Quando Portugal pode entrar pela primeira vez no Spotify, um novo mundo abriu-se por cá. É uma das marcas mais reconhecidas de música em streaming no mundo, já tinha sido criada havia quatro anos e os portugueses continuavam resignados ao YouTube (e pouco mais). O que muitos não sabiam é que o universo da música streaming não tinha começado neste milénio: na verdade ele já existia no final do século XIX, graças a uma máquina chamada telarmónio.

Imagine um Spotify vintage que só existe nos Estados Unidos, mais especificamente em Manhattan. Os restaurantes e hotéis desta região de Nova Iorque subscreviam o serviço. Depois, os donos dos espaços telefonavam para uma central e pediam que os conectassem à central do serviço do telarmónio, inventado em 1897 pelo advogado, Thaddeus Cahill. As linhas telefónicas ligavam-se à estação e as músicas eram depois enviadas para o telefone. Nessa altura, os donos dos restaurantes e hotéis colocavam um funil de papel junto ao telefone para amplificar o som, conta o Scientific American.

Esta central estava em Broadway, no andar de um edifício com 200 toneladas de máquinas responsáveis por criar as melodias e transformá-las em impulsos elétricos, de modo a chegarem aos telefones que os transformavam em ondas sonoras. Todas essas melodias era criadas por dois músicos contratados para tocar as músicas pré-definidas num andar logo por cima da sala das máquinas. Cada tecla que pressionavam gerava um movimento particular das máquinas e, por consequência, um impulso elétrico diferente, explica o Synth Museum.

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Os músicos que trabalhavam na central do telómero. Créditos: Electronic Music History

O telarmónio fez vibrar a imprensa: durante o início do século XX, vários jornais fizeram deste serviço manchete. O New York Times escreveu que aquela era “música cientificamente correta, capaz de reproduzir qualquer som produzido por qualquer instrumento musical e muitos outros que os instrumentos musicais não produzem”. As pessoas começaram a querer ouvir música através do telarmónio em casa e o serviço expandiu-se para os telefones domésticos: em 1907, Thaddeus Cahill cobrava 20 centavos à hora para que a população de Manhattan pudesse ouvir toda a música que quisesse sem sair de casa.

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Mas foi com esta grandeza que veio a morte do telarmónio: a capacidade das máquinas instaladas em Broadway não era suficiente para difundir aquela quantidade de sons e a qualidade da música foi piorando. A eletricidade perdia-se pelo caminho, a música chegava distorcida ao telefone e algumas chamadas eram interrompidas quando as linhas eram trocadas por engano.

De acordo com o livro Magic Music from the Telharmonium, os esforços de Thaddeus Cahill para manter o serviço de pé não chegaram porque seria necessário um investimento demasiado grande em novas máquinas e novos espaços para as acolher. Em 1916, o telarmónio lançou as últimas notas musicais, mas prometia continuar a marcar a música: serviu de inspiração para a criação do órgão Hammond (que foi construído desde 1934) e do sintetizador.