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Música

Musicoterapia ajuda jovens institucionalizadas a libertar emoções

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O Lar Maria Drostes, em Carnide, Lisboa, uma instituição que acolhe meninas entre os 10 e os 17 anos vítimas de maus-tratos, adotou a musicoterapia para ajudar as jovens.

Getty Images

Autor
  • Agência Lusa

A vontade de melhorar o dia-a-dia de uma jovem autista vítima de um passado de maus-tratos, que apenas acalmava ao som da música, levou a instituição que a acolhia a procurar na musicoterapia uma forma de a ajudar.

A jovem chegou com 15 anos ao Lar Maria Drostes, em Carnide, Lisboa, uma instituição que acolhe meninas entre os 10 e os 17 anos vítimas de maus-tratos, abuso sexual, negligência parental, entre outras “situações de perigo”.

“Sabíamos que não ia ser fácil ajudá-la com terapia convencional”, tinha muitas “dificuldades no diálogo”, mordia-se e batia-se quando estava em ‘stress’, contou à agência Lusa a educadora social do lar da instituição, Patrícia Santos.

Segundo Patrícia Santos, a menina gostava muito de ouvir música: “Se puséssemos um rádio a tocar ficava tranquila a ouvir, a cantar e a dançar”.

Rapidamente os técnicos perceberam que a melhoria da sua qualidade de vida passava pela música e abriram as portas do lar ao projeto “Musicoterapia – Despertar de Emoções”.

Com a ajuda da musicoterapeuta Rita Maia “tudo mudou” no comportamento da menina, começou a “comunicar muito mais facilmente”, voltou a comer sozinha, começou a saber esperar e deixou de auto agredir-se.

“A musicoterapia veio dar-lhe uma maior capacidade de lidar com a sua ansiedade interior e ajudou-a a comunicar connosco de uma forma ainda mais afetuosa”, diz Patrícia Santos.

A menina já deixou o lar, mas a musicoterapia ficou, com o apoio do Instituto Nacional de Reabilitação (INR) que possibilita que mais jovens participem no projeto.

Foi há cerca de dois meses que Joana (nome fictício), de 16 anos, integrou o projeto. Tem problemas de inserção social devido ao seu passado, “em que se anulou como pessoa que tem direitos para poder ajudar os familiares”, conta Patrícia Santos.

Joana encontrou na musicoterapia uma forma de libertação e alegria, que foi bem expressa quando musicoterapeuta chegou para mais uma sessão a que a Lusa assistiu.

A aula começa com Rita Maia sentada no chão ao lado de Joana e de Teresa (nome fictício) a perguntar-lhes num tom melodioso e ao som da guitarra como correu a semana e como se sentem.

Depois desta apresentação, Rita desafia Joana a entoar a canção com a letra que compôs. Rapidamente a sala encheu-se de música, onde sobressaía a voz da menina: “Eu sou uma estrela a brilhar, eu não quero ser popular, eu apenas quer ser uma pessoa (…) quero perceber se alguém gosta de mim”.

Apesar de gostar muito de cantar, “a paixão” de Joana é o piano, onde se perde nas horas a tocar, mesmo sem saber as notas.

“Quando toco piano parece que estou noutro mundo, que não estou aqui no lar. A única coisa que sei explicar é que sinto-me bem, sinto-me mais alegre”, diz à Lusa.

Sobre as letras que escreve, Joana desabafa que quando lhe falta imaginação pensa em situações que lhe acontecem e que a “fazem feliz ou triste”.

A musicoterapeuta explica que muitas das letras que as jovens escrevem expressam as emoções que sentem e que são difíceis de verbalizar.

“Muitas têm um percurso de vida já muito vivido, tiveram muitas situações para ultrapassar, e às vezes a música é um libertador daquilo que vivenciaram, sem certo, nem errado, simplesmente expressam aquilo que lhe vai na alma”, diz Rita Maia.

Neste aspeto, a música dá “uma certa vantagem em relação às terapias verbais, porque elas conseguem expressar emoções que estão recalcadas, mas bastante presentes nos comportamentos e na sua forma de estar no dia-a-dia, através daquilo que tocam” ou que cantam, sustenta.

Falando do caso de Joana, Patrícia Santos diz que encontrou nesta terapia “uma forma de sair da bolha que ela própria criou”. Hoje “já tem a capacidade de acreditar nela própria” e “já fala com outras colegas sobre as coisas que a magoam”.

“Para nós [técnicos], mais do que musicoterapia, foi uma forma que conseguimos arranjar para que elas possam resolver os seus interiores que chegam aqui muito danificados”, remata a educadora.

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