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“Já te disse três vezes quem manda…”

Imagine um leão seguro de si, a rebentar de confiança, a virar-se para uma águia e dizer-lhe, na cara, esta frase. É fácil lá chegar. Mesmo assim, o Sporting insistiu em ilustrar este cenário na página de Facebook do clube e publicou a imagem de um rei da selva e uma rainha dos ares a fitarem-se nos olhos — com a tal frase no meio. Mais do que picar os turcos que iam jogar à bola a Alvalade, o clube aproveitou a ideia para dar uma bicada no rival lisboeta, que também gosta de águias e, esta temporada, já perdeu três vezes com o Sporting. Isto até poderia ter piada se no relvado não se tivesse visto tudo ao contrário do que a imagem mostrava. A começar por um leão manso.

Ou amansado, pois não era de propósito que a equipa de Jorge Jesus se fartava de falhar passes a meio campo, de atirar chutões para a frente na defesa ou de ficar sem a bola quando ainda estava a pensar o que fazer com ela. Quase desde o primeiro minuto que os turcos não deixaram os leões serem mandões, sobretudo, por darem ao Sporting o que nenhuma equipa lhe deu esta época: três ou quatro jogadores a pressionarem, lá na frente, a correrem mais sem bola do que com ela. Por isso, e mesmo que tivessem tempo e espaço para decidirem que passe fazer, os centrais Naldo e Paulo Oliveira quase nunca tinham um leão solto e à vontade para receber a bola.

É meio caminho andado para impedir que uma equipa se arme em mandona: não a deixar montar jogadas, desde trás, com a bola na relva. E por isso é que Ricardo Quaresma, Sahan e, às vezes, José Sosa, se aproximavam de Mario Gómez, para fecharem os espaços entre os defesas e os médios leoninos, e obrigarem o Sporting a escolher uma de duas hipóteses: ou saíam a jogar pela lateral para quem os turcos deixavam uma linha de passe aberta, ou davam um chutão para a frente, à procura de Islam Slimani. Para evitar chatices, a prudência aconselharia a que a segunda opção fosse a mais escolhida, mas uma equipa que gosta de mandar insiste em fazê-lo. Por isso, os leões foram tentando dar a bola aos médios, arriscando passes, confiando que os pezinhos de Ruiz, João Mário e William dessem para resolver a pressão turca.

O que se viu foi éne perdas de bola e passes falhados. Um deles, aos 12’, deu uma bola para Ricardo Quaresma cruzar com uma trivela das boas que nem Mario Gómez esperava que passasse por todos os defesas do Sporting, pois o alemão dominou-a mal. Aos 32’ foi William, com calma e adversários a mais, a ficar sem a bola à entrada da área e a deixar que o Besiktas a fizesse chegar a Sahan, cujo remate bateu na malha lateral da baliza de Rui Patrício. O extremo turco fartou-se de aproveitar o espaço nas costas de Jefferson e de ganhar bolas na frente do brasileiro, que foi o leão que mais deu nas vistas pelo pouco que fez até ao intervalo. Durante 45 minutos o Sporting não fez tabelas, não pôs os homens das alas a fugirem para o meio, não entrou na área contrária e nem esteve perto de marcar um golo ao Besiktas. Nunca mandou.

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Muito menos o fez quando João Pereira, aos 58′, achou por bem tentar fintar a meio campo quando tinha a bola mais perto do centro do que da linha. Perdeu-a para Köyba, que foi rápido a passá-la para as costas do lateral direito, onde Ricardo Quaresma foi logo a sprintar. A descompensação na defesa do Sporting compensou Mario Gómez, que rematou de primeira (e no ar) um cruzamento de trivela do extremo para marcar. De repente, o primeiro classificado da liga turca punha o primeiro do campeonato português (por coincidência, ambos com 32 pontos) fora da Liga Europa. Agora sim, o Sporting teria de mandar, mesmo que os turcos não parecessem querer recuar a equipa que, até ali, se mantinha avançada no relvado e a pressionar os leões no campo todo. Só depois de Ricardo Quaresma, a 35 metros da baliza, tentar um brilharete com um remate em jeito é que o Sporting chegou à conclusão que a melhor forma de reagir era dar aos turcos o que os turcos estavam a dar aos leões: muita pressão e intensidade a lutar pela bola.

Sporting CP vs Besiktas

Foto: EPA/MANUEL DE ALMEIDA

Foi assim, intensos, a decidirem rápido e a acelerarem uma tabela, que Jefferson e Bryan Ruiz fugiram à pressão alheia, na esquerda, para deixarem o costa-riquenho com espaço para avançar uns metros com a bola. Já perto da área, o canhoto picou a bola por cima dos defesas do Besiktas para isolar Slimani, mas o argelino parecia ter estragado tudo quando, com a ponta da bota direita, deixou a bola fugir uns metros para a frente. Bom para o avançado, e para o Sporting, que o guarda-redes Zengin ficasse enraizado na relva e não se mexesse, deixando Slimani chegar primeiro à bola e rematá-la para o 1-1. O Sporting acordava sem ainda conseguir mandar e, seis minutos depois, voltaria a despertar por obra da cabeça de João Mário, que conseguiu tocar na bola que lhe caiu em cima depois de alguém a chutar para o ar. O toque serviu de passe para Bryan Ruiz, que à esquerda da área rematou ao terceiro toque para fazer o 2-1.

A vitória já chegava para tirar a equipa com vida da fase de grupos da Liga Europa, mas os leões, agora sim, queriam mandar. Tentaram encostar o Besiktas à sua área, aproveitaram a saída de Sahan — que era o pulmão que carregava os contra-ataques turcos — e levaram a bola mais vezes para os pés de Bryan Ruiz e Gelson Martins, os homens que melhor a guardavam. E até foi o miúdo que Jesus tirou do banco ao intervalo que, aos 77′, apanhou a bola cabeceada por Slimani para, à entrada da área, desmarcar Teófilo Gutiérrez. O colombiano não quis rematar à primeira e simulou para rematar à segunda, fintar Tosic e fazer o 3-1 que o enlouqueceu ao ponto de ir roubar a lata de spray ao árbitro para tentar desenhar algo no relvado de Alvalade (o avançado não jogava desde o 1-0 ao Aroubca, há mais de mês).

Os 15 minutos que se jogaram até ao fim serviram para os leões lá conseguirem mandar no jogo, acalmando-o e desacelerando, para não deixar que nem Ricardo Quaresma conseguisse mudar algo através das fintas. A ganhar é sempre mais fácil e as poucas jogadas que o Besiktas montou até à área do Sporting foram de uma equipa já a lamentar a iminente despedida da Europa. Ao contrário da equipa de Jorge Jesus, treinador bem se gabou, antes do jogo, de já ter chegado a duas finais da Liga Europa a “fazer o que sempre [fez]” — rodar a equipa. Mas passou pelas passas da Turquia para, com os titulares, conseguir a vitória que lhe valeu a passagem aos 16 avos de final da competição. Nem sempre se consegue mandar por completo em todas as águias.