A humanidade tem o poder de criar problemas e de os resolver. A resolução de uma parte desses problemas tem estado em discussão esta semana em Paris, na Conferência do Clima: diminuir a emissão de gases com efeito estufa que têm aumentado deste o início do período industrial. Mas como se resolve o impacto que o homem teve na diversidade das espécies? Especialmente quando em risco estão algumas espécies que fazem parte da nossa alimentação, como as bananas.

Desde que se tornou agricultor, o homem tem tentado aperfeiçoar as variedades de determinadas espécies para conseguir as melhores características: milho com grãos maiores, ovelhas com mais pelo ou vacas com mais leite. Neste processo de seleccionar as características com mais interesse, o homem seleccionou rosas com mais pétalas, mas que perderam no odor, e bananas com mais polpa e menos sementes (na verdade, nenhuma digna de nota).

Para que as plantas se reproduzam são precisas sementes ou, em alternativa, métodos de clonagem. Ora é assim que se multiplicam as bananeiras – cópias umas das outras. É fácil imaginar que, sem diversidade genética que permita que uns indivíduos sejam mais resistentes que outros a determinados factores, uma doença que ataque uma das bananeiras possa atacar todas, porque são todas geneticamente iguais.

O que é a biodiversidade?

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Diversidade de espécies, variações genéticas entre indivíduos da mesma espécie e diferenças nas relações dos indivíduos com o ambiente onde vivem.

A vantagem de uma maior diversidade genética, tanto nas culturas como na vida selvagem, é que quando uma população está perante uma praga ou uma alteração climática (como seca extrema ou aumento de pluviosidade), os indivíduos melhor adaptados às condições anteriores podem morrer. Mas podem existir características genéticas em certos indivíduos da população que lhes permitam resistir a essas mudanças. Para isso é preciso diversidade, a biodiversidade que tanto se fala.

As bananas estão ameaçadas… outra vez…

As bananas da variedade Cavandish, a mais vendida em todo o mundo, estão ameaçadas por um fungo que aparece nas culturas. Os produtores só se apercebem que a praga lhes está a matar as plantas quando é tarde demais. O problema é que todas as plantas são geneticamente iguais. E já não é a primeira vez que isto acontece com as bananas. Será que ainda vamos a tempo de fazer alguma coisa?

A forma selvagem das bananeiras (Musa acuminata) é originária do sudeste asiático, mas não é comestível. As primeiras plantas com frutos comestíveis terão surgido por cruzamentos que resultaram em plantas híbridas estéreis (com três conjuntos de cromossomas, em vez dos normais dois). A descoberta destes frutos doces promoveu a seleção e disseminação das bananeiras com frutos comestíveis. Atualmente são plantadas sobretudo em regiões tropicais e subtropicais.

Cavandish é agora a variedade mais procurada, depois de ter substituído a variedade Gros Michel – mais doce, mas menos resistente ao mal-do-panamá. Os primeiros efeitos do fungo que causa a doença, Fusarium oxysporum f.sp. cubense, fizeram sentir-se em 1876 na Austrália e em 1890 na Costa Rica e Panamá, mas só se atribuiu a culpa a este fungo 20 anos depois. A verdade é que o fungo, que pode ficar adormecido no solo durante mais de 30 anos, quase levou esta variedade à extinção nos anos 1960.

Transmitido pelo solo e pela água, o fungo infeta rapidamente todas as plantas de um campo de cultura. Assim que o fungo evolui a ponto  de se tornar capaz de infetar uma planta, facilmente infetará as restantes, porque são todas geneticamente iguais. Não existe diversidade nas plantas que permita travar, ou pelo menos retardar, a propagação da doença.

Felizmente que existia a variedade Cavandish para substituir a Gros Michel – mais resistente ao fungo, ainda que menos doce. O problema é que os fungos também evoluem e uma nova estirpe de Fusarium oxysporum (Tropical Race 4) mostrou agora que tem capacidade para infetar as outrora resistentes Cavandish.

“Sabemos que a origem [de Tropical Race 4] é a Indonésia e que se espalhou a partir daí, muito provavelmente para o Taiwan e depois para a China e para o resto do sudeste asiático”, disse ao Quartz Gert Kema, investigador na Universidade e Centro de Investigação Wageningen e coordenador do estudo publicado na Plos One Pathogens. O fungo já chegou ao Paquistão, Líbano, Jordânia, Omã, Moçambique e Austrália, referiu o Quartz. Porque as pragas, como fungos ou bactérias, não encontram fronteiras, especialmente nesta era da globalização. Daqui até galgarem o oceano para chegarem ao maior produtor de bananas, a América do Sul, será um pequeno passo.

As bananas não vão desaparecer de um momento para o outro, mas é preciso tomar medidas para que não aconteça o mesmo que com as Gros Michel. Cientistas e produtores precisam de encontrar (ou criar) variedades que sejam geneticamente diferentes das existentes e que possam resistir ao fungo.