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O tempo era para declarações políticas, que é como quem diz para cada partido usar o palco do Parlamento para falar sobre o que quiser. Numa altura em que o país, sem governo em plenas funções, está mergulhado numa crise política, e o mundo, na sequência dos atentados em Paris, está mergulhado numa crise de segurança, foram estes dois temas que dominaram o debate no Parlamento. O CDS escolheu o terrorismo e a importância da coordenação entre a Europa e a Rússia para responder aos atentados de Paris, PS, PCP e BE optaram por falar da situação política nacional, e o PSD juntou as duas – e foi aí que esteve o problema, com direito a pateadas e subidas de tom no plenário. 

Não foi sequer preciso falar da NATO ou da hipótese de uma intervenção militar mais direta na Síria e Iraque para que os deputados se desentendessem. Começou com a intervenção do PSD, pela voz do deputado eleito pelo círculo da Europa, Carlos Gonçalves, que subiu ao palanque para prestar uma homenagem à comunidade portuguesa que vive em Paris e que, “também ela”, viveu o drama de sexta-feira passada. Mas a declaração não se limitou à “solidariedade”, e o deputado social-democrata aproveitou o momento para deixar duras alfinetadas aos partidos da esquerda que esperam vir a constituir governo:

“As comunidades portuguesas olham com perplexidade para a situação que o país vive atualmente. Não compreendem que no seu país quem ganha eleições não governa e não compreendem que um caminho percorrido que mobilizou todos os portugueses possa agora ser posto em causa por questões que visam apenas concretizar objetivos de sobrevivência política”, disse.

Mas a apropriação do tema à boleia de uma declaração sobre os atentados terroristas de sexta-feira não caiu bem ao PS. Paulo Pisco, deputado socialista também eleito pelo círculo da emigração, reagiu com “surpresa” e indignação: “Inicialmente pensava felicitar o senhor deputado pela sua intervenção, mas fiquei muito surpreendido que tenha misturado as duas coisas, é inadmissível e de muito mau gosto“, disse, subindo o tom de voz e motivando uma troca de argumentos entre Pisco e Carlos Gonçalves, que foi acompanhada de diversos à partes das bancadas.

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As pateadas que se fizeram ouvir durante esta parte do debate motivaram mesmo o Presidente da Assembleia, Ferro Rodrigues, a pedir aos deputados para “não partirem a mobília”. 

CDS chama NATO, esquerda em silêncio

À parte desta troca de argumentos, os trabalhos parlamentares, de resto, começaram de forma pacífica com a leitura de um voto de condenação e pesar subscrito pelo Presidente da Assembleia da República e apoiado por todos os grupos parlamentares. Na assistência estava o embaixador de França em Portugal, que participou no minuto de silêncio que foi feito no Parlamento em homenagem às vítimas. O consenso em torno do tema começou por ser, por isso, generalizado.

Certo é que, ao contrário do esperado, o tema do terrorismo e da necessidade, ou não, de maior intervenção de Portugal na luta contra o Estado Islâmico não dominou o debate desta quarta-feira no Parlamento. O assunto seria sensível à esquerda, já que PCP e BE são frontalmente contra uma resposta ao problema pela via da agressão e o tema poderia motivar alguma divergência com os socialistas. Daí que, aprovado por unanimidade o voto de pesar e feitas as intervenções iniciais sobre o massacre da última sexta-feira, tenha sido o PSD e o CDS a insistir no tema “terrorismo” durante as intervenções políticas desta tarde, com a esquerda a reservar as suas declarações para falar sobre a Constituição, o papel do Presidente da República na atual crise política e a formação de um novo Governo. 

Depois de o social-democrata Carlos Gonçalves ter apelado a um “reforço da cooperação entre os Estados no plano da União Europeia e a nível internacional”, e de o deputado Sérgio Azevedo ter anunciado que o PSD vai chamar ao Parlamento o ministro da Defesa para falar sobre a resposta de Portugal e da UE ao problema, foi a vez de o centrista Nuno Magalhães subir à tribuna da AR para apelar a um maior entendimento, não só entre os Estados-membros da UE sobre a estratégia conjunta de combate ao terrorismo, como também entre a UE e a Rússia, “que é milenar, de tradição cristã, e que já lá estava antes da União Soviética e lá continua depois dela”.

Para o CDS, o entendimento “substancial” com a Rússia nesta matéria de combate ao Estado Islâmico é fundamental na medida em que aquele país “tem voto no Conselho de Segurança” da ONU, o que quer dizer que nada pode ser aprovado naquele âmbito sem o seu consentimento.

A esse propósito, Nuno Magalhães defendeu a NATO para dizer que o ocidente precisa de “uma aliança atlântica forte” para superar as ameaças externas. “Um certo pacifismo ingénuo não é resposta de estados sérios e sociedades abertas à evidência do terrorismo como uma espécie de quinta coluna em solo europeu”, disse.

Mas da parte da esquerda, ouviu-se apenas silêncio. Os deputados podiam inscrever-se para fazer pedidos de esclarecimento e debater o tema, mas preferiram não o fazer. Não houve inscrições. Antes, durante a discussão sobre o voto de pesar do Parlamento, tanto João Oliveira, PCP, como Pedro Filipe Soares, BE, e Heloísa Apolónia, PEV, tinham defendido os valores da “liberdade, igualdade, fraternidade” e “solidariedade” pedindo que não se caísse na “armadilha do ódio”.