Marcelo Rebelo de Sousa está na corrida para Belém como candidato a Presidente da República e não como candidato a líder partidário. A pensar no país e não a pensar no partido. E é isso que tem feito questão de sublinhar várias vezes. Esta segunda-feira, em entrevista à SIC, não foi diferente: o professor catedrático deixou claro que espera que a solução governativa oferecida por António Costa “dê certo” e que fará “o possível para que seja duradoura“. Até porque se o Governo socialista apoiado por Bloco e PCP “der certo, é bom para o país“.

Com Belém já no horizonte, Marcelo acredita que ganha “quer à primeira volta, quer à segunda volta” . E se ela acontecer o antigo líder social-democrata apresenta-se como o Presidente que vai lutar pela “promoção de consensos, da convergência e do equilíbrio”. Também a pensar na oposição. “Qualquer pessoa que anda na política tem a noção exata de que a saída do poder traz consigo uma amargura. Conheço isso por experiência. Custa e deixa feridas”, reconheceu o homem que está na pole position para a corrida a Belém. Por isso mesmo, Marcelo quer ser o Presidente que vai “ajudar a cicatrizar as feridas” do tecido político português e puxar a “oposição para que ela própria não se afaste dos consensos de regime“.

Daí, uma palavra para Pedro Passos Coelho. O candidato presidencial não deixou de reconhecer que o antigo primeiro-ministro conduziu o país durante “quatro anos e meio muito difíceis”. Mas essa crise “teve consequências sociais” graves: “aumentaram as desigualdades, a pobreza, o risco de pobreza e a injustiça social”. É tempo de virar a página, foi o sublinhado do professor. E ele, enquanto um Presidente interventivo e ativo vai procurar “encontrar as soluções ideais” para o país.

Como? O aviso foi sendo repetido ao longo de toda entrevista, com ligeiras variações. Marcelo, garante estar “ativamente, embora discretamente”, vigilante e não deixará de analisar “permanentemente” a “solidez da base de apoio do Governo de António Costa e a forma como novo Executivo consegue compatibilizar “mais justiça social com o equilíbrio financeiro mínimo para que não entremos em derrapagem“.

 Se Portugal não entrar num processo de crescimentos sustentado as tensões sociais mantêm-se ou agravam-se e as tensões sociais mantêm-se ou agravam-se“, vaticinou o candidato.

Não será uma missão “fácil”. Se a Europa, com dores de crescimento na economia, a braços com uma crise humanitária e ainda com um eventual referendo no Reino Unido prestes a cair-lhe no colo, não ajudar, então será ainda “mais difícil”. O próximo Governo terá, neste quadro de imprevisibilidade, de garantir “mais crescimento, mais emprego, mais justiça social – sem pôr em causa os compromissos europeus”, lembrou uma e outra vez Marcelo Rebelo de Sousa.

“O que se espera [de Portugal], se a Europa correr bem, se o mundo correr bem, é que tudo aquilo que dependa de nós permita conciliar não entrar num desequilibro financeiro e ao mesmo tempo ter mais crescimento”, reiterou.

“O que desejaria é que não houvesse crises e desejo que não haja crises. E acho que tudo se deve fazer para que não haja crises, até porque a governabilidade é importante, neste momento, de saída da crise”. Estabilidade é palavra de ordem, repetiu, mesmo sabendo, como reconheceu, que não era isto que PSD e CDS queriam ouvir.

Entre sociais-democratas e centristas, muitos “não entenderam, não perceberam [esta posição]. Reagiram até no quadro da emoção [e pensaram]: “‘Nós esperávamos que numa guerra entre os dois países este homem estivesse do nosso lado‘. Mas Presidente da República não tem esse papel. Não é candidato a líder partidário. Ele não tem de assumir as dores” dos partidos.

Alguns pensarão que a posição de Marcelo Rebelo de Sousa – que, ao afastar a hipótese de convocar eleições de seis em seis meses, apelou à estabilidade da solução governativa com mais condições de durabilidade – com um piscar de olhos à esquerda. Com o eleitorado no bolso, o ex-líder do PSD queria conquistar a esquerda, queixavam-se várias figuras do partido ao Observador, em novembro. Esta segunda-feira, na SIC, o comentador garantiu: “Isto não é tática. Eu penso isso. Ando a ensinar há 40 anos que o Presidente da República não é um Presidente partidário“, atirou.

Numa altura em que PSD e CDS preparam-se para formalizar um eventual apoio à corrida presidencial de Marcelo, o professor é também claro nesta matéria: “Aceito os apoios mas eles não me vinculam minimamente. Não pedi autorização, nem pedi coisa nenhuma. Comuniquei a Pedro Passos Coelho que ia avançar com a minha candidatura e ponto final parágrafo“.

Marcelo não deixa de se assumir como favorito e traçou o seu autor-retrato para se lançar ainda mais na corrida presidencial: conhece profundamente a Constituição, foi o líder da oposição que mais consensos conseguiu – “o Governo de António Guterres durou o que durou graças a mim” -, tem um grande conhecimento da política internacional – foi vice-presidente do vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE) – conhece o poder local e central “por dentro” e sabe comunicar numa era em que ninguém percebe o “politquês”. Ganha à primeira volta, acredita. “Não sei é se a vitória na 1ª volta é suficiente folgada para não ir à 2ª volta“, reconhece.

A terminar, Marcelo Rebelo de Sousa falou abertamente na amizade com Ricardo Salgado – uma “amizade que não tem nada a ver com independência”, fez questão de sublinhar. Mesmo admitindo que não cortou relações com o ex-presidente do BES, o candidato presidencial assegurou que, “se houver algum problema de eventual conflito” vai sacrificar “manifestações de amizade”. “Amigo do meu amigo”, sim, “mas mais amigo da verdade”, atirou.