“Gangster”, “reviralho”, “ressabiamento”. Não, isto não são argumentos de uma discussão dos tempos quentes do PREC. São trocas de palavras de agora, motivadas pela indefinição sobre se António Costa será ou não o futuro primeiro-ministro, com o apoio do PCP e BE. O ambiente está crispado, dizem, e é verdade.

Senão, vejamos. O deputado socialista Tiago Barbosa Ribeira apelidou o Presidente da República (PR) de “gangster”, em reação às declarações em que Cavaco Silva comparava a atual situação política à de 2011, tendo-se apressado a pedir desculpa no dia seguinte. Em relação às mesmas declarações do PR, Gabriela Canavilhas, colega de bancada de Barbosa Ribeiro e ex-ministra da Cultura, subscreveu um comentário em que o autor chama “múmia” a Cavaco Silva. Já Catarina Martins acusou Cavaco Silva de se comportar como um “líder de seita”, aquando da indigitação de Passos Coelho. Por seu lado, a Associação 25 de Abril, em comunicado assinado por Vasco Lourenço, afirmou que Cavaco Silva, por indigitar Passos Coelho como primeiro-ministro, estava a comporta-se como um “chefe de fação”.

Já o bloquista Francisco Louçã considerou que o pedido de revisão constitucional de Passos Coelho (para pode haver já eleições antecipadas) era “uma garotice”, e António Costa disse esperar que “o ressabiamento nervoso da direita”, em vésperas da aprovação da moção de rejeição que fez cair o Governo de coligação de direita, passasse. Passou? Não parece.

No entanto, os insultos também se vierem da direita em direção à esquerda. Passos Coelho, no âmbito da privatização da TAP, acusou a esquerda de ter um “programa estrutural de reversão da economia”, o qual apelidou de “reviralho”. O ex-ministro da Economia, António Pires de Lima, afirmou que um governo de esquerda, de quem perdeu, seria “uma obscenidade política”. Já nas palavras da ex-líder do PSD Manuela Ferreira Leite, na altura em que se começou a discutir a ideia dos acordos à esquerda, a aliança corresponderia “a um verdadeiro golpe de Estado”. 

E não parou. Aquando da discussão do programa de Governo, Paula Teixeira Cruz, ex-ministra da Justiça, afirmou que os partidos de esquerda “engendraram um dos mais perigosos embustes”. Nas palavras do deputado do CDS Telmo Correia, foi “uma manigância” e o líder do CDS Paulo Portas argumentou: “Isto não é bem um Governo, é uma geringonça”. O eurodeputado Paulo Rangel foi mais longe e acusou António Costa de “medo e de cobardia”, por não ter discursado no primeiro dia da discussão do programa de Governo da coligação. 

Ilustração de Milton Cappelletti

*Texto editado por Helena Pereira