O Fundo Monetário Internacional (FMI) considera que Angola só vai recuperar dos efeitos da queda do petróleo daqui a dois anos, e mesmo assim aponta riscos a esta previsão, nomeadamente uma nova descida nos preços.

“A perspetiva é para uma recuperação que vai começar em 2017, mas há riscos negativos, incluindo uma descida mais acentuada nos preços do petróleo”, considerou Ricardo Velloso, que liderou a missão do FMI a Angola quando, em agosto deste ano, o país foi avaliado ao abrigo do artigo IV, uma análise anual à economia de cada um dos 188 estados membros do FMI.

Na avaliação, os peritos consideraram que a economia de Angola “foi severamente afetada pelo forte declínio dos preços no ano passado”, mas salientam que “um nível de reservas internacionais confortável permitiu equilibrar as consequências da queda do petróleo de forma mais suave do que em 2008-2009”, quando a recessão mundial fez os preços do petróleo caírem também de forma significativa.

Para além de insistir na diversificação económica para compensar a forte dependência do país do petróleo, que representa 75% das receitas fiscais e mais de 95% das exportações, o FMI mostrou a dimensão da crise em Angola, dizendo que “a atividade económica deve abrandar por causa do ajustamento que os setores industrial, da construção e dos serviços têm de fazer aos cortes no investimento público e no consumo privado, num cenário de forte redução da disponibilidade de moeda estrangeira”.

Isto significa que todos os setores em Angola são afetados, e a recuperação só pode surgir se as políticas públicas levarem em consideração vários fatores ao mesmo tempo, a começar na despesa: “Será crítico trazer a fatura com o setor público, medido em percentagem do PIB, para valores mais em linha com a nova realidade das receitas do orçamento”.

A política orçamental, diz o FMI, deve privilegiar a despesa pública de qualidade, mais racional e sistematizada, o que significa que é preciso “avaliar, selecionar e monitorizar os projetos do programa de investimentos públicos”.

As projeções feitas em agosto apontavam para um crescimento de 3,5% ao ano, quase o dobro daquilo que prevê o Governo de Luanda, e o défice das contas públicas deverá terminar o ano nos 3,5%, comparado com os 6,5% do ano passado. O problema, aponta o FMI, é a dívida pública, “que deverá aumentar significativamente para cerca de 57% do PIB, dos quais 14% corresponde a dívida da Sonangol”.

Reavaliar os projetos e dar prioridade aos que “criam potencial de crescimento e reduzem a pobreza” são outras das prioridades, que o FMI considera que já estão vertidas no Plano de Desenvolvimento Nacional, mas salienta que ainda é preciso “uma atenção especial à melhoria do ambiente de investimento, infraestrutura física e desenvolvimento do capital humano”.