“Esta noite, não há espaço para alívio ou triunfalismo. O perigo que representa a extrema-direita não desapareceu, muito pelo contrário”. As palavras do primeiro-ministro socialista Manuel Valls podiam muito bem resumir a noite eleitoral francesa: na segunda volta, a Frente Nacional de Marine Le Pen não conseguiu o controlo de qualquer região, mas teve um resultado histórico e confirmou a tendência ascendente que se tem registado nos últimos anos. Além disso, deixou um aviso sério para o próximo e mais importante combate eleitoral – as eleições presidenciais francesas, em maio de 2017.

Os Republicanos, de Nicolas Sarkozy, acabaram por ser os grandes vencedores nesta segunda volta das eleições regionais francesas. Tiveram 40,24% dos votos e ganharam em sete das 13 regiões. A cereja no topo do bolo foi a conquista de Île-de-France – que abarca também Paris. Uma região que não fugia aos socialistas há 17 anos. Mas Sarkozy poderá ter, muito em breve, a sua cabeça a prémio: a estratégia que escolheu para estas eleições – levar para a campanha temas queridos à Frente Nacional e não abdicar dos seus candidatos a favor do PS, mesmo em regiões em que a extrema-direita tinha vantagem – pode custar-lhe a liderança do partido.

A estratégia dos candidatos socialistas para esta segunda volta foi a possível: ou abdicaram a favor dos Republicanos ou uniram forças com outros partidos da esquerda. O resultado, não sendo (longe disso) o desejável, foi também ele o possível: com 28,86% dos votos, conseguiram travar as pretensões de Marine Le Pen e garantir o controlo de cinco das 13 regiões francesas. “Um sucesso sem alegria”, como resumiu primeiro-secretário do PS, Jean-Christophe Cambadélis.

Também Marine Le Pen acabou por não sorrir no final. Depois de conhecidos os resultados, a líder da Frente Nacional reconheceu a derrota, mas não baixou os braços: denunciou “o sistema” e “as campanhas de calúnia e de difamação decididas nos palácios dourados da República” montadas contra os dirigentes da Frente Nacional, os últimos patriotas de França, como se quer afirmar a figura política do momento.

Do momento porquê, se não conseguiu repetir aquilo que tinha feito na primeira volta? Porque conseguiu um resultado histórico para a extrema-direita, com 27,10% dos votos e a confiança de cerca 6,5 milhões de franceses. Tem por esta altura a dimensão nacional do Partido Socialista.

Foi também uma noite marcada pelo aumento da afluência às urnas: há uma semana, na primeira volta das eleições, 50% dos eleitores saíram de casa para votar. Na segunda volta, o número cresceu para os 59% de votantes, em parte mobilizados pela ameaça que representava uma eventual vitória da extrema-direita. O aumento do número de votantes pode explicar a perda de força da Frente Nacional.

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E agora?

O que significam estes resultados para o futuro político francês dos três grandes protagonistas – François Hollande, Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen?

Ao PS, como escreve o Libération, depois de um resultado francamente desanimador, resta a Hollande esperar. “Dar tempo ao tempo”, resume a publicação francesa. Para o socialista, é possível alimentar esperanças para 2017 se conseguir, até lá, cavalgar a recente onda de popularidade que começou a crescer com a resposta firme que foi dada depois dos atentados em Paris e que conheceu nova vaga com os resultados alcançados na Cimeira do Clima. Mas não será um caminho fácil.

O mesmo se pode dizer de Nicolas Sarkozy. É certo que os Republicanos controlam agora um território com mais de 40 milhões de habitantes, mas a estratégia seguida pelo ex-Presidente francês (aproximar-se à linha de discurso da Frente Nacional) pode custar-lhe a liderança do partido. Como escreve Paulo de Almeida Sande, aqui no Observador, centristas, conservadores, gaulistas e liberais convivem num caldo instável que Sarkozy e os seus sarkozistas controlam com dificuldade.

Para a extrema-direita, por sua vez, fica a sensação de que se tornaram um “partido de primeira volta”, como escreve, mais uma vez, o Libération. Na hora da verdade, quando o eleitorado é chamado a decidir, a ameaça de uma França radicalizada acaba por pesar. Mas o aviso está dado e não pode ser ignorado. Daqui em diante, a resposta do Partido Socialista e dos Republicanos vai ser decisiva para se perceber até que ponto pode crescer (ainda mais) a Frente Nacional.