Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

A sintética língua inglesa já deu nome àquilo que andamos a fazer quando nos apanhamos sozinhos na cama, no carro, no café ou mesmo no meio de um jantar com familiares ou nos momentos mortos do escritório. Não vale a pena esconder. Todos sabemos que quando alguém está a rir sozinho para o ecrã do telemóvel, ou a digitar como se o mundo fosse acabar dali a segundos, está a fazer… sexting. Que é como quem diz, em bom português, está a trocar mensagens sexuais, que podem ir de um inocente “as minhas mãos têm o cheiro do teu perfume” até fotografias sexuais explícitas, sem falar de toda uma galeria de emoji que estão a surgir na internet para apimentar estas conversas.

Do texting ao sexting

Texting, em inglês, significa enviar uma mensagem de texto via telemóvel. Mas como o primeiro objetivo das palavras é criar ligações entre as pessoas, rapidamente os telemóveis passaram a ser um poderoso aliado dos flirts (seduções), a ponto de a língua inglesa ter inventado o termo flirxting. Mas eis que, chegados à época dos iPhones e smartphones, o caso muda de figura e de sofisticação. Com todas as possibilidades icónicas de fazer e enviar fotos, vídeos, gravações de voz, passando pelos mais ou menos inocentes emoji, os jogos sexuais tornaram-se quase tão apelativos num ecrã como na vida real. Bem-vindo ao mundo do sexting, que é uma mistura de texto com sexo.

Há quem ponha a culpa nos adolescentes. Há mesmo blogues e sites de pais preocupados em como impedir que os filhos enveredem por estas relações inconsequentes usando os smartphones que eles lhes ofereceram para garantir a sua segurança. A verdade verdadinha é que todos, dos 14 aos 94 anos, já o fizemos ou estamos prestes a fazer porque o sexting é o namoro mais excitante do novo milénio. Ora repare:

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

  • Não há a gaguez do primeiro encontro.
  • Se corarmos ninguém vê.
  • Se tivermos as mãos suadas e o coração a bater muito não temos que ir à casa de banho molhar-nos com água fria.
  • Se estivermos despenteados e sem o banho tomado, ninguém nos impede de nos descrevermos como a mais fresca e perfumada criatura.
  • Se estivermos com borbulhas podemos enviar uma selfie do nosso melhor ângulo.

Enfim, a imaginação é o limite mas o bom senso é o colete salva vidas.

Licking Lips - Flirtmoji

imagem:flirtmoji.com

Os mestres do sexting asseguram que a arte reside em saber “implantar na cabeça do outro o vírus do desejo, a ponto de ele/ela não conseguir pensar noutra coisa que não seja fazer sexo consigo”. Se este sexo terá ou não lugar na vida real isso é outra história que não vamos abordar aqui. Porque o sexting é, na verdade, uma retórica amorosa que não é assim tão diferente da que usava Ovídio na Arte de Amar (Ars Amatoria), escrita no século I a.C., ou da que usava Camões no século XVI quando escrevia assim às donzelas:

Se vos quereis embarcar
e para isso estais no cais,
entrai logo; que tardais?
Olhai que está preiamar!
E se outrem, por vos fretar,
vos disser que esta que pende,
dir-lhe-ei, mana, que mente.
Esta barca é de carreira,
tem seus aparelhos novos;
não há como ela outra em Povos,
boa de leme e veleira.
Mas, se por ser a primeira,
aos disser alguém que pende,
dir-lhe-ei, mana, que mente.”

Ora, nesta redondilha o nosso maroto Camões mais não estava a fazer do que a explicar às raparigas a virilidade do seu membro que ele não cessa de afiançar que “é bom de leme e de veleira”. Portanto meninas, se “estais no cais” (prontas para a sedução), não deixem fugir esta barca “que não pende”.

Ora se o nosso génio renascentista compunha redondilhas sexuais escondidas em paisagens bucólicas e campestres, que poderemos nós hoje fazer com o smartphone e a nossa imaginação? Exatamente o mesmo. Apaixonarmo-nos, seduzirmo-nos, ligarmo-nos uns aos outros. A única coisa nova são mesmo os dispositivos tecnológicos. O resto é antigo como o mundo.

As regras do sexting

O sexting, como o flirting, é antes de tudo um jogo e deve ser encarado como tal. Isto significa que não pode embarcar num sexting a pensar que vai encontrar o amor da sua vida, o príncipe encantado, bla, blá, blá. Provavelmente não vai sequer encontrar um namorado mas sim um caso passageiro, uma “one nigth stand” onde há corpo e palavras mas não há carne. Isto resolve logo muitos problemas, como as doenças, a contraceção, o desconforto do contacto com uma pessoa quase desconhecida. Aqui a palavra-chave é jogo. Se não for capaz de lidar com isso é melhor não experimentar. Se for, estas são as regras:

  • A arma mais poderosa do sexting são as palavras.
  • Quanto maior o seu vocabulário, mais poderá instigar a imaginação e o desejo no outro.
  • Comece por fazer perguntas simples como “onde estás?” ou “o que tens vestido” para perceber se é um bom momento para a abordagem.
  • Não avance com pormenores da sua anatomia pois só vai parecer ridículo/a e desesperado/a e ninguém gosta de pessoas desesperadas.
  • Interesse-se pelo outro para que ele/ela se interesse por si.
  • Faça elogios e galanteios à outra pessoa.
  • No início é proibido usar pornografia. Isso é sentido como uma agressividade e pode acabar com o seu flirt logo ali.
  • Use palavras, metáforas, jogos de palavras que fiquem entre o maroto e o inocente.
  • Nunca use linguagem obscena.
  • Não escreva com erros ortográficos (isso é o fim do flirt).
  • Não comece logo a enviar fotos.

Usar imagens no sexting

Qualquer jogador, se quer ganhar, tem que saber ser atrevido e aventureiro, mas também recuar. Para isso há que ser intuitivo e ler nas entrelinhas das respostas se a outra pessoa está a aderir ou não.

Cock Rocket - Flirtmoji

imagem:flirtmoji.com

No início de um sexting os emoji são um bom aliado pois, como qualquer ícone, têm um forte potencial simbólico e são, ao mesmo tempo, ambíguos. O site Flirtmoji é especializado em bonequinhos de índole sexual e amorosa e tem um arquivo de desenhos para todos os gostos.

O uso de fotografias e vídeos deve ser feito com parcimónia e bom senso, pois há coisas de que não se pode esquecer, nomeadamente que sempre que envia uma imagem sua é muito provável que ela vá parar à internet e lhe traga complicações. Por mais confiável que lhe pareça o seu/sua parceiro/a amoroso/a, a verdade é que ninguém conhece ninguém. Portanto:

  • Comece por enviar fotografias sugestivas e não exibicionistas. Lembre-se que o jogo é manter a pessoa a fantasiar consigo. E as fantasias constroem-se com imagens veladas: um pé, um umbigo, um ombro, uma peça de roupa íntima.
  • Quando passar às fotos explícitas, a regra é: nunca mostre a cara na mesma foto onde mostra o seu corpo nu. Se quer mostrar o rosto, mostre só o rosto. Se quer mostrar o corpo, os seios, o sexo, faça-o em fotos onde o seu rosto nunca apareça.

Usar emoji no sexting

Há quem adore emoji e há quem os deteste. Antes de começar a enviar carradas de bonequinhos saltitantes, confira se a outra pessoa tem a mesma disposição ou prefere uma conversa mais adulta com mais palavras e menos desenhos.

Talvez os adolescentes refugiem as suas emoções num smile ou num doce minion, mas atenção: rapazes que mandam demasiados emoji são um “balde de água fria”. As raparigas querem atrevimento e não casinhas, para isso continuavam a brincar com bonecas. Já para as raparigas o volume de emoji permitido é maior. Os rapazes não se espantam com os bonecos, desde que isso não inviabilize a conversa. Lembre-se que o tempo em que se comunicava por hieróglifos já acabou.

images

A Flirtmoji pediu a uma designer gráfica que criasse uma coleção de emoji-vaginas de todas as formas e feitios. Esta série gráfica foi celebrada pelas revistas femininas como um forma de acabar com os secretismos em torno do órgão sexual feminino. Imagem:flirtmoji.com

Lembre-se que o sexting não é o mesmo tipo de troca de mensagens que se fazia nesse tempo remoto dos telemóveis, em que cada um descrevia com pormenor e pontuação o que estava a fazer, ou queria fazer. O sexting é todo ele rapidez, agilidade de palavra e de dedos (salvo seja). Não pode haver tempos mortos. Além do mais, pode ainda ser feito com várias pessoas ao mesmo tempo, desde que não use os nomes de nenhuma delas.