Vamos lá ver se nos entendemos: não há tal coisa como uma altura má para marcar um golo. Dizem que é bom que a bola seja matutina e entre rápido na baliza, porque começar um jogo a ganhar obriga quem está do outro lado do campo a jogar para evitar um prejuízo. Também dizem que um golinho mesmo antes do intervalo equivale a um golpe nos rins do adversário — ou na cabeça, porque enquanto as pernas vão ao balneário descansar a mente fica a matutar sobre o que acabou de entrar na baliza. Há muitas larachas que se dizem sobre o timing para os golos aparecerem, mas ninguém teve de perguntar a Bryan Ruiz para ele pregar que isso não interessa para nada: “no importan si es al principio o al final que anotemos, lo importante es que el gol llega”.

O costa-riquenho é para aqui chamado, primeiro, por ter escrito isto em bom espanhol, no seu site, depois de o Sporting, na segunda-feira, só vencer o Belenenses por culpa de um golo marcado aos 93’. E segundo, por o seu pé esquerdo, o mesmo que tanto jeito tem para se colar à bola, ter sido o único, até ao intervalo, a conseguir batê-la em direção à baliza do Marítimo. Um sprint importunado de João Pereira até à linha, um cruzamento atrasado e um passe sem olhar de Adrien Silva, à entrada da área, tiveram que acontecer antes para Ruiz ter espaço para rematar. Só o homem que Jorge Jesus já elogiou por “saber tudo sobre futebol” é que arranjou maneira de os leões pensarem que estava quase a marcar um golo.

Porque na primeira parte terão passado mais tempo a pensar como evitar não sofrer. Os jogadores do Marítimo levaram mais raça, pica e agressividade para o relvado e mostraram-no durante a primeira meia hora. Os madeirenses apertavam rápido cada jogador do Sporting que tinha a bola na metade caseira do relvado e obrigavam os leões a decidirem rápido que passe, finta ou decisão iam tomar a seguir. O que mais se viu foram erros dos líderes do campeonato e corridas desenfreadas de Moussa Marega. O avançado maliano disfarçado de extremo sprintou uma e outra vez para as costas de Jefferson, obrigado este e outro brasileiro, Ewerton, a passarem 45 minutos entre rodopios e corridas para trás.

As diagonais de Marega faziam a vida negra a dois defesas e um remate de pé direito, aos 14’, quase escurecia os restantes leões. Mas Rui Patrício esticou o corpo e o braço direito, num canto, para manter a luz no resultado e mostrar por que alguns o veem como um santo em Alvalade. O Sporting passava por um mau bocado: nem Ruiz, João Mário ou Gelson se aproximavam o suficiente de Fredy Montero, que não tinha o que faz às poucas bolas em que tocava, e Adrien Silva corria demais comparado com a inatividade dos outros leões. O Sporting ia para o balneário e a questão não era quando ia sofrer ou marcar, mas sim, como?

Maritimo Funchal's French forward Moussa Marega (L) vies with Sporting's midfielder Adrien Silva during the Portuguese league football match CS Maritimo vs Sporting CP at the Do Maritimo stadium in Funchal on December 5, 2015. AFP PHOTO/ RUI SILVA / AFP / RUI SILVA (Photo credit should read RUI SILVA/AFP/Getty Images)

Nos dois anteriores jogos que o Sporting fez em casa do Marítimo, houve sempre golos de Adrien Silva: ambos de penálti. Foto: RUI SILVA/AFP/Getty Images

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Ora: aproximando os jogadores, dar pelo menos duas opções de passe a quem tem a bola de frente para a baliza, tocá-la rápido, para o pé e, se possível, ao primeiro toque e deixar o improviso dar o toque final. A equipa percebeu isto aos 53’, quando João Pereira acelerou a boleia que deu à bola pela direita e tabelou com João Mário antes de dar a bola a Bryan Ruiz. Depois desmarcou-se por dentro, entre o central Deyvison e o lateral Patrick, e deixou o João Mário ficar com a ala, para o costa-riquenho passar a bola ao português e o médio, na área, fintar quando um adversário esperava que fosse cruzar. Ganhou espaço, olhou para trás, viu Adrien Silva à entrada da área e deu-lhe a bola rasteira. Improviso, primeiro, remate, em segundo, e golo, depois. Agora interessava o “quem” e não o “onde” ou o “como“.

Porque o 1-0 aparecia do pé direito de sempre, o do médio loiro que virou capitão e que, nas duas anteriores visitas à casa do Marítimo, também marcara. A época passada valeu uma vitória e nesta o objetivo era que voltasse a dar e a equipa, por isso, ganhou juízo. Acalmou-se e começou a pensar melhor com a cabeça o que fazer com a bola no pés. Bryan Ruiz passou a andar mais ao centro e a facilitar as jogadas. Os leões aproximaram-se mais entre eles, William passou a tê-los mais perto para deixar de falhar passes e João Mário ia segurando a bola para ganhar a ocasional falta. Entre um remate de Gelson e outro de Tanaka que não estiveram perto de marcar, o Marítimo pouco fez até aos últimos 15 minutos, quando as jogadas que o Sporting o obrigava a desviar para as alas começaram a funcionar.

Ou seja, a cruzar bolas para a área. Duas delas deram mais um par de motivos para Rui ser São Patrício em Alvalade. O guarda-redes voou e reagiu rápido para, aos 77’ e 88’, impedir que o pé direito de Marega e a cabeça de Dyego Souza mostrassem aos leões o que custa sofrer um golo tardio. Não aconteceu e, depois de passar quase duas horas a ser segundo no campeonato (o FC Porto ganhara antes ao Paços de Ferreira), o Sporting conseguiu regressar à liderança. Mas a equipa apenas começou a mostrar futebol de se ver — jogadas com mais de dez passes no campo adversário, tabelas a saírem, mais de um jogador a desmarcar-se para mexer com a defesa contrária — quando se viu com um golo a mais que o adversário. E, uma vez mais, foi Adrien Silva a marcar e o Sporting a ganhar nos Barreiros.