Política

Arnaldo de Matos e os atentados de Paris: a culpa é do imperialismo

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O fundador do PCTP-MRPP escreve um texto violento onde defende os ataques. Diz que as forças do "imperialismo" é que "roubam petróleo", os terroristas de Paris "nem chocolates roubaram".

Vítor Rios

Os atentados de 13 de novembro em Paris são culpa do imperialismo francês. É isso que Arnaldo de Matos, fundador do PCTP-MRPP, escreve no site do órgão central do partido, a Luta Popular.

Não é o islamismo, mas o imperialismo a causa real, verdadeira e única do ataque a Paris (…) terror, horror, crueldade são os ataques aéreos, de mísseis de cruzeiro, de artilharia, de drones, conduzidos pelo imperialismo, designadamente francês, sobre os homens, os velhos, as mulheres e as crianças das aldeias e das cidades de África e do Médio Oriente, para roubar-lhes o petróleo e as matérias-primas. Os atacantes de Paris nem chocolates roubaram: levaram a guerra aos franceses, apenas para acordá-los: para lembrar-lhes que o governo e as forças armadas do imperialismo francês estão, em nome da França e dos franceses que julgam ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan, a matar, a massacrar, a aterrorizar com crueldade inenarrável os povos do mundo”

Na tese que Arnaldo de Matos defende, e com a qual pretende responder a um editorial do Partido Comunista de França (pequeno grupo maoista, que não tem qualquer ligação com o Partido Comunista Francês) que repudia os ataques daquela sexta-feira negra que fizeram 130 mortos no coração da capital francesa, tudo gira em torno da culpa dos franceses que levou à resposta dos jihadistas. O fundador do PCTP-MRPP critica que um partido como este, que “se reivindica do comunismo, do marxismo, do leninismo e do maoismo”, traia o seu passado. “É ultraje à teoria revolucionária que para si mesmo reclama e um insulto à memória histórica e ao internacionalismo da heróica classe operária francesa”, escreve.

Arnaldo de Matos passa depois às justificações para os atentados, todas elas em redor da forma como a França, entre outros países, está a agir e, relação a alguns países de África e do Médio Oriente, e fala nos ataques como uma lição para todos. Porque “o cobarde e terrorista imperialismo francês, que conjuntamente com o imperialismo ianque, inglês, alemão e europeu em geral tem estado a massacrar os povos do Iraque, do Afeganistão, da Síria, da Líbia, do Chade, da Nigéria e do Mali durante os últimos vinte anos, não está impune e que pode ser atacado no próprio covil em que se acoita e se consideraria seguro”, escreve ele, acrescentando. “Não é o islamismo, mas o imperialismo a causa real, verdadeira e única do ataque a Paris. Agora os franceses já sabem que a guerra de rapina movida pelo imperialismo francês em África e no Oriente Médio tem como consequência inevitável a generalização da guerra à própria França, à capital desse mesmo imperialismo moribundo.”

Os argumentos são muitos:

Não só não foi um massacre, como foi um acto legítimo de guerra; não foi cometido por islamitas, mas por jiadistas, isto é, combatentes dos povos explorados e oprimidos pelo imperialismo, nomeadamente francês; e acima de tudo – coisa que estes revisionistas de pacotilha intentam ocultar – foi praticado por franceses, nascidos em França, vivendo em São Dinis e noutros bairros do Paris suburbano. Pois é, os combatentes de Paris não são islamitas estrangeiros; são irmãos de sangue do filósofo Alain Badiou e de outros ideólogos do Partido Comunista de França (marxista-leninista-maoista).”

Num texto longo, Arnaldo de Matos repete adjetivos como “lacaios do imperialismo”, “neo-revisionistas bem piores que o revisionismo social-fascista dominante na Rússia Soviética e que a levou à implosão”, “marxistas franceses de pacotilha”, para apontar baterias aos que deixaram os ideais comunistas no passado e foram agora castigados pelo terrorismo.

Eis os texto na íntegra (com os respetivos erros ortográficos):

Os Marxistas-Leninistas-Maoistas Franceses
Lacaios do Imperialismo
Existe em França um partido político denominado Partido Comunista de França (marxista-leninista-maoista), com um portal na internete, designado Lesmaterialistes.com, onde publica as suas abundantes opiniões políticas.

No dia 14 de Novembro passado, publicou um editorial sobre os ataques da véspera em Paris. O editorial, com tradução minha, vai a seguir transcrito na íntegra, mas pode – e deve – ser confrontada a minha tradução com o original francês constante do portal supramencionado.

EDITORIAL

14 de Novembro de 2015

O massacre cometido pelos islamitas em Paris só tem uma lógica: a lógica do terror. O seu objectivo é esmagar os espíritos pelo horror e pela crueldade, traumatizá-los profundamente. O fundamento do procedimento é a negação do materialismo.
Estamos perante um fanatismo, que corresponde à base feudal ainda existente na maior parte dos países do mundo. Com efeito, uma vez chegados ao imperialismo, os países capitalistas realizaram intervenções de tal modo profundas nos outros países que puseram aí à mostra a base feudal ainda existente nos campos.
O objectivo seria impedir a emergência de uma verdadeira burguesia e, em contrapartida, permitir que se revelasse uma burguesia burocrática, que servisse de substituição àquela outra. Com a crise do capitalismo, porém, agudizaram-se as contradições no seu seio: a burguesia burocrática dividiu-se em fracções concorrentes, indo até aos golpes-de-estado, enquanto que os feudais, aproveitando- -se do maná do petróleo, frequentemente se revoltaram.
Os islamistas são o fruto disto tudo, difundindo um capitalismo romântico que apregoa o retorno a uma idade média totalmente idealizada. Defendendo interesses feudais, é a feudalidade ela mesma que se torna o seu programa: proibição dos valores democráticos, da música polifónica, da pintura, dos direitos humanos fundamentais.
Ora, tudo isto sublinha a importância da defesa dos valores democráticos, da herança nacional democrática, dos valores progressistas historicamente apoiados por cada povo, cujo núcleo é a classe operária.

Para um partido político que logo no seu nome se reivindica do comunismo, do marxismo, do leninismo e do maoismo, o editorial acabado de transcrever é um ultraje à teoria revolucionária que para si mesmo reclama e um insulto à memória histórica e ao internacionalismo da heróica classe operária francesa, a quem devemos a gloriosa Comuna de Paris, a primeira ditadura do proletariado revolucionário.

Entende esta canalha revisionista reaccionária que, no passado dia 13 de Novembro, houve um massacre cometido pelos islamitas em Paris, mas não se interroga porquê precisamente em Paris, e não em Lima, em Quito ou em Havana. Ou seja, não se pergunta quais as causas profundas do ataque dos jiadistas à capital do imperialismo francês.

Se se questionassem sobre as causas reais do acontecimento, teriam compreendido, com toda a facilidade e meridiana clareza, que o massacre não é um massacre mas um ataque militar superiormente organizado e conduzido ao coração do imperialismo gaulês, infligindo uma pesada e demolidora derrota ao maior exército e à maior organização policial do continente europeu.

Teriam então compreendido que o cobarde e terrorista imperialismo francês, que conjuntamente com o imperialismo ianque, inglês, alemão e europeu em geral tem estado a massacrar os povos do Iraque, do Afeganistão, da Síria, da Líbia, do Chade, da Nigéria e do Mali durante os últimos vinte anos, não está impune e que pode ser atacado no próprio covil em que se acoita e se consideraria seguro.

Não é o islamismo, mas o imperialismo a causa real, verdadeira e única do ataque a Paris. Agora os franceses já sabem que a guerra de rapina movida pelo imperialismo francês em África e no Oriente Médio tem como consequência inevitável a generalização da guerra à própria França, à capital desse mesmo imperialismo moribundo.

E atenção: não só não foi um massacre, como foi um acto legítimo de guerra; não foi cometido por islamitas, mas por jiadistas, isto é, combatentes dos povos explorados e oprimidos pelo imperialismo, nomeadamente francês; e acima de tudo – coisa que estes revisionistas de pacotilha intentam ocultar – foi praticado por franceses, nascidos em França, vivendo em São Dinis e noutros bairros do Paris suburbano. Pois é, os combatentes de Paris não são islamitas estrangeiros; são irmãos de sangue do filósofo Alain Badiou e de outros ideólogos do Partido Comunista de França (marxista-leninista-maoista).

A lógica profunda do ataque a Paris não é o terror, não é o horror, não é a crueldade; a lógica é a lógica da guerra, dente por dente, olho por olho, até derrotar o inimigo. Terror, horror, crueldade são os ataques aéreos, de mísseis de cruzeiro, de artilharia, de drones, conduzidos pelo imperialismo, designadamente francês, sobre os homens, os velhos, as mulheres e as crianças das aldeias e das cidades de África e do Médio Oriente, para roubar-lhes o petróleo e as matérias-primas. Os atacantes de Paris nem chocolates roubaram: levaram a guerra aos franceses, apenas para acordá-los: para lembrar-lhes que o governo e as forças armadas do imperialismo francês estão, em nome da França e dos franceses que julgam ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan, a matar, a massacrar, a aterrorizar com crueldade inenarrável os povos do mundo.

Os marxistas-leninistas maoistas de França, lacaios do imperialismo, foram ao ponto de fabricar uma teoria pseudo-materialista para a espectacular coragem dos jiadistas franceses: fanatismo. Um fanatismo que corresponderia à base feudal ainda hoje existente na maior parte dos países do mundo!…

O mundo vive hoje na fase superior e última do capitalismo, isto é, na fase do imperialismo. Deixem o feudalismo em paz, que esse já morreu. Estes marxistas franceses de pacotilha confundem ideologias retrógradas, designadamente religiosas e políticas, que sobrevivem nos tempos e sobretudo nos países capitalistas atrasados, com bases económicas e sociais que já não subsistem. Onde está em França, um país imperialista moribundo, essa base feudal que explicaria o fanatismo dos jiadistas franceses, nascidos em França como Alan Badiou, que também é de família marroquina, para explicar a subsistência do fanatismo que levou combatentes franceses a fazer explodir Paris, tal como dez meses atrás, em Janeiro passado, já tinham outros, franceses como os de Novembro, feito explodir o Charlie Hebdo?

Onde está o vosso materialismo, lacaios do imperialismo? Quando la grande armée do vosso émulo Napoleão invadiu, como agora fazem as forças do imbecil François Hollande em África, o nosso país, os seus oficiais mandavam enforcar os camponeses portugueses que matavam os vossos soldados, acusando-os de fanáticos; e nessa altura ainda havia fortes vestígios do feudalismo em Portugal. Porém, os nossos camponeses não eram fanáticos nem defendiam o feudalismo: eram pura e simplesmente patriotas, lutando com as duas únicas armas que tinham – a coragem e a vida – contra os invasores franceses. Pois os vossos compatriotas, que tomaram de assalto a margem direita do Sena, em Paris, na sexta-feira 13 de Novembro, não são fanáticos: são franceses patriotas em luta contra o imperialismo francês, que tomou de assalto, destruiu e roubou os países dos seus antepassados mais longínquos.

Estes são franceses anti-imperialistas, para vergonha vossa que sois franceses lacaios do imperialismo.

Onde está o vosso internacionalismo proletário? Vós vendestes o internacionalismo ao imperialismo por um prato de lentilhas.

O prato de lentilhas é aquilo que vós considerais hoje como linha política reaccionária que deve substituir a linha da revolução proletária e da sociedade comunista: “a luta pelos valores democráticos, da música polifónica, da pintura, dos direitos humanos fundamentais, dos valores progressistas historicamente apoiados por cada povo, cujo núcleo seria a classe operária”…

Pois é: os marxistas-leninistas-maoistas de França abandonaram a revolução proletária, o comunismo e a classe operária, e trocaram tudo isso por umarevolução democrática, que a vossa burguesia já fez – e bem feita! – em França, em 1789!…

Os direitos humanos fundamentais? Mas o que é isso? Vós nunca lestes Marx? Os direitos do homem, os direitos humanos fundamentais são uma exigência do mercado capitalista, para poder explorar, sob uma cobertura jurídica, os operários. Os direitos humanos fundamentais são uma forma ideológica de dominação dos operários, porque respondem a uma necessidade do modelo económico hegemónico do capitalismo e tendem à reprodução desse modelo.

Vós sois a negação do marxismo, do leninismo e do maoismo. Vós sois neo-revisionistas, bem piores que o revisionismo social-fascista dominante na Rússia Soviética e que a levou à implosão.

Maoistas, vós? Deixem o Mao descansado, ou então lembrem-se da tese de Mao: Proletários de todos os países, povos e nações oprimidas do mundo, uni-vos!Pois é: o proletariado de todos os países – designadamente o francês – deve unir-se a todos os povos e nações oprimidas do mundo, isto é, deve unir-se aos povos de África e do Oriente Médio que o imperialismo francês, de que vós vos transformastes em nauseabundos lacaios, explora e oprime.

Quem diria: o filósofo Alan Badiou a engraxar as botas do imperialismo francês?!

12.12.2015

Arnaldo Matos

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