Diplomacia

Há muita retórica e pouca ação na valorização da língua portuguesa

O coordenador do congresso internacional "Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro", Carlos Reis, afirmou em Coimbra que "falta vontade política" e ação por parte dos países e entidades responsáveis na difusão e valorização da língua.

JOAO RELVAS/LUSA

O coordenador do congresso internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”, Carlos Reis, afirmou em Coimbra que “falta vontade política” e ação por parte dos países e entidades responsáveis na difusão e valorização da língua.

“Não se tem feito quase nada. Há planos de ação de que ouvimos falar, como o de Brasília e o de Lisboa [planos de estratégia para a promoção da língua portuguesa]. É caso para dizer, com alguma amargura, que os planos já existem, agora faltam as ações”, disse à agência Lusa Carlos Reis, à margem da sessão de abertura do congresso internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”, que decorre entre hoje e sexta-feira.

Para o catedrático da Universidade de Coimbra, o diagnóstico está feito e as “iniciativas estão identificadas”. No entanto, “falta vontade política”, referiu, apontando para a própria ausência de qualquer representante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no congresso.

Segundo Carlos Reis, a CPLP “deveria ter um papel fundamental” no entendimento entre os diferentes países de língua oficial portuguesa.

“Que significado a CPLP dá à língua como motor da existência de uma comunidade de países de língua portuguesa”, questionou o coordenador do congresso que assinala o encerramento das comemorações dos 725 anos da Universidade de Coimbra.

Olhando para Portugal, o docente referiu que também falta “entendimento” no país quanto à importância da língua e à “noção básica de que a difusão e valorização da língua arrastam outros componentes como a ciência, economia, ou vida cultural, e não o contrário”.

Carlos Reis sublinhou que seria importante “aprofundar a formação de professores”, reforçar a presença do português no estrangeiro sem ser apenas com “um tradutor aqui e um leitorado acolá” e criar instituições “que sejam capazes de dinamizar de facto a língua portuguesa como uma língua comum dos oito países de língua oficial portuguesa”.

Nesse sentido, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa deveria ter “um papel mais forte do que aquele que tem tido, porventura por falta de meios”.

Durante a sessão de abertura, Carlos Reis alertou que, se não se quer assistir a uma “morte lenta” da língua portuguesa, há que “passar da retórica à ação”. Contudo, o problema é que nos últimos anos há “muita retórica” e pouca ação, notou.

“Estamos cansados de ouvir e voltar a ouvir gente com responsabilidade citar: ‘a minha pátria é a língua portuguesa’. Como se isso aliviasse as consciências”, criticou.

Para além de muitas vezes mal atribuída a Fernando Pessoa, “não basta proclamar” tal expressão, frisou, terminando o seu discurso com uma interrogação sobre se ainda se vai falar em língua portuguesa nos 800 anos da Universidade de Coimbra.

Durante três dias, escritores, especialistas e investigadores debatem no Convento de São Francisco, em Coimbra, a língua portuguesa como um idioma de futuro, abordando o ensino da língua portuguesa, a sua presença na era digital, o português como língua do conhecimento ou como língua literária.

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