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Há quem seja desmancha-prazeres. E tem prazer em sê-lo. E os desmancha-prazeres não são só de hoje.

“Uiiiii, o ‘Hamlet’? Não vás ver, não senhor, que aquilo é sangue até mais não e eles morrem todos na peça…”, alertam-nos (os desmancha-prazeres, quem mais?) há décadas. Mas também os há que são nossos contemporâneos. Escutou-se-lhes mais recentemente, não no teatro mas na TV: “O John Snow finou-se no ‘Game of Trones’? Naaa, lá agora!?…” E fazem-no igualmente nos livros que leram e desaconselham depois de nos desvendar a trama toda. E tramam-nos no cinema, também — e no que mais houver onde tramar.

São profissionais do spoiler. Mas anglicismo à parte, aquilo que realmente são é uns chatos de primeira água.

Mas nem o mais desmancha-prazeres dos desmancha-prazeres saberia à partida (e como os há no futebol) que o Braga-Sporting desta noite, uma noite de enregelar a alma na “Pedreira”, teria prolongamento, golos e mais golos, sete ao todo, que só se resolveria no finalzinho ou, acima de tudo, que mesmo tendo seguido o Braga para os quartos-de-final da Taça de Portugal e o Sporting não, venceram os dois: foi um jogão.

Em maio, no estádio do Jamor em Oeiras, o Braga pôs uma mão no caneco da Taça. Fredy Montero, em cima do gongo, tirou-a de lá e Rui Patrício, nos penáltis, deitou as luvas às duas asas da Taça para não mais a deixar ir. Foi um jogo que se decidiu onde ninguém (nem adeptos, nem jogadores ou treinadores) quer que se decida. Mas não foi um jogo com tantos golos como o de hoje. Nem tão bem jogado como o de hoje, que teve bola no pé (enquanto as pernas deixaram, claro; depois foi bola no ar e tudo ao molho e fé em Deus), bola cá, bola lá, melhor os ataques que as defesas, remates em barda e a rendondinha a não ter do que se queixar de tão bem tratada que foi. Hoje, o Braga vingou-se. Mas vamos primeiros aos golos.

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O Sporting marcou primeiro. João Pereira fez um lançamento à inglesa – chamava-se-lhe assim, pois só na Premier League é que os laterais, do Gary Neville no Manchester United ao John Arne Riise no Liverpool, o faziam. Mas hoje chame-se-lhes também um lançamento à Jesus. É que se Maxi Pereira o fazia no Benfica, João Pereira também o faz. Os laterais de Jesus fazem-no. Ponto. Lançam a bola longa ao primeiro poste, um matulão desvia e alguém, na molhada, faz o resto – e entenda-se o “resto” como golo. Aqui não houve matulão nem molhada. Goiano é defesa do Braga, mas não só não cortou, como ainda “assistiu” Ruiz. O corte foi para trás e para a entrada da área, o costa-riquenho encheu a canhota e fez o primeiro.

O Sporting era mandão. Pressionava alto, logo à saída da defesa do Braga. Mas William perdeu a bola onde não devia (foi derrubado por Hassan, mas o passe errou-o antes do derrube), Rafa lançou-se numa correria doida, driblou todos e a própria sombra, assistiu Wilson Eduardo e o ex-Sporting (seria outro miúdo saído de Alcochete a tramar a casa-mãe) empatou.

O melhor? O melhor é que a segunda parte viria logo depois e seria melhor ainda.

O Braga virou o placard do avesso aos 54′. Que “pancada” de Alan! E de primeira. Marcelo Goiano teve espaço, demasiado espaço (deu-o João Pereira, na direita) para cruzar e fê-lo milimetricamente para as costas de Ewerton. Alan estava lá, pegou na bola de primeira e rematou para onde Patrício não chegaria nem com asas: na gaveta.

O Sporting ficou-se? Claro que não. Na Taça é “mata-mata” e ninguém quer morrer na praia. E o Sporting voltou aos vivos aos 57′. Eis o empate, descrito tintin por tintin: Ruiz ia cruzar de canhota e para a área. Não cruzou — e ainda bem que não, dirão os Sportinguistas. É que Aquilani estava ao lado do costa-riquenho, foi ele a cruzar, e fê-lo com conta, peso e medida. O resto foi Slimani, nas alturas e a pular mais que Ricardo Ferreira, a desviar. O argelino cabeceia com mais força do que muitos futebolistas chutam com os pés.

Mas o Sporting faria melhor ainda e viraria o resultado a seu favor. Foi aos 67′. É de William o golo da reviravolta. E não é comum vê-lo onde o vimos, quanto mais a rematar. “Sir” William foi galgando metros, meio descaído para a esquerda, tabelou com Ruiz (e a meias com a perna de Ricardo Ferreira, diga-se) e quando recebeu o passe, rematou. Estava à entrada da área. E rematou dali com efeito e rasteiro. Matheus bem que se esticou — e ele é grandalhão –, mas não chegou lá.

Acabou? Homessa! Golão de Marcelo Goiano quase no fim, aos 83′. O Braga chegou à área do Sporting uma vez, duas, mas sempre sem perigo de maior. À terceira, Alan cruzou a bola de trivela para a área, Rafa segurou-a na bota de primeira e devolveu-se em seguida a Goiano. Goiano é lateral esquerdo, mas destro. E estava fora da área. Ninguém acreditou que chutasse, mas ele sim, foi driblando um sportinguista a seguir ao outro e chutou. Que “bilhete” que foi, mesmo no canto superior direito da baliza de Patrício, que mesmo esticando-se todo não chegou.

Que ninguém arrede pé da “Pedreira”: vai ser até ao fim! E foi.

O golo da vitória foi de Rui Fonte. Também um nado e criado em Alcochete, na Academia do Sporting. Baiano cruzou desde a lateral direita para a área, Paulo Oliveira deu um passo à frente, Fonte deu um atrás e a bola foi cair rendondinha na cabeça do segundo. Quase nem saltou e cabeceou para o 4-3, entre as pernas de Patrício. O Sporting tinha pouco tempo (e poucas pernas) para responder. Faltavam nove minutos e mais uns pozinhos até final. Não chegou.

O segredo do resultado? Jesus de um lado. Fonseca do outro. Ser treinador não é fácil. Quando se acerta, é-se um Guardiola. Quando não, é-se um Zé-Ninguém. Hoje Jesus falhou mais do que Fonseca. E falhou aos 60′. Jesus falhou ao tirar do jogo João Mário ao invés de o retirar só de médio-ala e o recolocar no meio – com Ruiz a arfar e Aquilani sem ritmo para tantos minutos intensos, perdeu ali o meio-campo e provavelmente o jogo. Mas errou Jesus porque quis vencer, colocando Gelson. Só que nem Gelson, primeiro, nem Matheus, depois, conseguiram ver-se verdadeiramente no jogo. Porquê?

É aqui que entra Paulo Fonseca na história. O treinador do Braga fez as três substituições e todas no tridente de ataque. Entraram Nikola Stojiljkovic, Rui Fonte e Pedro Santos na vez de Hassan, Wilson Eduardo e Alan. E entraram frescos que nem uma alface para aproveitar o cansaço da defesa do Sporting, murcha. Com a defesa cansada, os médios (e no prolongamento era só William e Adrien) apoiavam-na como podiam. E não havendo médios como João Mário, que criassem jogo, não havia contra-ataque que chegasse a Gelson, Matheus e menos ainda a Slimani. Foi aí que o Sporting perdeu o jogo e o Braga ganhou.

No final, ganhámos todos. O espetáculo a isso permitiu.