A manhã desta quinta-feira foi mais confusa do que o habitual na capital espanhola, Madrid. Às 6h00, a câmara municipal ativou o protocolo de combate à elevada contaminação do ar e a primeira medida foi a limitação da velocidade máxima a 70 km/hora em todos os acessos à cidade. A consequência foi imediata: enormes engarrafamentos nas principais autoestradas.

A decisão de ativar o protocolo foi tomada depois de, na terça e quarta-feira, quase metade dos medidores da capital espanhola terem registado níveis de dióxido de nitrogénio acima dos 200 microgramas por metro cúbico. Este valor, durante dois dias, é considerado como “alta contaminação do ar” e, por isso, foi ativada a primeira etapa do protocolo, que limita as velocidades. Caso a situação não se normalize até sexta-feira, é ativada a segunda etapa: proibição de estacionamento aos não-residentes.

Este plano de combate à má qualidade do ar foi elaborado pelo anterior executivo da câmara madrilena, mas esta foi a primeira vez que foi posto em prática. A nova câmara, liderada por Manuela Carmena (eleita por uma coligação de que faz parte o Podemos), pretende ir ainda mais longe e tomar medidas bem mais restritivas ao uso do transporte próprio. Se as novas regras já estivessem em vigor, neste momento a proibição de estacionamento aos não-residentes de Madrid já estaria no terreno, por exemplo.

O executivo madrileno quer não só mudar os critérios para a ativação do protocolo (reduzindo os períodos e os valores necessários) como quer tomar medidas efetivas e duradouras para combater o problema sistematicamente. Entre outras coisas, a câmara quer aumentar o número de zonas 30 (áreas onde a velocidade máxima é de 30 km/h, à semelhança do que acontece em Lisboa), reformular a política de estacionamento de modo a privilegiar os moradores e apostar mais no transporte escolar coletivo. A par disto tudo, a equipa de Carmena quer também investir no desenvolvimento e promoção da rede de transportes públicos. E há coisas simples que podem ajudar: ao contrário de Lisboa e outras cidades portuguesas, espanholas e europeias, Madrid ainda nem sequer tem um bilhete único para todos os transportes. 

Se o Twitter foi invadido por madrilenos a queixarem-se dos grandes engarrafamentos desta manhã, o ayuntamiento também não ficou calado. Nas últimas horas foram lançadas várias mensagens de agradecimento às pessoas que optaram pelo transporte público e de explicação do problema que constitui a má qualidade do ar.

Em Lisboa, a câmara criou diversas zonas 30, as polémicas zonas de emissões reduzidas que proíbem a circulação a carros antigos e ainda zonas de acesso condicionado (como o Bairro Alto e Alfama). Há uns meses, aquando da apresentação de melhores resultados da qualidade do ar, o vereador da Estrutura Verde, José Sá Fernandes, afirmou que ainda queria “fazer mais”, exemplificando com a gestão municipal dos transportes públicos, a qual permitiria implementar “uma serie de medidas, não só para a mobilidade, mas para tirar mais carros da rua e para oferecer melhor serviço às pessoas”. Um dos motivos apontados pela autarquia para a realização de obras em praças e no eixo entre o Marquês de Pombal e Entrecampos é precisamente a necessidade de melhoria da qualidade do ar.