União Soviética

A pequena aldeia suíça onde Lenine e outros socialistas discutiram a paz em 1915

Durante décadas chegaram cartas a Zimmerwald de crianças que pediam mais informações ou fotografias de Lénine. Em 1915, a Segunda Internacional, incluindo Lénine, reuniu-se para planear fim da guerra.

Zimmerwald é uma pequena aldeia com 1 100 habitantes.

wikiwand

A Primeira Guerra Mundial já durava há mais de um ano quando Vladimir Lénine, Leon Trotski e outros 36 socialistas e social-democratas, na altura sob a bandeira da Segunda Internacional, se reuniram numa pequena aldeia da Suíça: Zimmerwald.

O centenário desta conferência, que ocorreu entre 5 e 8 de setembro de 1915, passou despercebido para muitos, inclusive para os cerca de 1.100 habitantes de Zimmerwald. “Hoje, Zimmerwald não mudou muito desde 1915”, escreve a BBC. “E ao longo de 100 anos não houve sinal de que os fundadores da Revolução Bolchevique aqui puseram os pés.”

Nesses dias, reunidos num hotel sob o disfarce de uma conferência de ornitólogos, 38 militantes da Segunda Internacional discutiram o fim da Primeira Guerra Mundial — que, afinal, duraria até 11 de novembro de 1918. No final, deixaram um manifesto de 15 parágrafos em que apelavam ao fim imediato do conflito, que acreditavam ser uma maneira de os capitalistas tirarem os seus proveitos: “Os capitalistas de todos os países estão a lucrar um ouro manchado de vermelho pelo sangue derramado pelo povo”. Eis os dois primeiros parágrafos do Manifesto de Zimmerwald:

Proletários da Europa!

A guerra já dura há mais de um ano. Milhões de cadáveres cobrem os campos de batalha. Milhões de seres humanos foram marcados para o resto das suas vidas. A Europa é um gigantesco matadouro de homens. Toda a civilização, criada pelo trabalho de muitas gerações, está condenada à destruição. A barbárie mais selvagem celebra agora o seu triunfo sobre tudo aquilo que até agora era o orgulho da humanidade.

Independentemente da verdadeira responsabilidade pelo eclodir da guerra, uma coisa é certa. A guerra que provocou todo este caos é o resultado do capitalismo, da tentativa das classes capitalistas de cada nação de levarem avante a sua ganância pelo lucro através da exploração do homem e dos recursos naturais do mundo inteiro.”

À BBC, a historiadora da Universidade de Berna, Julia Richers, refere que “o Manifesto de Zimmerwald refere três coisas importantes (…) [ao dizer que] deve haver uma paz sem anexações, uma paz sem reparações de guerra e com a auto-determinação dos povos”. Algo que não aconteceu — e que, tendo em conta o seguimento da História desde 1918 até 1939, deveria ter acontecido, argumenta a historiadora: “Se olharmos para os tratados de paz da Primeira Guerra Mundial, aqueles três pontos não foram considerados, e sabemos que a Primeira Guerra Mundial levou, em parte, à Segunda Guerra Mundial, e por isso acho que o manifesto tinha alguns pontos muito importantes para uma Europa pacífica”.

A Primeira Guerra Mundial, já se sabe, não se ficou por 1915, tendo durado até 1918. Mas há outras datas importantes entre estas duas. Primeiro, em 1916 Lenine mudou-se para Zurique, a partir de onde idealizou uma revolução marxista aplicada à realidade do Império Russo. E em 1917 partiu desde essa cidade até Petrograd (hoje São Petersburgo). Foi a partir de lá que começou a Revolução Bolchevique em outubro de 1917. Em 1924, após a morte de Lenine, a cidade mudou de nome em sua homenagem e ficou conhecida como Leningrado.

A torrente de cartas e postais da União Soviética

Apesar de ter sido o local improvável de uma conferência que — embora de forma indireta — constituiu um dos vários passos que culminaram na Revolução Bolchevique, e assim resultando num dos acontecimentos mais marcantes do século XX, a aldeia de Zimmerwald não faz questão de lembrar esse facto. A historiadora Julia Richers chama-lhe “esquecimento à força”.

“À força” faz sentido, se se tiver em conta a quantidade de cartas e postais que chegavam a Zimmerwald com remetentes da União Soviética, em busca de mais informações sobre Lenine. A maior parte era escrita por crianças de escola, onde Zimmerwald era frequentemente evocada quando o assunto era o “Tio Lenine”.

“Pediam fotografias e panfletos”, diz à BBC o edil de Zimmerwald, que guarda um arquivo com todas estas missivas vindas do outro lado da Cortina de Ferro. “Algumas cartas eram endereçadas ao Museu de Lenine em Zimmerwald”, apesar de não haver qualquer museu em honra ao revolucionário bolchevique.

Ainda assim, cem anos depois da histórica Conferência de Zimmerwald, surgiu uma pequena homenagem àquele acontecimento. Além de um evento em que participaram historiadores e políticos, com discursos envolvidos, apareceu um modesto “monumento” dedicado àquela cimeira. Mesmo no sítio onde se localizava o hotel onde Lenine se hospedou (o edifício foi demolido para ali ser construída uma paragem de autocarro) foi colocada uma cartolina assente em contraplacado que faz uma alusão à reunião daqueles 38 socialistas e social-democratas disfarçados de estudiosos de aves.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: jadias@observador.pt
Censura

Rússia: A História e falta de humor negro

José Milhazes
110

A autocracia russa tem sérias razões para proibir o filme “A Morte de Estaline” pois vê-se retratada nas personagens do filme. Bem diz o ditado russo: “Não acuses o retrato se tens a cara torta”.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)