Na meninice, o futebol joga-se em todo o lado, a toda a hora, na escola, na rua, onde que quer que haja uma baliza ou um par de pedrinhas que façam as vezes da baliza, e depois é jogar até se esfolar os joelhos ou a mãe chamar – mas muito ela tem que chamar; é que quando o jogo está rasgadinho, os meninos fazem-lhe ouvidos moucos.

Nesses dias, há os Messi que pegam na bola e só param com ela dentro da baliza, há os remediadinhos que jogam como se tivesse os dois pés enlaçados um no outro, mas há um menino que, dê lá por onde der e acima de todos e até do Messi, é cativo nas peladinhas de rua. Quem? O dono da bola. E quando o dono não está a gostar do que vê, porque o fuçanga do Messi não o assistiu para o golo quando se isolou e tinha a baliza escancarada e à mercê, ou quando um dos tais remediados não o assistiu porque tropeçou na redondinha, quando assim é, ele vê-se no direito de terminar logo ali o jogo. Ah, a minha mãe está-me a chamar, diz ele. E acabou.

O FC Porto é o dono da bola. Sempre. Todos os jogos. Jogando bem ou jogando mal, perdendo ou vencendo, termina invariavelmente os jogos com uma posse de bola que só não é de três dígitos porque nem o Barça ou o Bayern o conseguem. Mas não anda muitas décimas longe disso.

Hoje, e ainda que o jogo do ano (até ver; mas lá que estão muitos milhões de euros em jogo, lá isso estão) para os azuis-e-brancos fosse na quarta-feira em Londres com o Chelsea de Mourinho, Lopetegui não só não fez rotações de maior no onze, como pôs diante do Paços o que de melhor tinha para por.

Mas o Paços de Ferreira de Jorge Simão queria tirar a bola ao dona da bola. Ele, Jorge Simão, que tem em Marafona mais do que um guarda-redes um muro, que tem em Hélder Lopes um lateral que de tanto que corre qualquer dia corre da Capital do Móvel para outros ares, e em Andrézinho e Jota tem dois miúdos (nados e criados ali mesmo, em Paços de Ferreira) dois diamantes por lapidar mas já com lapidação mais do que suficiente para serem titulares e do melhor que por lá se vê.

Tanto queria tirar, que tirou. Pressionava alto, atacava pela certa, forçava o FC Porto a erra onde não é costume errar. É verdade que o FC Porto ia atacando, ia rematando, mas meio atabalhoadamente e sem perigo. E o Paços de Ferreira marcou primeiro, no primeiro e único remate que fez verdadeiramente direcionado à baliza de Casillas. Foi Bruno Moreira, um ponta-de-lança que até tem ADN do Dragão, na cara de Casillas e sem ninguém que o importunasse, que fez o 1-0, como dizer-lhe?, à ponta-de-lança.

O golo do Paços de Ferreira surgiu porque o FC Porto foi mansinho demais nas marcações a um canto. Era mais do claro, era claríssimo que havia ali muito boa gente (leia-se: futebolistas) que achava que ia ser pêra doce vencer o jogo, gente que não estava muita voltado a pôr o pé — afinal, o Chelsea vinha mesmo ao virar da esquina e esse sim é que é pêra pouco doce.

Lopetegui viu isso, não gostou do que viu, esbracejou, esperneou, berrou e berrou mais um pouco, mas não foi a berraria que mudou a toada ao jogo. O que mudou a toada foi o abdicar da bola. A partir dali, o FC Porto, mais do que obcecado em tê-la sempre consigo, foi um mão-largas, deixou que o Paços também a tivesse, e quando a recuperava, lançava-se em contra-ataque nas contas dos pacenses, queria apanhá-los em contra-pé. Num desses contra-pés, Brahimi assistiu Corona na área (que tremenda desmarcação, de costa a costa, fez o mexicano), a defesa ainda andava de candeias às avessas a ver quem marcava quem, e Corona empatou.

Viria o empate, depois o intervalo, e viria o recomeço do jogo. O que não havia era maneira de o Paços voltar a ser o que foi no início. Talvez não quisesse voltar a ser surpreendido como foi. E lá voltou o FC Porto a ter bola até mais não. E com tanta bola, voltou o mal do costume: escasseiam as oportunidades criadas. E quando as criava, Aboubakar, sobretudo ele, tratava de falhá-las (muitas delas até o tal menino dos pés enlaçados, e a jogar com balizas de pedrinhas, concretizaria sem titubear).

Mas os dragões derrubariam mesmo o Paços de Ferreira, que entretanto foi erigindo um dique na defesa e meio-campo. Não havia pressão como antes, não queriam mais tirar a bola ao dono e senhor dela, mas por ali, por aquele dique de Pelé, Romeu Ribeiro, Ricardo e sociedade limitada, nada passaria.

Nada ou quase nada. Passou Herrera, numa bola que foi atrasada para Marafona, e derrubou o guarda-redes pacense. Foi uma falta ostensiva, daquelas mais alaranjadas que amarelas no cartão. Mas Carlos Xistra não entendeu que fosse sequer falta, quando mais cartão amarelo. E o jogo seguiu. No seguimento, Marco Baixinho, imprudente, derrubou Corona na área. Seria outro mexicano que não ele a marcar o penálti do 2-1: Layún, que é um especialista em cantos, livres, penaltis e o mais que vier.

Até final Lopetegui foi recuando, chegou a pôr Danilo Pereira num duplo-pivô de meio-campo com Rúben Neves, e Jorge Simão, no banco contrário, fez precisamente o contrário: atacou. Terá pensado o treinador do Paços de Ferreira que perder por um ou mais golos vale o mesmo em pontos: zero. Mas o empate, se o conseguisse, tirando um defesa e ponto um avançado matulão como é João Silva, valia um pontinho. E um pontinho é melhor do que nada.

Não conseguiu. Mas conseguiu — como o próprio relembrou na flash interview após o final do jogo — por o público do Dragão a apupar a sua (leia-se: o FC Porto) própria equipa, enquanto o Paços, no finalzinho, tentava como podia igual o placard.