Coloque uma fotografia do anterior Governo ao lado de uma fotografia do novo Governo. Olhando só para as caras, sem conotações partidárias, o que salta à vista? A diferença. António Costa tem origem goesa, Ana Sofia Antunes é deficiente visual, Francisca van Dunem é negra. São três pessoas no meio de milhões de portugueses, muitos como eles. Mas acontece que António é primeiro-ministro de Portugal, Ana Sofia é secretária de Estado, Francisca é ministra.

Se olharmos para o Parlamento, vemos um deputado que se desloca em cadeira de rodas. Jorge Falcato é o primeiro. As diferenças estão aí. No dia internacional das pessoas com deficiência, perguntamos: porque é que temos tendência para destacar o que é diferente? O antropólogo Miguel Vale de Almeida explica que pensamos através de esquemas de categorização –  ou seja, “estabelecemos categorias, tipos de gente, por assim dizer”. As categorias mais relevantes “são as que, além de diferentes, constituem também desigualdades”. Temos as desigualdades de género, de grupos religiosos e as desigualdades que nascem da perceção étnica de raça. Muitas vezes mistura-se aqui também o passado aventureiro de Portugal e a marca colonial. É aqui que entra Francisca, a negra no meio dos brancos.

O que é o normal?

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O conceito de normal é transmitido por aquilo que é mais habitual. É algo que nós absorvemos da convivência com as pessoas que nos são próximas e da sociedade em que estamos inseridos”.

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Filipa Jardim da Silva, Psicóloga Clínica da Oficina de Psicologia

A palavra “negra” foi precisamente a primeira palavra usada pela esmagadora maioria dos meios de comunicação social, na altura de apresentar a nova ministra da Justiça. Aconteceu o mesmo com “a cega” Ana Sofia ou com o “cigano” Carlos Miguel. Faz sentido destacar a diferença? Miguel Vale de Almeida considera que a diminuição da discriminação faz-se “tornando as categorias diferenciadas mais visíveis, para que então triunfe o mérito pessoal”.

“Mérito/capacidade/competência, por exemplo no caso de Francisca Van Dunem, vão juntos com a importância simbólica de resgatar as pessoas negras do estigma histórico a que têm sido sujeitas”, considera Vale de Almeida.

tomada de posse,

Francisca Van Dunem, de origem angolana, é a nova ministra da Justiça. Sucede a Paula Teixeira da Cruz. (HUGO AMARAL/OBSERVADOR)

Títulos de artigos dos jornais portugueses dos últimos dias:

  • “Costa chama cega e cigano para o Governo”
  • “O secretário de Estado cigano de pai”
  • “De que cor é esta ministra?”
  • “Toma hoje posse a primeira ministra negra de um governo português”
  • “Ana Sofia Antunes, a primeira governante cega em Portugal”
  • “Saiba quem é a primeira secretária de Estado cega”
  • “Amblíope, cigano e negra. ‘O que interessa é a competência profissional'”

Porque é que estranhamos a diferença?

Antes de nos sentirmos culpados por rejeitarmos à partida o que é diferente, há que dizer que há uma explicação da Psicologia. Está estabelecido que os seres humanos têm necessidades e que essas necessidades têm uma hierarquia, uma ordem de prioridades, como apresentado por Abraham Maslow.  “Segundo este modelo, acima das necessidades fisiológicas surge a necessidade de segurança em todos os seres humanos. Quando a segurança é obtida, surgem as necessidades de pertença, isto é, sentir-se integrado num grupo”, explica Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica da Oficina de Psicologia.

Se nos sentimos bem integrados num grupo, tendemos a rejeitar o diferente ou desconhecido porque esse elemento “constitui um desafio ao que é conhecido, familiar e sentido como seguro“, acrescenta Filipa Silva. Perante uma mudança, seja boa ou má, a nossa primeira tendência é a rejeição.

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“Não há nem palavras – insulto nem perceção de desigualdade (simbólica, material, de acesso a cargos de decisão, etc) dirigidas, por exemplo, à categoria homem + heterossexual + branco + classe média”.

Miguel Vale de Almeida, antropólogo

Por outro lado, e de uma forma geral, as diferenças dos outros mexem com as nossas. “Quando vemos uma pessoa ‘diferente’, que tem uma ‘fragilidade’ e a assume de uma forma tão pública, lembramo-nos das nossas fragilidades e contradições. Ou seja, nós também temos as nossas diferenças e nem sempre estamos bem com aquilo que somos ou sentimos, seja por causa da pressão social, pelas expectativas (nossas e dos outros), por acharmos que esperam um determinado comportamento de nós…”, aponta Carolina Justino, psicóloga clínica.

Há momentos em que não nos apetece estar com os nossos filhos, ou ouvir o nosso companheiro, ou ajudar o nosso melhor amigo. E não é confortável mostrarmos essas fragilidades aos outros. Quem é diferente e se mostra diferente, está a assumir uma fragilidade. E nós não queremos isso”, esclarece Carolina Justino.

A palavra aqui é “pressão”. Há pressão para ser a mãe perfeita, a profissional perfeita, a namorada perfeita. E “as pessoas têm conflitos internos entre aquilo que acham que devem fazer e aquilo que querem fazer”. Quem coloca a sua diferença à vista de todos liberta-se desta “pressão” que é comum à maioria dos seres humanos. “Todos nós temos as nossas dificuldades. Podem é não ser visíveis. Estas pessoas não escondem. Têm algo que as condicionou mas ultrapassaram e vivem bem com isso”.

Um exemplo: a deficiência. Jorge Falcato inaugurou o tema nesta legislatura quando foi eleito deputado à Assembleia da República. O deputado do Bloco de Esquerda desloca-se em cadeira de rodas, depois de ter ficado paraplégico em 1978. Sendo o primeiro, teve destaque nos jornais e obrigou a “pequenas obras” na Assembleia. Esta semana, chegou a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência Ana Sofia Antunes, deficiente visual, como a própria prefere ser chamada. Isso ou cega — invisual é que não. A deficiência física dos dois é um dos tópicos da lista de diferenças.

Lisboa, 26/11/2015 - Sofia Antunes (nova secretária de estado para inclusão) chega ao Palácio Nacional da Ajuda. Decorre esta tarde a cerimónia de tomada de posse do XXI Governo Constitucional. (Paulo Spranger / Global Imagens)

Ana Sofia Antunes é presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal. É agora secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. Diz ela: ““Um país que não respeita os seus deficientes não tem respeito por si próprio.” (Paulo Spranger / Global Imagens)

Quando vemos alguém em cadeira de rodas lembramo-nos que somos falíveis e é essa fragilidade da vida que nos assusta”, sugere Carolina Justino. Por outro lado, incluir pessoas com deficiência no Governo e no Parlamento é “dar oportunidade às pessoas de mostrarem que são… capazes, ‘eficientes’“, aponta o professor Miguel Vale de Almeida.

Depois dos sublinhados da cor da pele de António Costa e de Francisca Van Dunem, da origem cigana do secretário de Estado das Autarquias Locais Carlos Miguel ou das deficiências físicas dos dois protagonistas acima, a questão é: devemos ou não destacar essas características?

“Idealmente, as categorias de diferença não deveriam existir nem ter relevo político ou legal. E devemos batalhar por isso. Mas no mundo real, as pessoas das categorias discriminadas (que sofrem os efeitos de desigualdade em função da marcação da sua diferença) perdem”, ou seja, são menos visíveis, têm menos validação, explica Vale de Almeida. “Assim, tornar essas pessoas (discriminadas) visíveis, trazê-las para o “centro”, é fundamental. Assim como ter políticas de discriminação positiva“, considera o antropólogo que já foi deputado pelo PS.

Um exemplo de discriminação positiva é a Lei de Quotas que obriga a que as listas à Assembleia da República sejam constituídas por um terço de pessoas do sexo oposto. Como habitualmente as listas são compostas maioritariamente por homens, são as mulheres que acabam por beneficiar dessa “discriminação positiva” e marcam mais presença na política. Depois, então, pode triunfar o mérito e a competência pessoal.

Na verdade, a história da diferença começou a fazer-se no dia das eleições legislativas e em parte por causa da Lei de Quotas. O Parlamento ficou preenchido por 76 deputadas, o que representa um terço de mulheres no Parlamento — uma fração nunca antes vista e aplaudida por muitos.

A atualidade mostra-nos que a aceitação da diferença é um dos maiores desafios presentes. Aceitar o diferente não passa por nos identificarmos necessariamente com o outro, mas por respeitá-lo, sem o querer destruir”, refere Filipa Jardim da Silva.

Para quem tem pouca tolerância ao outro, Filipa Jardim da Silva garante: há esperança. “A capacidade de aceitar o que é diferente pode ser treinada e estimulada ao longo do nosso desenvolvimento pessoal, pelo que quanto maior for o sentimento de segurança e a capacidade de flexibilidade, maior será a capacidade de aceitar o que é diferente numa postura de respeito e tolerância, independentemente de nos identificarmos ou não. Tendemos a estranhar o que é diferente, menos frequente, mas podemos criar uma maior capacidade de tolerância ao que é distinto”, conclui.