A melodia, o que diz uma música e o timing podem ajudar a explicar muita coisa do que acontece no mundo. A BBC lançou o desafio a Greg Kot, um critico de música do Chicago Tribune, para que definisse as gerações (ou décadas, vá) e as suas causas através de canções. Vamos a isto?

“O que transforma uma música num hino? Em todas as décadas, uma música aterra como um tijolo a entrar por uma janela e transmite a mensagem que em poucos minutos resume o pensamento de uma geração” — Greg Kot

O ponto de partida de Kot é a “My Generation” dos The Who, que remonta a 1965. Mil novecentos e sessenta e cinco, senhoras e senhores. Quem é que consegue, hoje, resistir a bater o pé ou a abanar o capacete quando ouve esta música? O exemplo é bom, pois claro. A letra diz coisas como “as pessoas tentam mandar-nos abaixo/só porque nos damos bem” e “espero morrer antes de ficar velho”, o que espelha uma espécie de confrontação perante as outras gerações. Ou, então, um desafio e/ou uma resposta à censura à atitude dos jovens por parte dos mais velhos.

JAMES BROWN: SAY IT LOUD — I’M BLACK AND I’M PROUD (1968)

Martin Luther King foi assassinado no mesmo ano. Kot associa o surgimento deste hit com esse evento histórico: “Gritem: sou negro e tenho orgulho”, berrava James Brown, com a sua memorável voz. “Esta afirmação de orgulho racial abriu a porta ao movimento” para a emancipação dos afro-americanos, diz Kot.

ALICE COOPER: I’M EIGHTEEN (1970)

Greg Kot coloca esta música na lista, mas não lhe dá mais do que duas linhas para explicar porquê. No fundo, esta música serviu para aqueles que se sentiram meio perdidos entre a adolescência e a idade adulta.

SEX PISTOLS: GOD SAVE THE QUEEN (1976)

“Não há futuro para ti”, dizem na letra. Esta é mais uma música de protesto, que Kot coloca no patamar dos The Who. Kot recorda que o desejo de “destruir tudo” de Johnny Rotten, o autor da letra, era marketing e não uma verdadeira ameaça, chegou a dizer o próprio em várias entrevistas.

GRANDMASTER FLASH AND THE FURIOUS FIVE: THE MESSAGE (1982)

Mais uma moedinha, mais uma voltinha: agora rap. O beat parece eterno, o início da música é familiar, certo? A mensagem é mais dura do que o simpático ritmo. Greg Kot explica que foi em resposta ao descalabro económico fruto das políticas da Administração Reagan. Refrão: “Don’t push me ’cause I’m close to the edge/I’m trying not to lose my head/ It’s like a jungle sometimes/It makes me wonder how I keep from going under”.

PUBLIC ENEMY: FIGHT THE POWER (1989)

Para os mais novos, esta música talvez soe a algo parecido com Beastie Boys, com menos eletrónica e tal. Esta é, pois claro, mais uma ação de protesto, vestida com um ritmo à maneira, que grita versos enérgicos como “têm de nos dar o que queremos”, “têm de nos dar o que precisamos”, “a nossa liberdade de expressão é liberdade ou morte”, “temos de combater os poderes” e “combate o poder!”.

NIRVANA: SMEELS LIKE TEEN SPIRIT (1991)

O início é poesia para os ouvidos, hein? Só é de lamentar não haver uma farta cabeleira à Dave Grohl (o então baterista e futuro vocalista dos Foo Fighters)… ou Valderrama. Kot aponta Kurt Cobain como alguém que soube ler o ceticismo, ansiedade e humor peculiar da Geração X. “With the lights out, it’s less dangerous/Here we are now, entertain us/I feel stupid and contagious/Here we are now, entertain us/A mulatto, an Albino/A mosquito, my libido, yeah”.

GNARLS BARKLEY: CRAZY (2004)

“Numa década em que o pop se dividiu em milhares de subculturas, o estranho casal entre Danger Mouse e Cee-Lo aproximou e meteu toda a gente com um hino” que comentou o “estado do mundo”, considera Kot.

ARCADE FIRE: NEIGHBORHOOD #1 (2004)

“Logo quando a noção de banda de rock estava a voltar a conectar o universo com o som do século XX”, este grupo trocou as voltas à coisa, diz Kot. Falarão as letras de combater o poder? Dos direitos humanos? Da economia? Nop. Falam de amor, ó o amor. Nesta música podemos ouvir versos como “construirei um túnel da minha janela para a tua” e “sobes a chaminé e encontramo-nos no meio”. Ou “e já que não há ninguém à volta, deixamos os nossos cabelos ficarem compridos e esquecemos tudo o que sabíamos, depois a nossa pele fica mais grossa porque vivemos na neve.” É isto, o amor sem tecto.