Numa época que que Hollywood vive à base de filmes de super-heróis de comics feitos em linha de montagem, de monstros fantásticos, robôs gigantes polimorfos e de maus remakes de fitas cada vez mais próximas no tempo, e o cinema americano está nas mãos da Marvel, Ron Howard ousa fazer um filme baseado numa história real, passado nos inícios do século XIX, ambientado num navio baleeiro, uma aventura de homens de carne e osso que enfrentam os perigos da natureza para ganharem o seu pão e o das suas famílias. Mesmo recorrendo a efeitos digitais e ao 3D, “No Coração do Mar” é um filme deslocado do seu tempo, um anacronismo cinematográfico, uma produção fora de moda. Tão fora de moda, que apetece torcer por ela.

[Trailer de “No Coração do Mar”]

Em 2000, o escritor Nathaniel Philbrick publicou um livro intitulado In The Heart of the Sea, onde conta a história de um navio baleeiro de Nantucket chamado ‘Essex’. Durante a sua viagem de caça às baleias, em 1820, o ‘Essex’ foi perseguido, abalroado e afundado por uma enorme baleia branca cheia de cicatrizes. Os sobreviventes do desastre andaram à deriva durante três meses, e tiveram que recorrer ao impensável para sobreviver. O relato dessa odisseia, escrito pelo imediato do navio, Owen Chase, inspirou parcialmente a Herman Melville, ele também um homem do mar, o seu clássico “Moby Dick”.

No filme de Howard, quem conta a história a Melville (Ben Whishaw), 30 anos depois do sucedido, é aquele que é nessa altura o único sobrevivente do desastre, Thomas Nickerson (Tom Holland em novo, Brandan Gleeson em velho), que foi grumete no ‘Essex’, e que, mesmo já adiantado nos anos, ainda é assombrado por tudo o que passou. Quando o ‘Essex’ se fez à água, o homem que julgava que se ia estrear a comandar um baleeiro, o experiente Owen Chase (Chris Hemsworth), teve que se contentar com o lugar de imediato, já que o comando foi entregue a George Pollard (Benjamin Walker), filho de um dos armadores. O choque a bordo entre os dois foi instantâneo. Enquanto Chase era um líder natural e um marinheiro e baleeiro experimentado, tendo a confiança e o respeito da tripulação, Pollard era inexperiente, autoritário e perigosamente teimoso.

[Entrevista com Ron Howard]

Ron Howard é aquilo que, hoje, mais se aproxima do que era nos tempos dos grandes estúdios e dos géneros clássicos, um realizador “de indústria”, um homem que saltita com facilidade de formato para formato, que tanto faz filmes sobre situações e figuras reais (“Apolo 13”, “Frost/Nixon”, “Rush-Duelo de Rivais”) como adaptações de best-sellers (“O Código Da Vinci”) ou ficções as mais variadas, nos registos mais díspares (“Cocoon-A Aventura dos Corais Perdidos”, “Ed tv”, “Resgate”, “Desaparecidas”). E que, last but not least, se preza de ter o seu gosto em sintonia com o do espectador médio (se é que tal coisa ainda existe). Este “No Coração do Mar” é mais uma prova dessa linhagem de ofício e dessa vocação de Ron Howard, embora não consiga estar totalmente à altura dos seu pergaminhos e das suas ambições: ser uma aventura marítima de contornos épicos e ressonâncias bíblicas, através do combate entre o homem e o gigante dos oceanos.

[Cenas da rodagem]

https://youtu.be/StCc5aSr0lQ

O filme está no seu melhor quando Ron Howard recria o ambiente de Nantucket há dois séculos atrás, as condições de vida a bordo de um navio baleeiro de princípios do século XIX, o dia-a-dia dos homens, as surtidas nos frágeis botes para caçar as baleias com arpões atirados à mão, mesmo em cima dos animais, e o posterior – e repugnante – trabalho de desmembramento e aproveitamento de tudo o que os cetáceos tinham para dar ao homem, da carne ao preciosíssimo óleo; bem como, mais tarde, o calvário dos náufragos do ‘Essex’ na imensidão do Pacífico, praticamente sem água e sem comida e a terem de tomar decisões a que nenhum ser humano devia ser obrigado para se manterem vivos.

[Entrevista com Chris Hemsworth]

Onde “No Coração do Mar” falha, por um lado — e ironicamente –, é na utilização dos efeitos digitais, que são demasiadas vezes muito óbvios e não conseguem a suspensão da descrença do espectador ; e no recurso ao 3D, que não traz o menor valor acrescentado sensorial ou dramático e, pelo contrário, acaba por se tornar incómodo e intrusivo. O argumento de Charles Leavitt também não sabe em quem se fixar para eleger um pivô narrativo, se em Chase, se em Pollard, se no jovem Nickerson, e andamos numa jiga-joga entre os três durante a maior parte do filme.

[Entrevista com Tom Holland]

E, depois, há o problema do elenco. Um simpático podão como Chris Hemsworth não tem estaleca nem currículo para arcar com uma personagem como Owen Chase, tal como o apagado e indiferente Benjamin Walker não é indicado para a figura de Pollard. Pelas suas características e ambições, pela sua vontade de desmesura heróica e trágica,“No Coração do Mar” é um filme que pedia gente com o arcaboiço, a familiaridade, o lastro de carreira de um Mel Gibson, um Hugh Jackson, um Russell Crowe, um Liam Neeson ou até um Christian Bale. Não se pode querer fazer um épico e depois apresentar tão fracas figuras para personificar os seus principais intérpretes. Se o peixe morre pela boca, “No Coração do Mar” não morre só pelo cetáceo digital, mas também em grande parte pela água que os actores de carne e osso metem.