Quando o mar se chateia, fica com mau feitio e não atina no meio de tempestades, ondulação e correntes, há uma onda que nasce nos EUA. É raro, mas acontece na Califórnia, a uns dois ou três quilómetros da costa. Os primeiros malucos a pegarem numa prancha, remarem e tentarem surfá-la chamaram-lhe Mavericks, em honra do cão de um dos surfistas que, com trela, ficara preso em terra, à espera do dono. Há uns anos fez-se um filme (“Chasing Mavericks”) sobre a verídica história de um graúdo que foi dos primeiros a surfar esta onda e do miúdo que o melgou para que ele lhe ensinasse a fazer o mesmo. Pelo meio, o mais velho ensina ao mais novo o bom que é ter medo do mar e o mau que pode ser entrar em pânico por causa dele. Na vida real, Maya Gabeira teve de aprender sozinha.

Foi a Praia do Norte a ensiná-la. Andava em busca de ondas grandes, enormes como as de Mavericks, e ouviu falar nas da Nazaré. A única que surfou fê-la cair da prancha, ser engolida pela água e andar no vaivém da corrente, espuma e ondas gigantes. Demorou oito minutos até uma mota de água a alcançar e a tirar da água, afogada e inconsciente. “Todo o mundo tem que ter medo, é o que nos alimenta, o que nos mantém vivos no meio daquela situação toda. Ali, a surfar aquelas ondas e a fazer aqueles resgates, o medo ajuda a gente a ter performances acima da média e superiores ao que achávamos ser possível. O pânico é horrível, não deixa você raciocinar nem agir, uma pessoa bloqueia”, diz, como que a recapitular a lição que o mar lhe deu em 2013.

Maya foi reanimada e, quando acordou, lembra-se de que “nunca mais [se] queria afogar na vida”. Passou um dia no hospital e muitos mais com uma perna envolta em gesso para corrigir o osso (fémur) partido pela queda. “Foi doloroso para caramba”, resume, do conforto do sofá que lhe dá assento. Passaram dois anos e a brasileira está à conversa com o Observador porque decidiu voltar a Portugal — e à Nazaré. Já tinha posto a certeza do regresso na cabeça e nem “o trauma” lhe conseguiu roubar essa ideia. “Na verdade, decidi voltar antes do acidente. Quando vi a onda, quando vi o lugar, quando entendi o potencial… Acho que já viajo pelo mundo há nove anos, sempre atrás das melhores ondas grandes. Quando achei esse lugar nem pensei duas vezes: ‘Vou voltar para sempre!’ Não queria mudar os meus planos após o acidente”, explica, sem deixar que o bate-papo fuja do tema do medo.

Lisboa, 03/11/2015 - Decorreu esta manhã no Hotel Altis Belem a apresentação do Red Chargers evento da Mercedes que vai patrocinar um campeonato de ondas gigantes na Nazaré. Maya Gabeira (Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens)

Foto: Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Hoje, com 28 anos, “claro” que Maya tem “mais receio” de surfar as ondas da Nazaré: “Quase morri ali, mas isso tem de ser superado. Com o tempo a gente se consegue distanciar dos traumas e superar qualquer coisa. Não tem como ser perdedor se você não desiste nunca. Tem que continuar tentando”. A brasileira fez isso mesmo e até nem foi a queda na Praia do Norte que mais lhe testou essa vontade. Semanas depois de recuperar da “perna quebrada” pela Nazaré, a brasileira sentiu dores. Muitas, mais do que as do costume, na coluna. Tinha uma hérnia. Foi operada, passou meses a reabilitar o corpo e, quando já conseguia ir remar com a prancha para o mar, a coluna pregou-lhe outra partida. Segunda intervenção cirúrgica. “Passo dias ou meses sem lembrar do acidente, mas não passo seis horas sem lembrar da coluna”, lamenta. A voz murcha, como uma planta que vemos morrer em câmara acelerada.

Nem um segundo demora a disparar um “sem dúvida” para garantir que as operações a atormentaram bem mais do que o acidente. Deixa de se rir tanto ou de receber as perguntas com um sorriso. “As cirurgias vão ficar para sempre comigo, não tenho perspetiva de ficar sem dor tão cedo. O trauma foram 10 minutos de muito sufoco e 24 horas na emergência, mas depois tinha só uma perna quebrada, pus gesso, fiz recuperação e fiquei bem. A coluna é um problema que já tenho há oito anos e que operei agora duas vezes. A coluna é dona da minha vida, não tenho nada que fazer nos dias que estou mal da coluna. Só me posso deitar”, conta, palavra de quem não sucumbe ao medo do mar mas não se livra das maleitas do corpo. 

Muita fisioterapia, recuperação e paciência depois, Maya não obrigou a coluna a parar com as dores. Apenas a convenceu a causá-los de tempos a tempos e esse de vez em quando deixou-a regressar à Nazaré. Na última sexta-feira voltou a fixar os pés numa prancha, a agarrar-se à corda puxada por uma mota de água — a este método chama-se tow-in — e a surfar uma onda das grandes. Nada do que correu mal há dois anos se viu desta vez. “Nem conhecia direito a onda da Nazaré! O Garrett [McNamara] estava à frente da gente, mas tenho a certeza que nestes últimos dois anos ele evoluiu muito mais. Ninguém sabia muito, só o Garrett, a gente ainda estava meio no vácuo. A gente veio com três jetskis, um quebrou logo na primeira semana, ficámos três semanas a estudar o lugar e a aprender, mas claro que não estávamos preparados como estamos hoje. O que sabíamos e o que aplicávamos nas outras ondas grandes do mundo não era suficiente aqui na Nazaré”, admite.

Maya Gabeira vai ficar pela Nazaré nos próximos meses. Não é bem uma competição porque ninguém quer andar à bulha no meio de ondas com altura de prédios, mas até 29 de fevereiro decorre o Mercedes-AMG Red Chargers. É um evento para toda a gente ver (em streaming e tudo) os melhores surfistas de ondas grandes do planeta a lidarem com o que a Praia do Norte lhes oferecer. No fim haverá prémios para quem mais se destacar em várias coisas — melhor onda, melhor salvamento, melhor (ou pior) queda, etc. — e até lá a organização vai contar as histórias dos homens que fazem vida de andar a surfar ondas gigantes. E da única mulher entre eles, já agora. “É… Já é um pouco normal. Às vezes estranho, mas já estou acostumada”, resume, sem muitas palavras para dar à pergunta da praxe que sempre pedem para ela responder.

A brasileira, portanto, já voltou e vai voltar a surfar as ondas da Nazaré. Mais as grandes do que as pequenas. “Gosto das duas, mas as grandes é que pagam a conta!”, realça, preparando a gargalhada que vem a seguir. “Na verdade”, continua, Maya começou a ir às ondas grandes “por querer surfar todos os dias”, já que “não gostava nem queria ficar sem surfar quando o mar subia” na altura das ondas: “Não fazia sentido na minha cabeça”. Hoje, isso também não deve fazer sentido nenhum na cabeça da mãe, que há pouco tempo passou 10 dias a visitar a filha na Nazaré. “Estava passando mal, mas ela é muito tranquila. Nem mostra que está tensa. Até acordava de manhã cedo, fazia o meu lanche, botava no tupperware, me deixava na marina, ia para o cliff [penhasco] e só via ela depois do surf. Ficava a ver lá de cima. Ela falava que ficava tranquila, mas na verdade faz tudo para que eu fique tranquila então nunca dá o ar de estar stressada”, revela. Afinal, já basta uma a admitir que tem medo do mar.