Um baú carregado com milhares de cartas com origem e destino na Holanda nunca entregues nem abertas, datadas do século XVII, foi finalmente aberto e as respetivas cartas lidas e estudadas. O conteúdo representa um pouco daquilo que era a sociedade europeia neste período histórico. A coleção inclui correspondência de pessoas das mais variadas fatias da sociedade, desde aristocratas, espiões, comerciantes, atores, músicos até camponeses.

O estudo permitiu tornar público o apelo desesperado de uma mulher, provavelmente grávida, ao homem que seria o pai da criança. O homem, um mercador rico em Haia, recusou-se a aceitar a carta por, alegadamente, saber que esta traria más notícias. A situação desta mulher nunca foi conhecida, até hoje, 300 anos depois.

Conta o jornal The Guardian que o documento estava destinado a um mercador judeu em Haia e tinha sido escrito por uma mulher em nome “de uma amiga comum”. Esta “amiga” era uma cantora na ópera de Haia que mais tarde se mudou para Paris, onde descobriu a gravidez. Ao saber da notícia a atriz queria pedir dinheiro ao mercador, e provavelmente pai da criança, para regressar à cidade.

O destino da cantora é desconhecido. A única coisa que se sabe é que o envelope estava marcado “niet habben”, o que significa que o homem se recusou a ler a carta e que esta nunca foi aberta.

Você pode adivinhar sem dificuldade a verdadeira causa do desespero dela. Eu não consigo colocá-la em palavras; o que tenho de lhe dizer é tão excessivo. Contente-se com o pensamento nisto, e com o regresso dela para a vida financiando-o”, pode-se ler na carta destinada ao mercador judeu em Haia.

Rebekah Ahrendt, da Universidade de Yale, contou ao Telegraph, que “muitas destas pessoas eram praticamente analfabetas. Algumas contrataram escritores de cartas profissionais, mas a maioria está escrita por gente comum que escrevem as palavras foneticamente e nos seus próprios dialetos”. 

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A coleção inclui cartas de aristocratas, mercadores ricos, espiões, músicos, atores ou até de camponeses. MUSEU DA COMUNICAÇÃO DE HAIA

Apesar de apenas ter sido aberto agora, o baú foi entregue a um museu dos correios em Haia em 1926. Quase 90 anos depois as 2.600 cartas, 600 delas nunca tendo sido abertas, estão a ser estudadas por uma equipa internacional de académicos da Universidade holandesa de Leiden, Oxford, MIT e Yale. Utilizando modernas técnicas de scanning foi possível examinar os conteúdos sem abrir ou danificar nenhum dos envelopes selados.

Daniel Starza Smith, da Universidade de Oxford, afirma que há “qualquer coisa nestas cartas que nos faz sentir que apanhámos um momento de história conservado como numa fotografia,” antes de explicar que muitos dos autores destas cartas, datadas de 1680 a 1706, “eram pessoas que viajavam pela Europa, como por exemplo músicos ou exilados religiosos. O baú preservou cartas de muitas classes sociais, e de mulheres e homens.”

A maior parte dos documentos que sobreviveu a este período registou as atividades das elites – aristocratas e os seus burocratas, ou mercadores ricos. Assim, estas cartas contam-nos coisas novas sobre uma importante secção da sociedade europeia do final do século XVII. Estes são o tipo de pessoas cujas memórias, frequentemente, não sobreviveram, pelo que esta é uma oportunidade fantástica de ouvir novas vozes históricas”, Daniel Smith da Universidade de Oxford.

Para além de casos pessoais, muitos dos documentos referem-se à agitação política e social da época. São muitas as pessoas que avisam sobre roubos à beira da estrada ou se queixam de discriminação religiosa.