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Se há coisa que os Beach House não andaram a fazer este ano foi a dormir na praia à sombra do sucesso. Em agosto, mês preguiçoso por excelência, lançaram o quinto disco, Depression Cherry, e anunciaram a digressão mundial que chegou esta segunda-feira a Lisboa e que na terça se apresenta no Porto. Não contentes, menos de dois meses depois fizeram sair mais um álbum, Thank Your Lucky Stars, o sexto desde que Victoria Legrand e Alex Scally se juntaram para fazer música, em 2004. Às vezes quantidade também pode ser sinónimo de qualidade e o Armazém f esgotou um mês antes para ver a banda de Baltimore.

A primeira parte, a cargo do guitarrista Dustin Wong, deveria ter começado às 21h00, mas só meia hora mais tarde é que o público começou a ouvir música. É que, às 20h50, a fila para entrar na sala do Cais do Sodré dava a volta ao parque de estacionamento e a parte do edifício. A entrada foi mais demorada do que o habitual porque estavam seis polícias a revistar malas e a obrigar cada pessoa a submeter-se ao detetor de metais. As escadas paralelas ao palco, onde o público normalmente pode ficar, estavam interditas, talvez pela grande proximidade aos artistas. Após os atentados de 13 de novembro em Paris, e com a tragédia no Bataclan bem presente, as autoridades portuguesas admitiram vir a reforçar a segurança em alguns eventos, ainda que a polícia não tenha dado nenhuma explicação para o aparato.

Quem também não disse uma palavra foram os Beach House, quando às 22h30 entraram finalmente em palco. Acompanhados pelo baixista Skylar Skjelset (dos Fleet Foxes) e o baterista Graham Hill, Victoria Legrand e Alex Scally atiraram-se logo a “Levitation”, música que inaugura Depression Cherry.

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HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Victoria Legrand está sempre no centro do palco e das atenções. Ao comando do teclado, é ela quem dá as primeiras notas de “Walk in the Park”, num breve passeio até Teen Dream, de 2010. O cabelo comprido tapa-lhe metade da cara, as luzes baixas completam o mistério. Mas mesmo só se vendo por vezes uma silhueta, é para ela que os olhares são atraídos, ora gesticulando para os colegas, ora fazendo sinal para que desapareçam os irritantes flashes dos telemóveis que tentam iluminar um ambiente que foi pensado para ser escuro. Olha-se também atentamente para confirmar que aquela voz única que se ouve em disco é mesmo dela, ainda que este seja o quinto concerto da banda em Portugal desde a estreia no velho Maxime, em 2008.

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De volta às canções de Depression Cherry, primeiro com “Wildflower” e depois com “PPP” — nada relacionado com as tão faladas parcerias público-privadas, mesmo que as primeiras palavras que Victoria Legrand tenha dirigido ao público esta noite tenham sido precisamente antes de tocar esta música. “Alright, alright, let’s get fucking wasted“, disse, enérgica. À quinta canção entramos no universo melódico de Thank Your Lucky Stars com “All Your Yeahs” e assistimos a uma troca, com Alex a sentar-se no teclado e Victoria a agarrar na guitarra e a dar uso à amplitude das cordas vocais.

Antes de regressar a Teen Dream, com “Silver Soul”, a vocalista e teclista pede ao microfone que alguém da organização desligue as luzes do balcão lá em cima. Mas ninguém pareceu estar a ouvir. Nada de muito grave, já que os jogos de luzes, ora simples, ora com um efeito de estrelas no céu ou bola de espelhos sobre o público, não saíram prejudicados pela claridade do piso superior.

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HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Houve mais canções novas, sim, como “Space Song”, a viciante “One Thing” e, claro, “Sparks”, a fechar o encore com um sabor a shoegaze. Mas mesmo com dois álbuns para promover, a banda de dream pop fez questão de dar ao público um bocadinho de cada fase. Em “Wishes” e “Myth” revisitamos Bloom, de 2012; em “Mile Stereo” voltamos a Teen Dream de forma apoteótica, com um final carregado de feedback de guitarra e bateria endiabrada.

Quando regressam do encore, Alex fala pela primeira e única vez para dizer que se lembra muito bem do primeiro concerto que deram em Portugal, no Maxime, porque marcou um ponto de viragem. Se até aí só conseguiam ter nos seus concertos “para aí 10 pessoas”, em Lisboa ficaram encantados com as cerca de duzentas que apareceram. Desde então foi sempre a crescer. Em 2013 atuaram no TMN Ao Vivo e ficaram contentes quando souberam que desta vez iam atuar num sítio chamado Armazém f… Para logo perceberem que se trata exatamente da mesma sala, mas com um nome diferente. Antes de terminarem as 16 canções do alinhamento, com “Somewhere Tonight” e “Irene”, prometem que da próxima voltam “a um sítio melhor”, onde ninguém fique de fora. 

Na terça-feira, os Beach House dão o último concerto da digressão europeia no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, antes de regressarem aos Estados Unidos. Também ali os bilhetes estão há muito esgotados. As salas com 10 pessoas já lá vão (esta noite até Rufus Wainwright estava na plateia). Hoje, os Beach House são um fenómeno da música alternativa e quem sabe se da próxima vez não há um Coliseu para os receber.