Crítica de Livros

Cassiano Branco: Éden, Cristal, Britânia e muito mais

Vasco Rosa já leu a nova edição de "Cassiano Branco 1897-1970", sobre o "pombalino modernista" deste arquitecto, e mostra um portfólio do que sobrevive e do que desapareceu.

Título: Cassiano Branco 1897-1970. Arquitectura e artifício
Autor: Paulo Tormenta Pinto
Editor: Caleidoscópio
Páginas: 600
Preço: 39,75 €
ISBN: 978-989-658-301-9

CVB capa

Quer o design quer a arquitectura feitos em Portugal no século passado têm recebido em anos recentes atenções críticas e historiográficas redobradas, uma série de exposições, livros e teses académicas que nos têm permitido conhecer ou reconhecer melhor, não apenas os artistas por detrás das casas e dos objectos de uso corrente, mas também refutar o proclamado isolamento do país, primeiro, durante a república caótica e, depois, debaixo da “longa noite fascista”.

Cada vez mais vamos percebendo que, afinal, arquitectos, designers e outros artistas plásticos que com eles colaboraram (ou não), por leituras ou viagens ocasionais na Europa, por conta própria ou como bolseiros, estavam muito a par das tendências estéticas emergentes nos seus diferentes ramos de actividade, delas fazendo transbordo para muito do que produziram entre nós, com o beneplácito dos seus “promotores”, igualmente informados. E assim se vai construindo ou constrói uma memória crítica, finalmente extensiva aos territórios ultramarinos, documentando enfim uma arquitectura modernista de especial qualidade onde se dizia haver apenas abandono e mau colonialismo, ou ao meio industrial interno, sempre dado como endémico e fragilizado, mas com instalações fabris de certa qualidade. O reconhecimento de uma política integrada de design e produção de mobiliário para instalações públicas, das escolas aos hospitais, e da administração às forças armadas, etc., está a permitir a sua inventariação em todo o país, tentando salvaguardar o que ainda reste.

Dispomos, portanto, actualmente, além de algum trabalho de campo, de uma bibliografia em progresso, produzida por investigadores debruçados sobre arquivos públicos e privados (cuja relevância e conservação ganham assim — e só assim — uma premência que não pode ser neglicenciada pela política de quem quer que nos governe), ou nalguns casos apoiados ainda na memória vívida de protagonistas directos, ou indirectos, como sucedeu com as filhas de Cottinelli Telmo num documentário realizado por António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira em 2013.

Foi precisamente após a aquisição do espólio do arquitecto pela Câmara Municipal de Lisboa — por intervenção do ainda vereador João Soares — que em 1991 se realizou uma mostra e publicou Cassiano Branco: uma obra para o futuro (Asa, 237 pp.; design de Henrique Cayatte), uma obra pioneira e de referência que contou com a generosa colaboração de destacadas figuras desse nobre ofício (Troufa Real, Frederico George, Formosinho Sanchez, Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira, até Tomás Taveira) e de alguns estudiosos da arquitectura (José Manuel Fernandes, Jacinto Rodrigues, Paulo Varela Gomes, José António Bandeirinha), além do “inevitável” professor José Augusto França. Também aí colabora Augusta Adrêgo Maia, que em 1986 dedicara a Cassiano uma tese, orientada por França na Universidade Nova de Lisboa, coincidente no tempo com uma outra exposição, desta vez na Associação de Arquitectos Portugueses e organizada por Raul Hestnes Ferreira. Dois anos mais tarde, Maria Jesus Mendes de Carvalho apresentou uma tese sobre a obra do arquitecto, ainda inédita.

Toda esta progressiva aproximação a Cassiano esperaria ainda cerca de uma década pelo trabalho de Paulo Tormenta Pinto, considerado desde então o vértice do conhecimento acerca da vida e obra deste arquitecto, nascido em Lisboa em 1897. Um ano antes (2006), orientado por José Manuel Fernandes, Filipe Almeida estudou a “reabilitação da arquitectura modernista nos prédios de rendimento de Cassiano Branco”, e mais tarde José Bártolo, numa ágil e breve monografia incluída numa colecção sobre arquitectos portugueses (QuidNovi, 2011, 93 pp.), reconheceria no trabalho de Tormenta Pinto a grande referência sobre o assunto.

É precisamente este livro de Novembro de 2007, então publicado com um formato diferente e design de Carlos Roque, que a Caleidoscópio agora republica — com o mesmo título e sem a consagradíssima linha “Nova edição, revista e ampliada” —, omitindo qualquer parentesco entre eles. Se a crítica de livros é um comentário ao trabalho dos autores mas também dos editores, e se um livro sobre “arquitectura e cidade” não é ou não deve ser destinado exclusivamente a colegas de ofício (capazes de lembrar o que já viram ou leram), mas a todos os “vizinhos” nela, as razões deste procedimento são incompreensíveis, pois até o grafismo e o papel da 1.ª edição são incomparavelmente melhores do que os da actual (design de Eugénio Trigo).

A documentação visual foi amplamente renovada e alargada (onde muitas vezes se ganhou e outras claramente se perdeu), mas o livro conservou a sua exacta estrutura antiga e muito do texto inicial. Por incrível que pareça, oito anos depois a bibliografia não foi actualizada, deixando de lado, além dos trabalhos acima referidos e outros de mediana relevância, um livro em que obras centrais de Cassiano são directa e minuciosamente escrutinadas. Refiro-me a Margarida Acciauoili, Os cinemas de Lisboa: um fenómeno urbano do século XX (Bizâncio, duas edições 2012-123, 384 pp.), e que, por todas as razões, não podia mesmo ter escapado ao conhecimento do autor — e do editor…

Decadências e decrepitude

Não é apenas na bibliografia que a informação não foi actualizada. No verbete sobre o Hotel Britânia, na Rua Rodrigues Sampaio, 17, não é dito que essa pérola art déco foi classificada como edifício de interesse histórico, do mesmo modo que, por exemplo, referindo-se ao Victoria-Hotel (pp. 191-207), não se dá conta da reabilitação da pérgola da cobertura pelo actual proprietário, nem se comenta o estado do edifício, convertido em sede partidária, apesar de o mesmo ser visitável ocasionalmente.

Aliás, o estado geral das construções — das melhores que, no seu género, se fizeram em Lisboa nas décadas de 1930 e 1950, a ponto de terem dado origem a um “estilo”, inúmeras vezes replicado, a que Varela Gomes chamou “pombalino modernista” — parece ser assunto que pouco inquieta o estudioso da arquitectura, mais preocupado em estabelecer a diacronia técnica ou estética de um arquitecto ou a história de uma específica campanha construtiva, dos primeiros riscos à aprovação camarária e daí por diante. Em 2015, não há uma única linha acerca da eventual decadência deste ou daquele edifício, nem a mínima inquietação sobre o que ocupantes actuais possam fazer ou desfazer neles, como seria prudente avaliar quanto ao Cinema Império, por exemplo. Ora, a decrepitude de prédios como  Rua do Salitre, 179, e Rua dos Navegantes, 53, fica à vista no portfólio fotográfico de Fernando Guerra (pp. 577-99). A da Rua Nova do Desterro, 7, já se percebia bem no filme de Edgar Pêra de 1991. Não importa isso?

E, no entanto, são obras de Cassiano Branco já demolidas ou profundamente alteradas (“um número dramático”, considerou Bártolo, p. 78), como a moradia na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, 87, os magníficos Café Cristal, Garagem-Stand Rios d’Oliveira e “Quiosque Palladium”, todos na Avenida da Liberdade, e o Éden-Cinema, claro, com a sua inesquecível escadaria, nos Restauradores, ou, em larga medida, as dezenas de prédios de rendimento (isto é, de arrendamento), mais sensíveis aos desmandos do tempo e dos inquilinos e ao desequilíbrio entre rendas cobradas e custos de reparação e manutenção, que poderiam sobressair, e algumas ainda podem, numa cidade que tem um património edificado banal ou medíocre, e basta pensar em termos peninsulares.

Insisto: no panorama de Lisboa os prédios de (ou ao estilo de) Cassiano Branco — da Defensores de Chaves à Álvares Cabral, da Rua Nova de São Mamede à Rodrigo da Fonseca, das Trinas à Praça de Londres, da Avenida de Roma à Joaquim António de Aguiar — têm uma qualidade de habitar invejável e de difícil contestação, e a visão da rua a partir do dentro de portas de prédios como Álvares Cabral, 44, Defensores de Chaves, 27, e Trinas, 59, nada tem a ver com “projectar o banal” e “prédios urbanos vulgares”, grosseiramente atribuídos a construtores patos bravos, símbolos da “trivialidade dos prédios” e da “cidade corrente e especulativa” (pp. 539, 537)…

Incongruências e simplificações históricas

Paulo Tormenta Pinto apresenta-nos Cassiano Viriato Branco como “personalidade periférica” (p. 537), alheada ou afastada dos circuitos profissionais e da encomenda pública (colaboração mínima na Exposição de Belém e ausência do congresso dos arquitectos de 1948) e, além de “boémio” (sic), próximo de construtores civis, engenheiros e desenhadores muito activos, numa capital em expansão urbana e demográfica. Vinca-lhe, além disso, uma dobra de direcção estilística por volta de 1940, o tal compromisso ou “ambiguidade” comum à sua geração de arquitectos, a qual geração, todavia, a julgar por este livro, nunca terá existido, pois nenhuma perspectiva comparativa ilumina o percurso e o trabalho projectístico do arquitecto face aos seus pares, em especial aqueles com equivalente influência sobre Lisboa, como Porfírio Pardal Monteiro e Cristino da Silva, ou Keil do Amaral.

Para tal mudança terá concorrido de forma decisiva Fernando Bissaya-Barreto, um médico e filantropo de Coimbra, e o seu convite para desenvolver nessa cidade o projecto e construção do célebre Portugal dos Pequenitos. Tal influência ficou longe de ser esclarecida, mas, a partir daí, conclui Pinto, Cassiano oscilaria “entre o excesso e a miniatura” (p. 538), passando dos estudos históricos (incluindo um décor para filme de época e um estudo do teatro romano olisiponense) às inquirições urbanísticas (Rossio), aos ensaios monumentais (Sagres), à hidroeléctrica (Belver) e à utopia de uma ponte sobre o Tejo, algo que não se esperaria de alguém até então virado para o residencial contemporâneo e o ócio urbano, de cinemas e cafés. O Grande Hotel das Termas do Luso (1939) foi o melhor que sobrou de tudo isso.

O livro está generosamente polvilhado de simplificações históricas e políticas, nexos literários e artísticos forçados ou improváveis, e outras incongruências habitualmente residentes em trabalhos académicos portugueses, nunca suficientemente expurgados desse tipo de incomodidades. Mas constitui, ainda assim, um repositório fundamental para fixar definitivamente Cassiano Branco no centro da arquitectura de Lisboa do século XX, e como tal deve ser considerado.

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