O ex-primeiro-ministro timorense Xanana Gusmão “não é corrupto” mas “tolera os corruptos”, permitindo que uma grande parte dos membros do Governo “se governem” em vez de trabalhar, a sério, para o desenvolvimento de Timor-Leste, disse Mário Carrascalão. “Tolera os corruptos e posso dizer isso por experiencia própria”, afirmou em entrevista à Lusa. “Eu próprio cheguei a pedir-lhe para suspender a ex-ministra da Justiça, Lúcia Lobato para poder ser investigada pela inspeção-geral (do Estado). E ele vira-se para mim e diz: deixa lá, eles têm tantas dívidas, coitados”, afirmou.

Em entrevista à Lusa, Mário Carrascalão, terceiro governador nomeado pela Indonésia (de 18 de setembro de 1983 a 18 de setembro de 1992) para Timor, analisou os últimos 40 anos da história de Timor-Leste, apontando o dedo às falhas da governação.

“Ele tolera. O que preciso definir é se o faz por bondade ou por ser conivente, eu não sei. Não diria que todos os membros do governo são corruptos, mas uma grande parte vê na posição que adquiriu como ministro, poder governar-se“, afirmou.

“Bem estaríamos nós se esses senhores fossem para o Governo e quisessem utilizar os seus conhecimentos para poderem programar o desenvolvimento de Timor como resposta às aspirações e necessidades das pessoas. Não é isso que está a acontecer”, disse ainda.

Mário Carrascalão diz que um sinal dos problemas está no “medo que os governantes têm da liberdade de imprensa” porque “têm culpas no cartório”, não querem que “as suas faltas sejam expostas” e por isso “cortam as vazas aos jornalistas”. “Os nossos jornalistas em si já não são muito bem treinados, são pessoas com muitas deficiências e ainda lhes cortam as vasas. Se nós não falarmos não escrevem. Têm medo. Digo-lhes para fazer jornalismo investigativo, mas não podem. Eles têm medo, basta tocar em determinados nomes“, afirmou.

Frontal, Mário Carrascalão – que abandonou o cargo de número dois do IV Governo incompatibilizado com Xanana Gusmão – diz que este, que é o atual ministro do Planeamento, “ignora a maioria” e pretende “fazer vingar o poder individual”.

“Acho que Xanana trouxe para o Governo não tanto como PR, mas como PM, um autoritarismo próprio de um comandante militar. Como comandante militar dou-lhe nota 100%, mas como PM eu acho que faria um lugar melhor do que ele”, disse.

“Ele não está talhado, e não tem obrigações disso. Eu sim. E depois é uma pessoa que lê pouco. É um estratega sem dúvida mas não é um estratega na administração é um estratega militar, que foi, sem dúvida nenhuma”, disse ainda.

Carrascalão considera que a independência se deve a Xanana Gusmão mas que depois ele foi “como Salazar” que “salvou Portugal nos anos da crise” mas depois “quis continuar e levou ao poder único”, pelo que “o melhor que faria” era retirar-se.

Já sobre o atual chefe do Governo, Rui Araújo, Carrascalão considera que é “um bom administrador mas não é um líder político”, sendo incapaz de controlar o seu antecessor no cargo de primeiro-ministro.

“Não é um homem com coragem para virar-se para o Xanana, que é ministro dele e dizer-lhe: você não faça isso porque as minhas instruções são assim. Não é capaz disso”, disse.

Quanto ao atual chefe de Estado, Taur Matan Ruak, Carrascalão considera que, como Xanana Gusmão, “é mais talhado para ser Presidente do que para ser primeiro-ministro” e que Xanana Gusmão deveria ter ficado com “um símbolo, um embaixador itinerante”.

Sobre o outro poder em Timor-Leste, a Igreja, o antigo governador recorda o seu “grande trabalho pela independência de Timor” mas insiste que há que respeitar a Constituição que separa Estado e Igreja. “Quando era aqui governador, tinha relações com a Igreja mas nunca permiti que a igreja se imiscuísse nas ações da administração. E a administração não tem coragem para tomar medidas relativamente à igreja”, disse.

Ainda assim, considerou, a igreja já teve “oportunidade para abusar da situação” e só “não foi tão longe” porque tem figuras, como o bispo Basílio do Nascimento, a liderá-la.

Em termos gerais, Mário Carrascalão considera que a má gestão leva a que Timor-Leste hoje “tenha os mesmos pobres ou mais pobres do que antigamente” com o desenvolvimento a limitar-se praticamente a Díli. “Como é que se pode desenvolver um país ao fim de 13 anos e não haver estradas para o interior. Preocupamo-nos demais com subsídios dos veteranos. Nunca vi tanto veterano de guerra. Quando eu era governador, se houvesse assim tantos veteranos tinham ajudado o Xanana Gusmão a dar uma corrida aos indonésios”, disse.

Falta planeamento, definição de prioridades, que deixou o país sem uma economia de base, “se acabar o petróleo”, com o café praticamente abandonado, sem barragens para a irrigação e com a agricultura sem grande desenvolvimento.