Ambiente

Salvar o mundo à força de água pura

De ameaça passou a crise. 7 mil milhões de pessoas partilham a ínfima parcela de água potável da Terra: 1%. O documentário Apocalipse Aquático aponta saídas para a sede do mundo.

Arturo Vittori com estudantes de arquitetura da Etiópia

National Geographic Channels/Brendan Bannon

O horizonte da água é a terra. É nela que se infiltra e sobre ela se condensa. Fonte de vida e alimento das coisas terrestres, é nuvem que circula na respiração, é chuva fértil a entranhar-se nos campos, é gelo puro acumulado nos mares, é lençol subterrâneo a sustentar o solo que pisamos.

A água potável é um recurso finito que está em fim de ciclo no que toca à sua extração direta. É cada vez mais difícil encontrar água pura no mundo. Regiões inteiras precisam de investir milhões em tecnologia em estado embrionário que não garante a saciedade dos seus habitantes.

Com o aumento populacional, aumentam também as tensões internacionais que podem resultar numa crise de dimensão planetária. O último episódio da série Breakthrough, do National Geographic Channel, debruça-se sobre as novas formas de extrair água potável, hoje ao alcance da humanidade. Apocalipse Aquático tem a participação de Angela Bassett, que assina o documentário que estreia no próximo domingo, dia 13 de dezembro.

Os números são claros: os oceanos concentram 97% da totalidade da água do planeta; nos polos, os glaciares representam 2% dos recursos de água doce. Sobram assim os rios, os lagos, as lagoas e os lençóis subterrâneos que, em conjunto, totalizam 1% da água potável disponível para 7 mil milhões de pessoas e milhões de espécies de animais e plantas.

O panorama, já de si frágil, agrava-se em resultado das alterações climáticas. Um pouco por todo o mundo, cientistas e engenheiros deparam-se com dificuldades crescentes para encontrar soluções para os problemas da água potável. Querem garantir condições ambientais adequadas às gerações vindouras mas que tenham efeitos práticos agora. E como a água circula sem quaisquer barreiras geográficas, as soluções devem ser pensadas a nível global, regional e local.

Um relatório recentemente apresentado pelo departamento de investimento e consultoria do Bank of America, a Merrill Lynch, alerta para a iminência de uma crise da água, sublinhando que 750 milhões de pessoas deixaram de ter acesso a água potável. As previsões apontam para que, em 2030, a procura mundial possa ultrapassar a oferta num rácio de 40%.

Um dos autores, Sarbjit Nahal, dá conta das suas inquietações ao National Geographic Channel: «Parece inevitável que a água se venha tornar um bem mais escasso do que o petróleo». Estes argumentos juntam-se a outros depoimentos reunidos no episódio Apocalipse Aquático, da série Breakthrough, que faz o balanço dos avanços tecnológicos e apresenta o estado da arte das descobertas mais ecológicas e aplicáveis às necessidades de cada região deficitária em água.

E as propostas são várias. Algumas passam pela dessalinização da água do mar e dos depósitos subterrâneos, outras exploram a potencialidade de captação da humidade acumulada na atmosfera. Como não poderia deixar de ser, a ecologia e a reciclagem continuam na ordem do dia por se assumirem como garantia no futuro da gestão de recursos.

Uma das tecnologias em maior expansão encontra-se ao largo da costa da Austrália e responde a duas necessidades urgentes. O sistema CETO 5 aponta, por um lado, para a sustentabilidade e a ecologia, ao contemplar a produção de uma energia livre de emissões de gases com efeito de estufa; por outro, produz água doce. Isto, numa só fábrica, onde o processo se inicia com boias submersas a capturarem a energia das ondas do mar para, de seguida, ser utilizada para bombear a água através de turbinas geradoras de eletricidade.

O líquido é então encaminhado para a um sistema de dessalinização por osmose inversa, uma membrana que remove o sal e os resíduos sólidos. Uma das grandes vantagens do CETO 5 é que gera a eletricidade necessária para bombear a água através do processo de dessalinização, em vez de recorrer a combustíveis fósseis para alimentar estações de bombeamento em terra.

O vale central da Califórnia oferece uma abordagem diferente para um problema semelhante: o sal. Esta região goza de uma grande abundância de água nas camadas subterrâneas, no entanto, é inutilizável quer para a agricultura, quer para o consumo direto, devido à sua alta salinidade. Mas a situação está prestes a mudar.

A empresa WaterFX construiu um protótipo à escala, que é uma verdadeira fábrica de dessalinização alimentada a energia solar, capaz de purificar a drenagem do solo e simultaneamente garantir a futura produção de 7 mil milhões de litros de água por ano. Em vez da tecnologia de purificação da água do mar por osmose, a WaterFX aposta na energia do Sol para aquecer os resíduos salgados, de modo a fazer evaporar a água que irá condensar-se de seguida como H2O puro.

No continente africano, o arquiteto italiano Arturo Vittori e a sua equipa encontraram uma solução inovadora para ajudar um dos países com maiores carências de água pura: a Etiópia. A Torre WarkaWater, assim batizada em homenagem a uma árvore indígena, eleva-se até aos 9 metros, exibindo uma enorme rede de malha que serve para capturar a humidade condensada do nevoeiro e do orvalho.

O processo de captação culmina com o encaminhamento da água para um tanque de armazenamento higienizado, que funciona como uma bica. De acordo com um artigo publicado este ano na revista Wired, os testes apontam para uma capacidade de retenção de água que varia entre os 60 e os 120 litros diários.

A torre tem um custo de construção de apenas 518€ e pode ser edificada em menos de uma semana com materiais disponíveis localmente. Num país onde as pessoas estão habituadas a percorrer quilómetros para retirar água de lagos contaminados com dejetos humanos, esta é uma inovação que pode, literalmente, salvar vidas.

A última inovação tem a voz da reciclagem e vem novamente do continente americano, mais precisamente da cidade de Peoria, situada no deserto do Arizona, onde a precipitação é tão rara que os cerca de 150.000 habitantes não podem dar-se ao luxo de desperdiçar a mínima gota de água que seja.

E é aqui que a empresa Butler Water Reclamation Facility desenvolve um dos seus projetos mais arrojados. As águas residuais contaminadas com uma fuligem negra, oriundas dos esgotos da cidade, passam por um processo de limpeza de seis etapas; incluindo telas que removem detritos e pequenas partículas, filtros de membrana projetados para limpar ainda mais a água, e um biorreator preenchido com bactérias úteis que consomem o material sólido remanescente.

Na conclusão do ciclo, a purificação passa pelo recurso a raios ultravioleta para desinfetar a água, que é então bombeada para um aquífero subterrâneo onde fica armazenada para futura reutilização.

As ideias que recebemos do episódio Apocalipse Aquático têm em comum a procura, a captação, a reutilização e a purificação da água, mas são apenas parte da solução. A chave do problema passará provavelmente por uma mudança paralela e substancial da própria organização das sociedades modernas.

Uma renovação civilizacional é precisa, para que se possa reduzir o consumo global de água e os desperdícios com soluções tão simples como encher autoclismos com a recuperação da água da chuva.

Amanhã, será ainda a água, a seiva do mundo que sobreviverá ao deserto, à erosão do tempo e dos homens, apesar das nascentes ameaçadas, dos oceanos poluídos e dos lagos que secam. Para que a água se conserve como líquido precioso e indispensável à vida da humanidade, para que chegue a todos os continentes e a todos os povos, para que irrigue terras férteis e dissolva resíduos nocivos, é preciso ter consciência dos perigos que ameaçam o equilíbrio ecológico do planeta e os recursos hídricos globais.

A ação, no sentido de remediar erros, encontrar soluções e assegurar condições ambientais adequadas às gerações vindouras, pode encontrar inspiração neste documentário do National Geographic Channel.

Breakthrough – Apocalipse Aquático

National Geographic Channel, domingo 13 de dezembro, 22h30

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Conteúdo produzido pelo Observador Lab. Para saber mais, clique aqui.
Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: obslab@observador.pt
Ambiente

A onda verde na UE e os nacionalismos

Inês Pina

Se hoje reduzíssemos as emissões de CO2 a zero já não impedíamos a subida de dois graus centígrados. E estes “míseros” dois graus vão conduzir ao fim das calotas polares e à subida do nível do mar.

Finanças Públicas

Como evitar um 4º resgate? /premium

Paulo Trigo Pereira

Portugal necessita de mais doze anos (três legislaturas completas) de crescimento económico e de finanças públicas quase equilibradas para sair da zona de risco financeiro em que ainda se encontra.

Brexit

Boris Johnson /premium

João Marques de Almeida

Em Londres, só um louco ou um suicida é que defenderiam o acordo assinado com a União Europeia. Resta saber se os líderes europeus terão a lucidez de reconhecer o evidente: o acordo que existe morreu.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)