Uma noite e uma manhã transformaram António Costa o líder que pressiona, em António Costa, o defensor. O líder socialista foi buscar ao baú vários momentos da história para defender o acordo com PCP, BE e PCP até porque “é a primeira vez” na história que a direita unida não tem maioria. O socialista levou à Comissão Nacional o programa de Governo, pediu a sua aprovação porque, garantiu, só será primeiro-ministro de um Governo que tenha condições para quatro anos.

“Não basta um programa de governo nem as condições para iniciar funções. Não basta para o PS e não basta para um governo que eu chefie. Não estou disponível e o PS não está disponível para formar um governo que não tenha reais condições para que seja um governo de legislatura”, disse António Costa.

António Costa tem na mão um acordo programático com os três partidos à sua esquerda, PCP, BE e PEV. Mas ainda não tem o político. E se na noite de sexta-feira, em entrevista à SIC colocou pressão em Jerónimo de Sousa e no PCP, perante os membros da Comissão Nacional preferiu ser mais defensor do que colocar pressão. Não é que não a tenha feito, que fez, mas o tom foi amenizado. O líder socialista sabe que insistir num discurso de pressão carregada sobre o PCP poderia fazer eco dentro das quatro paredes do comité central que se reúne este domingo e por isso jogou com pinças na relação com os comunistas. Dar a garantia que só liderará um Governo para a legislatura foi a única pressão feita aos comunistas, que já acertaram as medidas, mas ainda não fecharam o acordo político. E por isso, o que mais fez durante o discurso foi defender esta solução – Governo PS com apoio dos três partidos – lembrando não só os resultados eleitorais como a história da política portuguesa.

O porquê de um não a um governo PSD/CDS

Para Costa, os resultados eleitorais deram várias mudanças no quadro político. A primeira e que acena como trunfo é o facto de “pela primeira vez na história”, para que a direita possa “governar, precisava do apoio expresso do PS”. E isso não foi possível, porque se apresentou perante os eleitores como o candidato que queria acabar com a política de austeridade, lembrou. Lembrou as minorias de Cavaco Silva e Durão Barroso para dizer que não era comparável, porque aí PSD não precisava do PS, contudo, mesmo que assim fosse, disse, a atuação do PS foi de rejeitar esse Governo. Costa lembrou o primeiro Governo de Cavaco Silva em 1985 par dizer que aí, os socialistas com Almeida Santos como candidato a primeiro-ministro, apresentaram uma moção de rejeição ao Governo.

E por isso, a lição da história aplicada a papel químico em 2015 era só uma: “A última coisa que o PS poderia fazer era viabilizar um executivo de direita, sem que se esforçasse por criar uma alternativa” disse. Até porque o Executivo de Passos Coelho perdeu a maioria. E foi aí que fez um fast forward para a atualidade. Ou melhora, para 2011, quando PSD e CDS se coligaram depois das eleições, tudo a favor da legitimidade de uma solução pós-eleitoral: “A questão é saber se vamos ter um governo minoritário da coligação PSD/CDS ou se é ou não possível ter um governo de suporte maioritário pós-eleitoral. Um acordo pós-eleitoral é tão legítimo como o acordo pós-eleitoral como o que foi feito na anterior legislatura”, lembrou.

O porquê da legitimidade de um Governo PS

Os recuos no tempo foram constantes. E se o argumento Cavaco 1985 e o Governo PSD/CDS 2011 serviram para defender a negação do apoio à direita e a sua viabilidade atual, o PREC, a queda do Muro de Berlim, as moções às primárias, a moção ao congresso e o discurso ao congresso serviram de argumentos para defender um governo PS com o apoio da esquerda. 

“É hora de pôr termo a esse último resquício do PREC e do muro de Berlim. É anacrónico”, disse. 

“Que sentido faz, 40 anos depois do 25 de novembro e 25 anos depois da queda do Muro de Berlim, considerar que aquilo que foi a grande fratura e grande combate que o PS travou nas urnas e na rua contra o PCP, contra o PREC, continua a ser a clivagem central na sociedade portuguesa?”. “Não faz”, disse Costa.

Depois da comparação, o socialista voltou a apoiar os parceiros para dizer que sabe que está a falar com gente com valores: “Sabemos que somos sérios e que estamos a falar com gente séria que não vende a sua entidade para qualquer acordo de Governo”. A frase tinha um propósito: mostrar que agora, com PCP e BE, não é a mesma coisa que aconteceu entre PSD e CDS em 2002. Tudo porque agora não estão em causa lugares de Governo como os negociados com Paulo Portas para entrar num Governo de Durão Barroso e ter “ter meia dúzia de lugares de governo”. “O PP que era o campeão da luta contra o euro passou a ser o protótipo do euro-oportunismo em Portugal”, acusou.

Com esta frase, Costa pretendia matar dois coelhos com apenas uma cajadada: dizer que também o CDS já foi anti-União Europeia, respondendo aos críticos que insistem que PCP e BE têm visões europeias diferentes e incompatíveis, mas também defender que não é preciso que comunistas e bloquistas entrem para o Executivo. “O que nos separa tem a ver com a identidade de cada um. O que nos divide não é suscetível de ser mercantilizado em lugares de Governo”. “Não é suscetível de se tornar revogável aquilo que é irrevogável para chegar a lugar de vice-primeiro-ministro e para anos depois oferecer o lugar de vice-primeiro-ministro para ao menos se manter ministro”, disse Costa arrancando aplausos e risos de uma plateia que se levantou, com algumas exceções no final do discurso.

O acordo, qual acordo?

Para já, o que Costa pediu aos socialistas que aprovassem é um programa de Governo com 70 alterações que resultam das negociações com PCP e BE. Costa deixou a garantia aos membros da Comissão Nacional que “o programa de governo tem por base o programa do PS” e que pretende criar “condições duradouras de funcionamento ao longo desta legislatura”.

Ainda sobre o acordo, Costa deixou três notas:

  1. Que as medidas são consistentes entre si;
  2. “Que são consistentes com o programa eleitoral do PS e com a sua estratégia económica e orçamental”;
  3. “O que resulta é um programa é inteiramente compatível com os compromissos eleitorais de Portugal, quer em matérias de natureza europeia e da zona euro”.

E com o programa de 138 páginas na mão, o secretário-geral do PS aproveitou para insistir nas respostas aos críticos dizendo que o PS não podia colocar-se “na situação passiva” e estar “naquela posição cínica que muitas vezes nos tem sido recomendada: ‘porque é que se metem em trabalhos, quando daqui a uns meses é mais fácil derrubá-los”, disse. Resposta direta a Francisco Assis que só estará na reunião de Comissão Política de domingo à noite.