Os parasitas intestinais podem ter maior influência sobre o organismo humano que do que a que pensava até agora. Um estudo publicado pela revista Science refere que as lombrigas podem atuar sobre a fertilidade feminina e ajudar as mulheres a engravidar com maior frequência.

A investigação foi realizada com 986 índias da tribo Tsimané da Bolívia e analisou dados recolhidos ao longo de 9 anos. Os cerca de 16 mil indivíduos da tribo vivem na Amazónia boliviana e cerca de 15 a 20% da população tem lombrigas (Ascaris lumbricoides) e 56% da população é hospedeira de outro parasita intestinal, os ancilóstomos (Ancylostoma duodenale ou Necator americanus, dois tipos de vermes).

A forma como as lombrigas interferem na fertilidade feminina ainda não é conhecida com precisão, mas os investigadores especulam que a presença do parasita intestinal têm influência sobre o sistema imunológico, o que pode ajudar a reduzir a inflamação e desta forma promover a conceção e implantação do embrião no útero. Uma reacção semelhante à que ocorre no corpo da mulher quando esta engravida, uma vez que o sistema imunológico tem também que desenvolver mecanismos para permitir o desenvolvimento do feto e evitar a rejeição do “intruso”, um organismo com elementos estranhos ao corpo da mãe. 

Entre os Tsimané as mulheres têm em média 9 filhos durante o seu período fértil e o estudo concluiu que o tempo entre filhos era menor nas mulheres com lombrigas. Por outro lado, as mulheres da tribo com ancilóstomos tiveram, em média, menos 3 filhos. Ou seja, os dois tipos de parasitas atuam de forma oposta sobre a fertilidade feminina: as lombrigas aumentavam a taxa de reprodução, enquanto os ancilóstomos a diminuíam.

Uma das conclusões mais importantes deste estudo é o facto de reforçar que “o estado do sistema imunológico tem uma importância crucial para o sucesso da reprodução”, disse Norbert Gleicher, um imunologista reprodutivo na Universidade de Rockefeller, em Nova Iorque à revista Science.

Os resultados foram considerados “contraintuitivos e surpreendentes”, mas os investigadores frisam que uma aplicação literal dos resultados do estudo não é equacionada. Ou seja, não se prevê que mulheres inférteis possam ser infetadas com este tipo de parasitas. A possibilidade que o estudo deixa em aberto é “o desenvolvimento de uma imunização que produza o mesmo tipo de resposta imune que as lombrigas,” referiu Norbert Gleicher.