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Tudo começou com um desafio deixado por Torres Couto: em entrevista à TSF, o antigo líder da UGT defendeu que “o próximo congresso [da central sindical] poderá e deverá substituir o secretário-geral”. Ora, Carlos Silva, o atual secretário geral da central sindical, e o visado, não gostou do que ouviu e pondera, se for caso disso, convocar um congresso extraordinário para testar a força da sua liderança. “Espero que não exista ninguém escondido atrás de Torres Couto, mas se existirem coelhos na toca, vamos ver quem são“, garante ao Observador. Para já, no entanto, a palavra de ordem é “tranquilidade”.

As declarações de Torres Couto foram discutidas na reunião do Secretariado Nacional da UGT, a 12 de novembro, apenas três dias depois de o Governo de Pedro Passos Coelho ter caído no Parlamento. Nesse encontro, Carlos Silva começou por criticar as palavras de Torres Couto, que punham em causa a orientação da central sindical, ao mesmo tempo que deixava uma promessa clara: se for “necessário”, avançará para um congresso extraordinário, onde será candidato a um segundo mandato. Perante “interesses” que podem estar “por detrás” das afirmações do ex-secretário-geral da UGT, “não devemos ter medo de ir à luta – [essa] é a melhor defesa”, reagia Carlos Silva, de acordo com a ata da reunião a que o Observador teve acesso.

Ao Observador, Carlos Silva confirmou o conteúdo dessa ata e ainda acrescentou: “Se existirem pressões externas” ou “se continuar a sentir que existe quem se arrogue ao direito de tentar condicionar” a UGT, o congresso vai mais mesmo avançar. “Não estou a agarrado ao poder“, atira.

Nessa reunião, não faltaram dirigentes da UGT que se apressaram a cerrar fileiras em torno de Carlos Silva. Luís Azinheira, do Sindicato dos Trabalhadores e Técnicos de Serviços (Sitese), não escondeu a “satisfação” de ver o secretário-geral “disponível para a luta”: como “sindicalista” e figura “independente”, Carlos Silva “fará sempre aquilo que for melhor para os trabalhadores e para manter as empresas sólidas para o emprego”, confia Azinheira.

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João Dias da Silva, Federação Nacional da Educação (FNE), assinou por baixo: é “muito necessário que uma liderança faça mais que um mandato (…) Nós devemos dar um sinal de serenidade e responsabilidade”, pode ler-se na ata da reunião. Horácio Oliveira, também ele dirigente da UGT, saudou a eventual continuidade de Carlos Silva à frente da central sindical. E o madeirense Ricardo Feitas atirou mesmo: “Não é o tempo certo” para “discutir o futuro da UGT” porque “dá crédito a uma pressão do exterior”.

Uma coisa é certa: se Carlos Silva decidir avançar para o Congresso Extraordinário, a olhar para o que foi dito naquela reunião, não faltarão apoios ao atual secretário-geral da UGT.

UGT preocupada com poder da CGTP, pede união…

E se os eventuais adversários internos não preocupam Carlos Silva, os adversários externos merecem outras cautelas. Com a aliança entre PS e PCP que levou ao atual Governo, a CGTP de Arménio Carlos pode ter aqui espaço para crescer e reforçar o poder, acreditam os sindicalistas. Ora, os dirigentes da UGT querem travar um eventual esvaziamento da concertação social e a perda de influência da central sindical. Foi isso mesmo que Carlos Silva quis deixar claro na intervenção inicial.

Não abdicaremos da concertação social e lutaremos por ela apesar dos sinais vindos da CGTP querendo desvalorizar o diálogo social por troca duma ação mais próxima do Parlamento. Do mesmo modo que não faz fretes políticos a ninguém também não abdica de se bater por aquilo em que acredita quando está em causa o Estado Social. É connosco que o Governo terá de negociar. É nesta tónica que vamos manter a nossa posição. Estamos sempre sob escrutínio, muitos jornais se questionam sobre o futuro da UGT. Nós estamos obrigados a mantermo-nos como sempre durante estes trinta e sete anos de existência“, pode ler-se na ata dessa reunião.

Carlos Silva não foi o único a dizê-lo. Francisco Pimentel, do Sindicato Dos Trabalhadores Da Administração Publica (SINTAP), acabou por afinar pelo mesmo diapasão – e, mais uma vez, sem esquecer as palavras de Torres Couto. A “opinião pública entende que hoje, porventura, a UGT estará a passar o período mais critico quando a CGTP já está a fazer campanha para um salário mínimo de 600 euros porque está solta para defender o que pretende (…) A UGT é uma resposta à unicidade e se o Torres Couto disse o que disse foi também de si próprio que o disse. Hoje os desafios que se colocam à UGT são novos e, com todo o respeito, esta Central tem que ter a inteligência de deixar os clubismos para se reforçar“.

Além disso, continuava Pimentel, “o PS vai precisar desta Central (…) A UGT tem um líder, um caderno de encargos e quem sabe negociar e disso não podemos abdicar. O tempo dirá se conseguimos afirmar a UGT neste tempo difícil“.

E o futuro era ainda mais indistinto a 12 de novembro, quando os dirigentes da UGT se reuniram em Coimbra. Nessa altura, ainda ninguém sabia o que ia decidir Cavaco Silva – mantinha Passos em gestão ou dava a posse a um Governo liderado por António Costa com apoio de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa? Mesmo com todas as reservas, o Presidente da República acabou por escolher a segunda opção. Mas, se é verdade que a nota dominante entre os dirigentes da UGT era que a central sindical não deveria opor-se à aliança da esquerda, havia também quem não escondesse a desconfiança em relação ao caminho escolhido pelo líder socialista.

António Costa foi ingénuo ao fazer um acordo com o PCP e BE, que se servem dos trabalhadores para conquistar o poder mas depois são mal tratados porque quem manda no PCP é o Arménio Carlos. [E] se não fosse anular as privatizações, a CGTP passava para trás”, dizia José Azevedo, do Sindicato dos Enfermeiros (SE). “Por isso, é bom que estejam atentos porque hoje a UGT é mais necessária do que nunca. Hoje a desunião faz a força“.

A terminar, depois de ouvidos todos os intervenientes, Carlos Silva fazia novo apelo à união da UGT para fazer frente aos que”dizem mal de tudo e de todos” e que querem, a todo custo, “atacar a Central”: “Não devemos esquecer que quando atacam devemos ser resilientes e não deixar de acreditar em tudo que sempre defendemos”.

…e em breve pode mudar-se de casa

Com os dirigentes da UGT dispostos a pegar em armas para defender o sindicato na concertação social, a verdade é que a central sindical pode muito bem mudar de quartel-general em breve.

Atualmente, a sede da UGT, na Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, pertence ao Estado, mas Carlos Silva pode, num futuro próximo, colocar um ponto final numa situação que se arrasta desde 2000. Há 15 anos, a UGT foi obrigada a entregar a antiga sede na Buenos Aires, também em Lisboa, ao BES, para responder a uma situação de “insolvência” bancária, como explicava o Diário de Notícias. Durante quase sete anos, a central sindical pagou uma renda mensal de oito mil euros ao BES para continuar naquele edifício.

Em 2007, a situação agravou-se: a central sindical foi obrigada a entregar o edifício da antiga sede ao Banco Espírito Santo (BES) para regularizar as dívidas à banca. Na altura, o total do passivo bancário da UGT era superior a cinco milhões de euros, escrevia o mesmo jornal.

Nove anos depois, com a situação financeira mais estável, a UGT quer mudar-se para uma casa própria, com “mais dignidade“, como explicou Carlos Silva ao Observador. Nessa reunião, a 12 de novembro, a situação da sede foi discutida e os dirigentes sindicais confiaram a Carlos Silva e a Luís Correia, Tesoureiro da Central, o mandato para encontrar uma solução “consistente e sustentável para o futuro”.

Em cima da mesa, estão duas saídas: comprar a sede à ESTAMO, imobiliária de capitais exclusivamente públicos, ou deixar a Almirante Gago Coutinho e procurar outro edifício para comprar em definitivo, explica Carlos Silva. “Não somos uma central sindical rica. Temos feito uma gestão mais rigorosa e razoável e, hoje, felizmente a situação financeira está melhor”, diz. Um coisa é certa, garante o secretário-geral da UGT: “Não há dinheiro, não se faz“.