É um fenómeno de vendas. Je Tape La Manche: Ma Vie Dans la Rue tornou-se um dos sucessos editoriais do ano em França. O seu autor é um sem-abrigo, Jean-Marie Roughol, de 47 anos. O livro são as memórias deste homem que espera que as suas palavras mudem a forma como as pessoas olham para as pessoas que vivem na rua. E já vendeu quase 50 mil exemplares — o que lhe daria dinheiro mais do que suficiente para deixar de ser sem-abrigo. Mas…

… mas o problema é que Roughol ainda não recebeu royalties do livro. Nem vai receber até outubro do próximo ano. Por isso, Jean-Marie conta continuar a viver ao relento. Até lá, vai-se habituando à ideia de ser reconhecido na rua e falando com os seus fãs no Facebook, através de um smartphone que conseguiu comprar com um adiantamento que a editora lhe deu.

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Abandonado pela mãe

A vida deste homem é semelhante a tantos outros casos de pessoas sem-abrigo. Jean-Marie Roughol foi abandonado pela mãe e criado por um pai alcoólico. Começou a trabalhar cedo para poder sustentar-se. Mas passou a viver nas ruas depois de ser despedido de um restaurante onde servia à mesa. Tinha pouco mais de 20 anos.

Jean-Marie escolheu sempre locais estratégicos para mendigar. Os seus locais preferidos ficam perto dos Campos Elísios e da principal loja da Chanel. “Convém ficarmos em sítios onde que passem muitas pessoas”, explicou à agência AFP.

Foi numa dessas ruas que Jean-Marie Roughol se cruzou com o presidente do conselho constitucional (uma espécie de Tribunal Constitucional francês), Jean-Louis Debré. O sem-abrigo disse-lhe que guardaria a sua bicicleta enquanto o presidente fazia as suas compras descansado. A partir daí, Roughol e Debré passaram a falar regularmente na rua. Um dia, enquanto estavam sentados num banco, ouviram alguém dizer: “Olha ali, é o Debré a falar com um vagabundo!”.

Jean-Louis Debré fez, então, uma proposta a Roughol. “Que mostrasse a essa gente pretensiosa e ignorante o que era ser sem-abrigo. Que escrevesse a minha história”, contou Jean-Marie à AFP. Este episódio aconteceu há dois anos. Apesar de ter receio de não conseguir escrever nada de interessante, Roughol começou a anotar aquilo de que se recordava em livros escolares que alguém deitara fora. Debré ajudou-o com a edição e a publicação.

Começa uma nova vida

O resultado foi um livro que, apesar da história, é bem-humorado. Aliás, é esse o seu estilo: Roughol está habituado a usar o humor. Quando estava a pedir, costumava mostrar um pequeno cartão: “Uma moeda para ir comer ao Joël Robuchon e dormir no Hotel Plaza”.

Hoje, Roughol dá entrevistas e fala com pessoas que o reconhecem na rua. “Um homem do Tennessee que comprou 15 cópias do meu livro levou-me a um restaurante. E uma pessoa veio da Suíça trazer-me chocolates“, revela. Atualiza frequentemente o seu Facebook e fala com os fãs.

O irmão de Roughol, que não sabia nada sobre a sua vida nas ruas, ouviu a história na televisão e entrou em contacto com ele. “Agora tenho sobrinhas e sobrinhos que me querem conhecer. A mim, que estive sempre sozinho”, disse Roughol à AFP.

Quando receber o dinheiro da venda dos livros, em outubro do próximo ano, Jean-Marie espera poder ter um apartamento e pensa realizar um sonho: abrir uma creperie. Mas este sem-abrigo não vai pôr de parte os livros. Tenciona comprar um computador para poder continuar a escrever.