni deixou dois terços filmados de “Axilas”, baseado num conto de Rubem Fonseca (em 2003, tinha feito “Fascínio”, a partir da obra de outro brasileiro, Tabajara Ruas, que havia colaborado no argumento de “Kilas”). José Fonseca e Costa trabalhou também para a televisão (a RTP Memória poderia pensar em repetir a série com Ivone Silva, “Ivone, a Faz-Tudo”, que realizou, com textos de César de Oliveira, em finais dos anos 70), foi actor e chegou a encenar teatro. Com a sua morte, o cinema português perde um narrador nato, um autor com sentido comercial e um realizador de bom gosto, cultura e inteligência, que sempre lhe deu tudo, e o seu melhor. Mesmo que nem sempre a retribuição tenha sido à altura.