“Detetives do ramo de Investigação do Legado que estão a investigar as ocorrência do Domingo Sangrento detiveram um homem de 66 anos esta manhã, no Condado de Antrim.”

A mensagem surpreendeu muita gente. Era a manhã de segunda-feira e, no Twitter, a polícia norte-irlandesa anunciava o que, em 43 anos, nunca dera sinais de poder vir a acontecer. Um dos agentes que a 30 de janeiro de 1972 tinha disparado sobre vários manifestantes em Derry, num protesto contra (sobretudo) o aprisionamento de centenas de pessoas, suspeitas de pertencerem ao IRA (Exército Republicano Irlandês). Contaram-se treze mortes no acontecimento que a história guardou como um massacre e denominou de Bloody Sunday, o Domingo Sangrento. E só agora chegou o primeiro suspeito detido pelas autoridades.

Desconhece-se o nome, mas trata-se de um ex-militar que pertencia ao Regimento de Paraquedistas das Forças Armadas Britânicas, às quais se juntara seis anos antes da tragédia. Está a ser interrogado, noticiou o The Guardian, por ser suspeito de ter matado a tiro três pessoas (de 15, 17 e 20 anos) e por tentativa de homicídio de uma quarta, já depois de a marcha terminar. Tinha 23 anos no dia do massacre. A detenção pode ter surpreendido, mas, em setembro, a polícia da Irlanda do Norte já comunicara que pretendia interrogar pelo menos sete antigos militares devido ao envolvimento no Domingo Sangrento. Daí que as autoridades já conhecessem o homem detido esta segunda-feira.

O que foi o Domingo Sangrento

Mostrar Esconder

O Bloody Sunday ocorreu durante uma manifestação a 30 de janeiro de 1972. Entre cinco a 20 mil pessoas (as estimativas variam) reuniram-se no centro de Derry, segunda maior cidade da Irlanda do Norte, para protestarem contra o aprisionamento de centenas de pessoas, suspeitas de terem ligações ao IRA (Exército Republicano Irlandês).

Quando alguns manifestantes confrontaram uma das barricadas erguidas por militares britânicos, para controlar o protesto, vários soldados dispararam armas de fogo. Treze pessoas morreram nesse dia e uma outra faleceu meses depois, vítima de ferimentos sofridos na marcha, organizada pela Associação dos Direitos Civis da Irlanda do Norte.

Em 1998, o Reino Unido deu início a uma investigação ao massacre, cujos trabalhos apenas terminaram em 2010. A conclusão: “Nenhum dos manifestantes constituía uma ameaça de morte ou de causar ferimentos graves”.

O britânico foi um de vários soldados das Forças Armadas britânicas citados (neste caso, como Soldado J) na investigação do Saville Report, um relatório que demorou 12 anos a ser concluído — e ficou assim conhecido graças ao apelido de Mark Oliver Saville, o então Juiz do Supremo Tribunal de Justiça do Reino Unido. A investigação, tornada pública em 2010, concluiu que os militares dispararam sobre manifestantes quando “nenhum constituía uma ameaça de morte ou de causar ferimentos graves”.

As conclusões do relatório levaram David Cameron a apresentar um pedido de desculpas, em nome do governo britânico, aos familiares das vítimas, pelas “mortes injustificadas e injustificáveis”.

Dois anos volvidos, a polícia norte-irlandesa abriu uma investigação a vários incidentes ocorridos durante o The Troubles — período de conflito, com cerca de três décadas, em que a Irlanda do Norte foi palco de confrontos entre fações nacionalistas, sobretudo católicas e a favor de uma Irlanda unida, e outras pró-britânicas, protestantes, defensoras de uma Irlanda do norte integrada no Reino Unido. A detenção do Soldado J é a mais recente das autoridades do país e a primeira relacionada com o Domingo Sangrento. Mas já várias vozes falaram sobre a hipótese, e os perigos que lhe são inerentes, de despertar sentimentos de revolta e ressentimento.

A de Peter Mandelson foi uma delas. O antigo secretário de Estado britânico para a Irlanda do Norte, cargo que ocupou entre 1999 e 2001, alertou para “os perigos” de rebobinar tanto a cassete da história: “Os perigos estão na memória das pessoas, na capacidade de produzirem as suas próprias provas e factos do que ocorreu há tanto tempo e de as apresentarem a algum tribunal, comissão de justiça ou o que seja”. Depois, Peter Hain, outro ex-titular do posto (de 2005 a 2007), defendeu ao The Daily Telegraph que, “a certa altura, a Irlanda do Norte tem de seguir em frente”, ao duvidar se é possível “continuar a caçar antigos soldados, agentes da polícia ou membros do IRA para sempre”.

Foto: Frederick Hoare/Central Press/Getty Images

Vários deputados do Parlamento britânico também já criticaram a detenção, lembrando o Good Friday Agreement. O documento, assinado em 1998, definiu muitas das bases e muitos dos acordos para a paz entre a Irlanda do Norte, o Reino Unido e a Irlanda, tendo igualmente servido para ilibar vários suspeitos de terrorismo identificados durante o período do The Troubles. “É desconhecido se as investigações se vão focar unicamente nas ações que os soldados tiveram naquele dia ou se também serão detidos indivíduos que participaram em atos terroristas ilegais durante o mesmo período”, questionou Gregory Campbell, deputado do Parlamento norte-irlandês, do Partido Democrático Unionista (DUP), citado pelo The Newsletter, jornal do país.

Depois há outras vozes, como a de Kate Nash, irmã de uma das vítimas que alegadamente terá morrido devido a balas disparadas pelo ex-militar detido esta segunda-feira. “Sempre lutámos muito para ser tratados de forma justa pela justiça. Vejo isto com um passo positivo”, confessou. Já John Kelly, irmão de outro dos falecidos no massacre, defendeu que “finalmente as coisas estão a avançar”, antes de admitir ter esperança que “todos os autores de disparos serão eventualmente detidos e interrogados”. Segundo o The Guardian, a polícia da Irlanda do Norte já recolheu os depoimentos de 34 soldados e 310 testemunhas desde 2012, quando iniciou a investigação.