O livro do académico angolano Domingos da Cruz, um dos detidos acusados de tentativa de rebelião em Angola, foi hoje difundido na íntegra pelo ativista Rafael Marques através da Internet.

O estudo do manual “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura” – que nunca chegou a ser publicado em livro – está na base das detenções dos 17 jovens angolanos detidos em junho em Luanda e que vão começar a ser julgados no próximo dia 16 sob a acusação de rebelião e tentativa de assassínio do Presidente José Eduardo dos Santos.

Ainda quando Luaty Beirão mantinha a sua greve de fome, o Observador publicou em primeira mão um resumo alargado com excertos do livro que está a marcar a atualidade angolana. Agora, o site Maka Angola, do ativista e jornalista Rafael Marques, disponibiliza-o na íntegra.

“O manual é um convite à liberdade de consciência, à liberdade de pensamento, à liberdade de expressão, todas as liberdades formalmente garantidas pela Constituição Angolana. É um convite à transição de liderança. Será que isso não é lícito? Não pode um pensador angolano querer um regime diferente através da não-violência”, escreveu Rafael Marques na mensagem introdutória ao anexo em formato digital do livro de Domingos da Cruz.

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Na mesma nota, Rafael Marques acrescentou que as autoridades angolanas “precisam de encontrar um inimigo interno que recicle as frustrações da população”, que segundo o ativista está gravemente atingida pela crise económica e financeira criada “pela gestão incompetente do poder”.

“O que surge agora é uma velha técnica de sobrevivência política: face a dificuldades, criam-se colunas de fumo e inimigos para desviar a atenção das pessoas, enquanto se espera que a crise abrande. São criados os Inimigos do Povo para concentrar ódios e serenar contestações”, acrescentou Rafael Marques, referindo-se ao processo dos 15 jovens que estão detidos — duas aguardam julgamento em liberdade – considerados prisioneiros de consciência pela Amnistia Internacional.

A agência Lusa teve acesso, no dia 30 de outubro, ao manuscrito do livro “Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura — Filosofia Política da Libertação para Angola”, de Domingos da Cruz, que estrutura o trabalho, sobretudo, a partir das ideias defendidas pelo filósofo e académico norte-americano Gene Sharp, referindo claramente que rejeita o recurso a golpes de Estado como forma de derrube de ditadores.

Entretanto, o embaixador itinerante angolano António Luvualu de Carvalho disse à Lusa que os ativistas detidos desde junho em Luanda, acusados de conspiração, queriam provocar uma intervenção da NATO em Angola que conduzisse ao derrube do Presidente.

Socorrendo-se das afirmações feitas na passada semana em Luanda pelo ministro do Interior angolano, Ângelo Veiga Tavares, o embaixador itinerante repetiu que seria posta em prática uma marcha até ao Palácio Presidencial, “levando com que fossem quebradas as regras de segurança (…) para que a guarda presidencial ou a polícia presente reagisse, matasse crianças, matasse senhoras e matasse idosos para provocar a comoção internacional e justificar então uma intervenção vergonhosa”.

“É isto que se procurava. Que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ou alguns países que dela fazem parte fizessem um ataque a Angola, para que se verifique o horror que se verifica agora na Líbia ou se verificou e verifica na Tunísia”, acentuou o diplomata angolano.