Em agosto deste ano, onze soldados foram mortos num ataque terrorista na região norte de Timbuktu no Mali. O atentado foi reivindicado por um grupo alegadamente ligado à al-Qaeda. A situação tornou-se habitual. Desde 2012, depois da rebelião do grupo tuaregue contra o governo do Mali, a instabilidade tomou conta do país. À semelhança de várias zonas do Norte de África e do Médio Oriente, essa instabilidade abriu espaço à entrada e estabelecimento de grupos terroristas e de rebeldes que controlam partes do território do país africano.

Estes grupos armados, alguns presumivelmente ligados à al-Qaeda, aproveitaram o rescaldo do golpe de estado dos tuareges e o norte do Mali passou a partir daí a ser um centro de conflitos e atentados.

Os próprios tuaregues, num primeiro momento, juntaram-se aos grupos apoiados pela al-Qaeda do Magrebe Islâmico, como o Ansar Dine, o Mujao (braço da al-Qaeda em África) ou os nigerianos do Boko Haram (aliados do autodenominado Estado Islâmico). No entanto, em 2012, esta aliança terminou e estalou um outro conflito, entre os tuaregues e os demais grupos. Os islamitas consolidaram o controlo e expulsaram os responsáveis do golpe de estado, deixando toda a região nas mãos das organizações terroristas.

Em janeiro de 2013, a França lançou uma intervenção militar no Mali com o objetivo de travar o avanço da ameaça à estabilidade e soberania do país. Ou seja, a intenção era libertar o norte. O ministro da defesa francês chegou a afirmar, mais tarde, que a operação estava terminada e a missão cumprida. Foi até assinado um acordo de paz entre tuaregues e o governo nesse mesmo ano de 2013 mediado pela ONU.

Mas a paz nunca chegou. A França reorganizou as forças e ficou por lá. Os atentados terroristas passaram a fazer parte do quotidiano do país. E as respostas francesas também. Em maio deste ano, por exemplo, as tropas gaulesas abateram dois comandantes da al-Qaeda, Adama Ag Hama e Ibrahim Ag Inawalen, numa operação na zona norte ocupada do Mali. Os dois eram suspeitos de sequestrar e matar cidadãos franceses em atentados anteriores.

O ataque registado na capital Bamako, esta sexta-feira, no hotel Raddinson, parece confirmar o que já vinha a ser relatado. As frações rebeldes presentes no norte começam a expandir o seu teatro de operações e dirigem-se à capital. 

É importante também referir que este país africano foi uma colónia francesa desde os finais do século XIX até 1960, ano em que conquistou a sua independência do controlo gaulês. Este facto fez com que o francês seja ainda a língua oficial do país. A população, que conta com quase 17 milhões de pessoas, é maioritariamente composta por muçulmanos: segundo dados de 2009, 94.8% das pessoas pertenciam a esta religião seguidos por 2.4% de cristãos. Com uma economia dependente quase exclusivamente das minas de ouro e de exportações agrícolas, o Mali está entre os 25 países mais pobres do mundo. 

Para se perceber melhor a escalada das tensões no Mali há que recuar portanto até 2011:

Outubro de 2011: Tuaregues lançam rebelião.

Março de 2012: O governo cai na sequência do golpe militar, um mês depois os tuaregues, juntamente com combatentes ligados à al-Qaeda, conquistam o controlo do norte do país.

Junho de 2012: Os grupos islâmicos controlam Timbuktu, Kidal e Gao aos tuaregues, impondo a Sharia (a lei islâmica).

Janeiro de 2013: Os combatentes islâmicos começam a aproximar-se de Bamako (a capital). O Mali pede ajuda à França.

Abril de 2013: A França começa a mobilizar tropas.

Julho de 2013: A França entrega formalmente às forças da ONU a responsabilidade pela segurança do norte. 

Março de 2014: A França anuncia a redução do número de militares mobilizados para cerca e 1.000. 60% dos soldados estacionados no Mali regressam a casa.

Maio de 2015: As tropas francesas matam dois comandantes da al-Qaeda, Adama Ag Hama e Ibrahim Ag Inawalen.

04 de agosto de 2015: 11 soldados foram mortos na região norte do Mali, Timbuktu. O atentado foi reivindicado por um grupo alegadamente ligado à al-Qaeda.

08 de agosto de 2015: Grupo armado mata pelo menos 13 pessoas num ataque a um hotel na cidade de Sevare no centro do país.

09 de agosto de 2015: 10 civis são mortos por um alegado atacante islâmico na vila de Gaberi no norte do Mali. 

20 de novembro 2015: Os ataques chegam à capital, Bamako, com o sequestro no hotel Radisson de 170 reféns.