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Lopetegui tem o plantel que quis. E viu-se livre de quem não quis, como foi o caso de Quaresma. Se se espreitar com atenção os planteis dos seus mais diretos rivais, Benfica e Sporting, é verdade que o FC Porto não tem Gaitán ou Jonas, que não tem William ou Slimani, mas tem soluções de sobra e mais do que uma por posição. Às vezes até tem três. E quatro. Tivessem Jesus ou Vitória toda essa fartura e, certamente, esfregariam as mãos de regozijo. Mas quando a fartura é muita…

Lopetegui na última temporada fez rotação do “onze” jogo sim, jogo não. O difícil foi ver-lhe o chamado “onze do costume” jogo sim, jogo sim. Esta temporada, idem. Mas que isto da rotação tem muito que se lhe diga. Se, por um lado, a rotação é boa para que ninguém chegue ao final da época, aos jogos do tudo ou nada, a arfar como um alpinista chegado ao cume do Evereste, também é, por outro lado, má, uma vez que ninguém pode dizer que se conhece verdadeiramente de olhos vendados no relvado. Se o Rúben Neves venda os olhos, por exemplo, sabe lá o “miúdo” se quem está ao lado dele é o Danilo ou se é o André André, se é o Herrera ou se é o Evandro. As rotinas de jogo são essências num clube que se quer ganhador. Não é por acaso que se lhes chama “rotinas”. E o FC Porto é um clube ganhador, que não tem vencido tanto quando quer, mas que quer voltar a vencer. E rapidamente.

E o FC Porto lá vai vencendo esta temporada na Liga e está somente a dois pontos do Sporting, o líder – se os verde-e-brancos vencerem o Belenenses na segunda-feira ficam com uma mão-cheia de pontos à frente do FC Porto, mas este terá sempre um jogo em atraso ainda por disputar, com o União da Madeira).

Mas há algo que nem o mais acérrimo defensor de Lopetegui (provavelmente nem a madre dele) pode negar: o futebol dos dragões, com ou sem rotação no onze, com ou sem fartura de soluções no plantel, não enche o olho. Simplesmente não enche. O que enche é o tempo no cronómetro e o relvado a meio-campo, com bola lá, bola cá, passes curtos, longos, tabelinhas, tudo o que o futebol pede, é verdade, mas sem aquilo que o adepto de futebol mais pede: os golos. Ou pelo menos as ocasiões de golo.

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Na bancada do Estádio Municipal de Aveiro alguém pedia a gravata a Lopetegui, num daqueles cartazes que normalmente pedem tudo e mais um par de botas aos jogadores. Mas se aqueles dois adeptos soubessem ao que iam, o que tinham pedido a Lopetegui era um bocadinho mais de verticalidade no futebol dos dragões. E um cafézinho, já agora, que a noite foi fria e com tanta monotonia no relvado, o café lá espantaria com os bocejos de uma vez por todas.

Uma coisa é certa: no final do jogo, quem saiu do Estádio de volta a casa ou quem desligou a televisão e se “desalapou” do sofá, nem precisou de ouvir a canção do Vitinho (lembra-se dela? “Está na hora da caminha, vamos lá dormir”) para desejar a cama tanto como o cão de Pavlov desejava que a campainha tocasse.

Se estou a exagerar? Não. Nem um pouco. O FC Porto fez quatro remates à baliza do Tondela em todo o jogo. Quatro. Um deles foi de Brahimi, logo aos 28′. Foi o primeiro dos quatro, aliás. E deu logo em golo. Um golo daqueles que Brahimi quererá gravar em DVD para daqui por muitos, muitos anos mostrar aos netinhos Brahimi. Ele até é useiro e vezeiro em golões. Mas este, com dribles sobre dribles, sempre com a redondinha colada ao pé, para depois, sem ter mais adversários que driblar, chutar em arco para o canto superior direito da baliza do desamparado Cláudio Ramos (que nem os pés tirou da relva). Se dormisse lá uma coruja, mesmo no cantinho, Brahimi ter-lhe ia acertado em cheio.

Foi o que de mais bonito se viu em Aveiro esta noite. Se Brahimi soubesse o que sabe hoje, tinha pedido para esvaziarem logo ali as bancadas, para recolher toda a gente ao balneário, tinha pedido que desligassem as luzes e ligassem a rega: a noite estava mais do que feita. Over and done. O argelino tem pozinhos de perlimpimpim nas botas — os restantes, pelo menos esta noite, tiveram as botas empoeiradas.

Mas ainda foi preciso aguentar toda a primeira parte e a segunda que a seguir viria. Lopetegui, pouco depois do golo de Brahimi, foi ver o jogo para um camarote. Não, não se aborreceu. Aborrecido já estava ele. E fartou-se de bracejar, espernear, berrar para o relvado. Manuel Mota lá achou que eram berros a mais, talvez pensando que algum deles foi para si, e expulsou o treinador espanhol.

Vamos já pular no tempo – é essa a vantagem de escrever uma crónica; não tenho que o maçar com o que de mais maçador vi. Abouakar faria um remate mais no primeiro tempo, Tello e Brahimi voltariam a fazer outro cada um no segundo, e o Tondela só por uma vez chutou verdadeiramente à baliza de Casillas. Quando? Foi aos 83′ e de penálti. De um lado estava um tal de San Iker — como lhe chamam em Espanha –, que nem espaço já deve ter para guardar tantos troféus nas estantes lá de casa. Do outro, estava Salva, um ponta-de-lança calmeirão que o Tondela foi contratar às divisões amadoras de Espanha.

Salva nem olhava Casillas nos olhos para não lhe tremeram as pernas. Casillas batia as luvas, como que a dizer: Mira, estoy aquí! E estava. Tanto estava que defendeu o penálti de Salva, salvando o FC Porto de um empate que não merecia sofrer. Mas lá que o golo do Tondela tinha dado uma agitadela no jogo, lá isso tinha. É que ainda restavam jogar sete minutos, mais os três de compensação que Manuel Mora daria, e com o falhanço de Salva (ou defesa de Casillas, tanto faz) o jogo foi mais do mesmo até final: o FC Porto a controlar, o Tondela a ser controlado e um marasmo que nem nos jogos de casados contra solteiros se vê mais.

Lopetegui quis construir um carrossel no Dragão. E ele tem mesmo um carrossel nas mãos: cheio de luzinhas, ora azuis, ora brancas – hoje até equipou mais de castanho que de azul-e-branco –, com cavalinhos de bom porte, e a música (que é como quem diz, os golos) às vezes convida a pular. Só que ao fim de tantas voltinhas e mais voltinhas no carrossel, até quem gosta de carrosséis, se enjoa. Haverá certamente adeptos do FC Porto que, uma vez por outra, até prefeririam dar uma volta no comboio fantasma. Sempre é mais emotiva.