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Depois de saírem os resultados oficiais das eleições parlamentares venezuelanas, que deram a maioria no Parlamento à oposição pela primeira vez em 16 anos, o presidente Nicólas Maduro até reconheceu a derrota: “Nós estamos aqui, com moral e ética, para reconhecer o resultado adverso, aceitá-los e dizer à nossa Venezuela que a Constituição e a democracia triunfaram”. Mas rapidamente passou ao ataque, responsabilizando os líderes empresariais e outros opositores de sabotarem a economia levando à derrota eleitoral, acrescentando ainda que “na Venezuela não triunfou a oposição”, triunfou “um plano contrarrevolucionário para desmantelar o Estado social-democrático de justiça e de direitos”.

Depois de tudo isto, o sucessor de Hugo Chávez ainda deixou o aviso: “Perdemos uma batalha hoje, mas a luta para construir o socialismo só agora começou”. E talvez o aviso fosse mesmo para levar a sério. E quem suspeitava que Maduro não iria deixar a coligação da oposição, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), saborear a vitória a seu bel-prazer, podia ter razão.

Isto porque, apesar da MUD ter conquistado a maioria do parlamento, a resposta de Maduro passa por criar uma espécie Assembleia paralela e com poderes similares. Como? Formando um inédito Parlamento Comunitário:

Eu vou dar todo o poder ao Parlamento Comunitário e esse Parlamento vai ser uma instância legislativa do povo desde a base”, afirmou Nicólas Maduro na passada terça-feira.

A ala chavista já começou a reagir a este anúncio e, como dá conta o El Pais, se alguns minimizam e retiram importância a esta declaração, outros já apelaram a uma investigação sobre possíveis irregularidades nas próprias eleições por parte da oposição.

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Sobre estas alegações de irregularidades no sufrágio, o líder da campanha oficial e também do município de Libertador, a oeste da capital Caracas, Jorge Rodríguez, anunciou que pediu à Procuradoria para investigar “as artimanhas sujas por parte da oposição”. Em concreto, alega-se que no Estado do Amazonas, no sul do país, e governado pela oposição, pagava-se entre 10 a 25 dólares por voto o que, na opinião de Rodríguez, constitui “uma violação da Constituição, das leis eleitorais e uma tentativa de vulnerabilizar o sistema eleitoral”.

A nova polémica tem ganho destaque na imprensa venezuelana. E o jornalista Nelson Bocaranda, relata o mesmo jornal espanhol, chegou a sugerir esta semana que o governo vai tentar impugnar a eleição de 26 deputados com base nas suspeitas descritas. Ou seja, segundo as opiniões semelhantes às de Bocaranda, tudo isto faz parte de um objetivo maior de impedir a nova maioria qualificada obtida pela MUD. No fundo, a nova composição do parlamento, que irá ser formado no dia 5 de janeiro, pode ser um impedimento para a consolidação do socialismo e do projeto revolucionário iniciado por Chávez.

Como avisou o presidente da Venezuela “a luta para construir o socialismo só agora começou”. Por isso, suspeita-se que esta situação, tal como a implementação do tal Parlamento Comunitário, façam parte de uma estratégia do governo para não deixar cair o antigo sonho de Hugo Chávez.

A criação do novo órgão ainda está envolta em algumas dúvidas sobre o seu modo funcionamento. O deputado do partido do governo, Ricardo Molina, explicou no entanto à televisão Globovisión que o Parlamento Comunitário vai querer apenas “que o poder popular tenha uma base legal que lhe permita organizar-se para definir o seu futuro, com uma delimitação de competências, definidas por lei”.

Isto é, o poder popular foi mais um conceito fundado pelo chavismo, que não consta da Constituição, mas é regulado por lei e possui um ministério. Define-se pelo “exercício pleno da soberania por parte do povo” e, portanto, o Parlamento Comunitário passaria a ser o órgão que o representa.

Sobre as novas movimentações do executivo, a oposição não dedicou ainda muita importância. Apesar disso o secretário executivo da MUD, Jesús Torrealba, invocou a Constituição para chamar a atenção para o facto de nela nunca se mencionar a palavra comunitária: “O único Parlamento que existe neste país é a Assembleia Nacional”, afirmou antes de ameaçar com o funcionamento da Assembleia que tem uma nova maioria qualificada de 112 deputados da oposição.