Fratura de tíbia. Não é coisa pouca. O Atlético de Madrid perdeu Tiago para muitos, muitos meses. Provavelmente o médio português nem estará com a Seleção no Europeu do verão que vem, em França. E Tiago não era só um médio mais no meio-campo de Diego Simeone. Tiago era a extensão de El Cholo no relvado. Tudo o que fazia — e com tantos quilómetros que tem já calcorreados no Chelsea, no Lyon ou na Juventus –, Tiago fazia-o bem: fosse a defender, pressionando alto, fosse atacando, quer a construir jogo quer na área, a desviar para golo e de cabeça cruzamentos, livres e cantos.

Mas não havendo Tiago, surgiu Saúl Ñíguez no trio de meio-campo, a triangular com o certinho Gabi e o geómetra Koke. E a fartura é tanta, que Simeone tem ainda um tal de Óliver Torres (quando entrou, o ex-FC Porto foi apupado e muito na Luz) no banco. Com o “17” nas costas, Saúl (chamemos-lhe só Sául, que os bons médios espanhóis têm nomes curtinhos na camisola — Xabi, Xavi, Sergi etc — e Ñíguez não é um nome orelhudo) tinha pela frente Renato Sanches e Fejsa esta noite. Só. E Saúl não estava só, como já se sabe: Gabi e Koke não andam a mais do que um passo atrás ou à frente dele.

Mas Saúl fartou-se de recuperar bolas ao Benfica, fartou-se de lançá-las na frente, deixando que Ferreira-Carrasco, Vietto e Griezmann fizessem o resto. E fizeram. A noite de Eliseu e André Almeida foi um tormento de ziguezagues e ultrapassagens em sprint. E a noite de Fejsa também não foi menos tormentosa — valeu-lhe que Renato Sanches, apesar de petiz, joga e faz jogar tanto ou mais do que o graúdos.

O 1-0 veio pelo meio, nem de propósito, com Griezmann a conduzir a bola na canhota, coladinha à canhota, seguiu-se uma desmarcação em trivela do francês nas costas de Eliseu, que devia ter sete olhos em cima de Vietto, mas com os par que Deus lhe deu só viu o argentino desmarca-se e cruzar para a área. Na área, sem ninguém que o importunasse na recepção da bola, sem ninguém que tão pouco o impedisse de chutar, Saúl escolheu o melhor pé — e o melhor é a canhota –, escolheu o lado para onde ia pôr a bola, e, escolhendo o lado esquerdo, bateu Júlio César.

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O Benfica entrou mandão no jogo. Rui Vitória confidenciaria na flash interview que a intenção era ter a bola no pé, retirando-a do Atlético. Mas com um meio-campo tão curto para tanto meio-campo do Atlético, rapidamente os colchoneros, não só recuperaram a bola ao Benfica, como não mais a devolveram, nem na primeira parte, nem no recomeço.

Os encarnados fizeram um e só um remate digno de se recordar na primeira parte. Foi Gonçalo Guedes, tal como na jogo contra o Atlético em Madrid, no mesmíssimo sítio, descaído sobre a direita da área, a rematar cruzado, mas tão cruzado que o remate saiu ao lado do poste esquerdo de Oblak. Teve mais pontaria em Madrid, o miúdo.

Ele, que a par de Renato Sanches e amiúde de Gaitán, foi dos melhorzinhos, saiu logo ao intervalo. Entraria Mitroglou. E também Jonas saiu logo, logo depois. Entrou o outro matulão dos avançados-centro que Rui Vitória tem: Jiménez. O problema é que as mexidas e remexida táticas não só não enfraqueceriam o que é forte no Atlético, o meio-campo, como deixariam mais desamparado ainda o Benfica, quer aí, meio-campo, quer na defesa — é que Gaitán, deslocado do meio para a ala, não dá a perninha que Guedes dava no apoio aos dois defesas-laterais. O meio-campo estava para aluguer. Literalmente. E o ataque, reforçado — em quantidade e muito músculo –, não tinha quem o servisse.

O Atlético, mais minuto menos minuto, e de tanto que ia empurrando o Benfica para traz, faria o segundo golo. E fez mesmo. Ferreira-Carrasco deixou André Almeida tombado num cadafalso, avançou para a área e cruzou para que Vietto, mais veloz que Jardel, desviasse ao primeiro poste. Contavam-se 55′. E nem Benfica se via. Nada. Quando Gaitán, combalido — ele que esteve para sair logo no recomeço, mas pediu a Rui Vitória para continuar a (tentar) remar contra a maré de camisolas azuis do Atlético –, saiu aos 75′, esperar-se-ia o pior. Mas não.

Foi Gaitán a sair e o Benfica a marcar. Não tinham que os assistisse, é verdade, mas Jiménez e Mitroglou lá se entenderam sozinhos, o mexicano assistiu o grego, este trocou as voltas a Godín na área, e rematou para o 2-1. O Benfica reduzia no primeiro remate que fez à baliza de Oblak. Os restantes tinham sido tão, mas tão transviados, que não importunaram o esloveno por aí além.

O público da Luz, numa primeira fase mais até do que os jogadores, acreditou que o empate era possível. Afinal, o Atlético de Madrid não era nenhum bicho-papão. Tanto não era que foi vencido pelo Benfica no Vicente Calderón. Tanto não era que daí até final o Benfica, sobretudo pelo talento desmedido de Renato Sanches, foi carregando para cima dos colchoneros. Mas tirando um cabeceamento perigoso de Jiménez, na área, não carregou com clarividência — o cansaço acumulado de tantos minutos a correr atrás da bola também não ajudou.

O Atlético não é um bicho-papão. Mas fez mais do que o suficiente para devolver na Luz a derrota (2-1) que sofreu em casa. O problema é que o Benfica, a quem o pontinho do empate chegaria para ser primeiro do Grupo C, não só não conseguiu o pontinho, como agora, nos oitavos-de-final, cruzar-se-á, quase na certa, com um bicho-papão. Até ver, o “bicho” pode ser o Real Madrid, o Manchester City, o Barcelona, ou o Bayern — também poderá ser o Chelsea de Mourinho, se amanhã derrotar o FC Porto. Por outro lado, Zenit e Wolfsburgo também são primeiros dos seus grupos e, mesmo tendo Hulks e Draxleres, não amedrontam tanto assim.

Na Luz, o Benfica não fez o que lhe competia fazer. Agora que venha a sorte nas bolinhas do sorteio e faça o resto. Fingers crossed.