“Estamos prontos.” Foi assim que Marion Maréchal-Le Pen comentou no Twitter os resultados das eleições regionais em França. Neta de Jean-Marie Le Pen, um dos fundadores da Frente Nacional, e sobrinha de Marine Le Pen, a atual líder do partido, foi eleita para o parlamento francês com 22 anos — é a mais jovem desde a Revolução Francesa — e conseguiu agora um resultado histórico: 42,87% dos votos na região da Provença-Alpes-Côte d’Azur (com 64% dos votos escrutinados). As Regionais são decididas a duas voltas: o segundo round terá lugar domingo, dia 13.

O apelido, o tom feroz, a proximidade ideológica com o avô colocaram-na debaixo dos holofotes. Em março, uma intervenção no parlamento que mereceu uma resposta emocionada de Manuel Valls deu-lhe (ainda mais) fama. É que ao discurso apaixonado e ao olhar cerrado do primeiro-ministro francês juntou-se uma mão esquerda a tremer, e muito. O vídeo acabaria por tornar-se viral.

Marion Maréchal-Le Pen tem 25 anos, mas começou nestas andanças da política há muito. Quando tinha apenas dois anos surgiu num poster, ao colo do seu avô, conta a BBC. Aos 17 anos fez-se militante da Frente Nacional e piscou, definitivamente, o olho à política — o Independent, no entanto, diz que a jovem se alistou com 18 anos. Há três anos, na campanha, alguém lhe disse que o avô dela tinha “as ideias certas”, mas que se “expressava mal”. Ela deu troco: “Geração diferente, estilo diferente”, contou o Guardian, em junho de 2012. As bandeiras da campanha desta seguidora do nacionalismo de Napoleão Bonaparte seguiram na mesma toada do partido de extrema direita e da sua família: imigração, crime, insegurança, proteção contra globalização e defesa da identidade e do estilo de vida dos franceses.

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A nova coqueluche do clã Le Pen nem sempre foi assim tão feroz. O Guardian lembra que, há pouco mais de três anos, desatou a chorar perante uma pergunta de um jornalista. Marion foi escolhida para substituir o seu avô para a corrida àquela que é tida como uma região chave. “O resultado de Marion Maréchal-Le Pen faz cair sobre a nossa região e o nosso país uma das mais graves ameaças da nossa história política. Esta candidata nunca parou de insultar, estigmatizar e dividir os habitantes da nossa região”, disse Christian Estrosi, candidato pelos Republicanos na região da Provença-Alpes-Côte d’Azur. “Le Pen representa um perigo imenso para a nossa convivência. A nossa região não deve ser um laboratório de extremistas.”

Marion Maréchal-Le Pen afirmou, segundo o Independent, que temia que a Riviera Francesa se transformasse numa “favela” e que acredita na “teoria da substituição”, na qual os cidadãos nascidos em França estão a ser substituídos por imigrantes acabados de chegar. Numa entrevista a um jornal francês, a candidata afirmou que os muçulmanos não podem ser colocados no mesmo patamar dos católicos.

“Ela é a deputada mais jovem no parlamento e, ainda assim, parece ter desdém em relação a todos nós, como se pertencesse a uma raça superior”, acusou François-Michel Lambert, um deputado dos Verdes, em declarações ao Guardian. “Vejo-a nos restaurantes nas imediações do parlamento e ela está rodeada por uma equipa jovem de conselheiros que a tratam como se ela fosse uma espécie de Joan d’Arc, a escolhida.” O deputado referiu ainda que há um qualquer fascínio relativo a Marion Maréchal-Le Pen, como se ela fosse uma “guru” ou “mítica”.

Marion cresceu nos subúrbios de Paris, numa casa por onde passaram várias gerações de Le Pen. “Ao contrário do que toda a gente pensa, na minha família não falávamos de política em casa e somos livres de fazer as nossas escolhas”, disse ao Telegraph em 2012.

A sua mãe é Yann Le Pen, uma das três filhas de Jean-Marie, que em tempos organizou eventos da Frente Nacional. Yann casou com Samuel Marechal, um não muito bem-sucedido político da FN, que criaria Marion como sua filha — o casal acabaria por divorciar-se. Em 2013, conta a BBC, Marion processou o jornal L’Express por invasão de privacidade, por ter revelado que Roger Auque, um jornalista e diplomata, era o verdadeiro pai da jovem. O diário teve de pagar a Marion dez mil euros.

Marion Maréchal-Le Pen estudou Direito na Sorbonne — foi eleita deputada no segundo ano. É casada com Matthieu Decosse, também ele membro da FN, com quem tem uma filha, Olympe. Aqui reside outra curiosidade que a separa da tia, Marine. O Telegraph recorda um desabafo da líder do partido, em que dizia que os católicos “nunca” gostariam dela por causa dos divórcios. Marion insistiu que teria de casar antes de ter Olympe, para fazer tudo by the book. Foi o que aconteceu três meses antes do nascimento.

A coautora de um estudo sobre Marine Le Pen (“Marine Le Pen’s Words: Decoding the New National Front Discourse”), Cécile Alduy, traçou o perfil de Maréchal-Le Pen, ao Independent: “Tem um caráter paradoxal. Enquanto projeta uma imagem de uma mulher jovem que é moderna, amigável e sorridente, o seu discurso é muito mais conservador do que de Marine Le Pen; é muito forte e, às vezes, agressivo.” Esta investigadora refere que a jovem política será tida em conta, pela Frente Nacional, como o futuro de França. Mas alerta: “O que ela promete é recuar, em termos de economia, legislação e moralidade, a períodos anteriores aos anos 80, pelo menos.”