Há dois grupos de pessoas que foram ao concerto do Kurt Vile esta terça-feira no Armazém f, em Lisboa: aquelas que cantaram “Wakin on a Pretty Day” e versos soltos de outras canções, e aquelas que cantaram “Wakin on a Pretty Day” e silenciosamente balançaram o corpo ao ritmo do resto do repertório. Em comum? A preferência unânime pela canção do penúltimo disco do cantor, Wakin on a Pretty Daze.

Não que o público não gostasse ou conhecesse a setlist do Kurt Vile. Mas o corte é o que melhor expõe as qualidades do trabalho do músico e compositor: melodias indie folk construídas a seu próprio tempo. Três a cinco estrofes conduzem o ouvinte “num passeio sereno” ao refrão, que chega quase sem avisar.

Este exercício de paciência e contemplação aplicou-se mal o norte-americano pisou o palco, quando soaram os primeiros acordes de “Dust Bunnies”, a canção de abertura. Ao final do seu longo solo de guitarra, seguiu-se I’m an Outlaw”, um título em que o banjo discretamente chamou o protagonismo para si.

“Pretty Pimpin” veio à continuação, momento em que Kurt Vile escutou as primeiras palmas menos tímidas do público. A canção do disco que lançou este ano, B’lieve I’m Goin Down…, foi um dos sete títulos entre os 14 defendidos em Lisboa, último concerto da digressão pela Europa este ano. Na primeira parte do concerto, o grupo Lushes apresentou-se em substituição dos Waxahatchee, cancelados por “motivos de saúde”.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

A seguir, um dos fundadores dos War on Drugs introduz “That’s Life, tho (almost hate to say)” e “Wheelhouse”, momentos em que o músico, escondido atrás do cabelo, dedilhou a sua guitarra com uma força e intensidade que pouco pareciam ter a ver com o ambiente introspetivo criado pelas suas melodias. Kurt Vile estava no seu mundo e os espetadores estavam a ser convidados para entrar neste espaço.

Acompanhado apenas de uma guitarra acústica, “Dead Alive” e “Stand Inside” demonstraram ainda mais este paradoxo: as letras descreviam com subtileza o amor e as relações, enquanto o músico impacientemente balançava o instrumento, agitado, quase nervoso. “How are you?”, perguntou ao final desta secção, quando agradeceu as “boas vibrações” dos espetadores.

Em “KV Crimes” e “Wakin on a Pretty Day”, apareceram os primeiros braços levantados no público. Estariam a percorrer “num passeio sereno” o mundo de Kurt Vile?

Após “Jesus Fever” e “Wild Imagination”, o concerto termina com “Freak Train”, mas antes uma pausa para a introdução dos The Violators, grupo de apoio do compositor. É precisamente o grupo quem brilha no último tema, cujo solo de saxofone evidenciou a disparidade da qualidade do som na sala de espetáculos.

Para o encore, Kurt recuperou os temas “Puppet to the Man” e “Baby’s Arms”. Com um “peace”, o músico despediu-se do palco consciente da sua missão de não quebrar tão abruptamente o ambiente introspetivo criado no concerto. O público ter-se-ia dado conta de que “Wakin on a Pretty Day” estava a soar agora apenas nas suas cabeças?

Cerca de 20 minutos depois do fim do concerto, quando quase todas as pessoas já tinham abandonado o recinto, um pequeno grupo de fãs amontoava-se perto do palco: Kurt Vile estava a tirar fotos e a distribuir autógrafos. O cabelo já não cobria o seu rosto e o discurso quase monossilábico deu lugar a um eloquente músico, que respondia atentamente às perguntas dos seus seguidores. Kurt Vile parecia ter finalmente chegado a Lisboa.