António Costa nunca se pronunciou em concreto sobre a solução encontrada pelo Banco de Portugal para o BES (a divisão entre banco bom e banco mau) – a mesma que agora estará a ser equacionada para o Banif. Alegando não querer fazer do BES um tema de campanha eleitoral, o agora primeiro-ministro chamou sempre a atenção, no entanto, para que a medida de resolução aplicada à instituição e que acabou por criar o Novo Banco iria trazer “dor” aos contribuintes. Agora – se não for possível a venda e o Estado tiver que intervir até final deste mês – arrisca ficar ligado ao futuro do Banif e às suas consequências, tal como Passos ficou ao BES.

“A União Europeia tem hoje as regras da União Bancária que preveem esta solução que foi apresentada como muito inovadora. Esta legislação visa uma proteção dos contribuintes. Agora, não podemos é iludir o risco”, disse António Costa em agosto de 2014, em Campo Maior, falando aos jornalistas sobre a solução encontrada para a resolução do BES e sobre as possíveis consequências desta medida para os contribuintes. O socialista estava em campanha para as primárias no PS, para derrotar António José Seguro como o candidato a primeiro-ministro deste partido. “Não podemos é criar esta ilusão junto das pessoas que é uma solução sem dor, não. É uma solução que tem dor como, aliás, acontece habitualmente quando se resolvem problemas“, afirmou também.

Já este ano, e perto das eleições legislativas, Costa preferiu não comentar as negociações para a venda do Novo Banco, alegando esperar pelo melhor resultado possível e com o menor prejuízo para a economia, para o sistema financeiro e, sobretudo, para os contribuintes portugueses”.

No entanto, tanto o BES como os seus lesados entraram na campanha eleitoral das legislativas devido às constantes manifestações de quem perdeu o dinheiro na separação entre o banco bom e o banco mau. Perante a possibilidade avançada por Passos Coelho de colaborar numa subscrição pública para auxiliar os lesados da instituição, Costa reagiu de imediato: “Não foi uma gafe o que o primeiro-ministro disse ontem, foi mesmo a tradução do seu pensamento profundo. O entendimento de que estas coisas dos mercados não têm nada a ver com os governos e que os governos podem lavar as mãos como Pilatos quando os mercados desregulados […] lesam aqueles que confiam as suas poupanças à especulação e depois se vêm traídos“, disse Costa em Matosinhos.

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No entanto, António Costa não foi o único a pronunciar-se sobre o BES desde a sua queda. Mesmo após a Comissão de Inquérito ao GES, onde coordenou os trabalhos do PS, Pedro Nuno Santos disse em plena campanha eleitoral que a responsabilidade do que se passou foi do Governo de coligação “que escondeu o problema do BES para garantir uma saída limpa de Portugal da troika”.

O agora secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares avisou ainda em setembro deste ano que o sistema bancário “já não tem uma grande folga em matéria de capitalização” e que o resgate do BES acabará por se refletir em “custos nos seus clientes”. “Em Portugal, os contribuintes e os clientes do sistema bancário são exatamente os mesmos. Seremos nós a pagar esta intervenção e, portanto, não vale a pena continuar – julgo que não é justo nem correto para os portugueses que o ainda primeiro-ministro continue a dizer que não vai haver custos para o contribuinte“, disse depois da venda frustrada do Novo Banco.