Os cinco melhores

Soumission, de Michel Houellebecq (Flammarion)
Provavelmente, o livro do ano, não só pelo tema aparente, mas pela liberdade e ironia com que está escrito. Ao contrário do que parece, não é sobre a islamização da França, mas sobre a profunda corrupção da cultura intelectual e universitária do Ocidente. Houellebecq não escreve para acariciar as piedades da época. Com ele, seja qual for o tema, a literatura não é substituível por qualquer ensaio académico ou reportagem jornalística. O mais importante escritor vivo.

Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes), de António M. Feijó (Imprensa Nacional)
António Feijó prova que deixámos de saber ler Fernando Pessoa a partir do momento em que deixámos de ler Teixeira de Pascoaes, o “monstro” das letras portuguesas na primeira metade do século XX. Subitamente, a biblioteca esquecida da literatura portuguesa adquire uma vida nova, como se alguém tivesse levantado o lençol de indiferença que a cobria. Um milagre de erudição e de subtileza. Um livro sensacional.

Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida (Teorema)
É a história do cabelo de uma rapariga angolana que cresce portuguesa. Os aromas, cores, texturas, fantasias e reflexões da narrativa ficam connosco durante dias. É claro que “nada haveria a dizer de um cabelo que não fosse um problema”. E “dizer alguma coisa consiste em trazer à superfície aquilo de que, por ser segunda natureza, não nos apercebemos” – é o que este livro faz de uma maneira deslumbrada e deslumbrante. A revelação de uma grande escritora.

L’Arabe du Futur. Une Jeunesse au Moyen-Orient, vol. II, de Riad Sattouf (Allary Éditions)
As aventuras de um rapazinho louro na Líbia de Kadhafy e na Síria de Assad. Uma das mais inesquecíveis introduções ao Médio Oriente (o pai do personagem é um compêndio de psicologia do ocidentalizado), ao mesmo tempo hilariante e devastadora. “C´est bien” (frase sinistra com que fecha o volume). A banda desenhada como forma intelectual superior. O primeiro volume saiu este ano em português.

Fools, Frauds and Firebrands: Thinkers of the New Left, de Roger Scruton (Bloomsbury)
Que resta da esquerda intelectual depois da autópsia executada por Roger Scruton? De Habermas, Zizek e companhia, muito pouco. Por comparação, o velho Sartre sai menos mal tratado. Mas quem é que resistiria à capacidade analítica do filósofo inglês? Scruton é um dos últimos espíritos livres do nosso tempo. E, talvez por isso, dos mais implacáveis.

O pior

Go Set a Watchman, de Harper Lee (William Heinemann)
A autora não tem culpa nenhuma: este romance não é a continuação de To Kill a Mockingbird, mas o livro que Lee poderia ter escrito em vez desse, mas que nunca acabou de escrever. Teria sido um livro muito mais complexo, mas talvez um livro pior. Ajuda a compreender To Kill a Mockingbird, mas não é o livro que o comércio editorial prometeu à maioria dos leitores.

[Veja nesta fotogaleria as capas dos livros escolhidos por Rui Ramos]

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