Parecia estar tudo normal. Não nos conformes, nem pensar, mas no que já era habitual esta época. De diferente apenas o cabelo, ainda grisalho da idade e recém-rapado. O gaffer, como os ingleses apelidam os treinadores, parecia estar relaxado, a comportar-se como sempre o fizera esta época: cara séria, com o chip do trabalho ligado. Quando o treino acabou não era tempo de ir para casa, era altura de treinador, jogadores e staff técnico se juntarem num almoço de Natal do clube ali em Cobham, no centro de estágio que o Chelsea tem a uns 35 quilómetros de Londres. Passava a ser tempo de sorrisos fingidos, falsas simpatias e toda a gente aparentar que as coisas estavam bem só por estarem à volta de um peru natalício. Mas não estavam.

O almoço comeu-se rápido. Os jogadores despacharam a refeição até que, um a um, começaram a ir para casa de barriga cheia. Mas houve um, atrasado ou distraído, que ficou mais um pouco em Cobham e viu dois membros da administração do Chelsea a chegarem, de carro, ao complexo. Achou estranho e ter-se-á agarrado ao telemóvel, chamadas, mensagens e WhatsApp, a espalhar a boa nova para vários jogadores e a má para o treinador — tudo indicava que aquilo não era bom sinal para José Mourinho. Eram cerca das 14h e, mais ou menos nessa altura, o português enfiava-se num gabinete com Bruce Buck e Eugene Tenenbaum, dois dos vários braços direitos de Roman Abramovich.

Foram eles, num ápice, a dizerem a Mourinho o que o Chelsea queria dele: que se fosse embora do clube onde já tinha estado e voltado. Disseram-no em menos de 10 minutos, conta o Daily Telegraph, jornal que teria uma mosca dentro dessa sala e do centro de treinos para esta sexta-feira conseguir contar a história do dia em que o português foi despedido pela segunda vez dos blues. Mourinho ainda ficaria mais quase duas horas no complexo, como uma daquelas cenas de filme em que um demitido funcionário empacota os pertences numa caixa de cartão para não mais voltar ao local de trabalho. Só que diferente, porque o português saiu de Cobham a ser conduzido num Jaguar e, ao que parece, nem foi apanhado de surpresa.

A direção do Chelsea já andaria, há semanas, a ter reuniões umas atrás das outras com advogados e, sobretudo, Jorge Mendes, o agente dos agentes que representa José Mourinho e assegurou que ele continuará a ser especial também pelos quase 350 mil euros que continuará a receber do Chelsea, por semana, até arranjar outro clube. Surpresa também não foi para os jogadores, de quem os rumores dizem que deixaram de dar tudo e insistiam em fazer mal nos jogos o que faziam bem nos treinos. Talvez por isso, na segunda-feira, Mourinho lhes tenha falado em “traição” antes e ao intervalo do jogo com o Leicester, em que a equipa foi derrotada (2-1) pela surpresa que lidera a Premier League.

Também o disse à frente dos jornalistas. Enviou recados em forma de bocas aos “jogadores do ano” e aos “campeões do ano” para especificar subliminarmente homens como Eden Hazard, o belga MVP (most valuable player) da última Premier League que marcou 28 golos na época passada e nesta não leva nenhum, e Cèsc Fabregas, o médio que já ganhou tudo com a Espanha e que tem andado pachorrento em campo.

Chelsea's Portuguese coach Jose Mourinho kicks a ball during a training session at Olimpiskiy Stadium in Kiev on October 19, 2015, a day before their Champion's League Group G football match against FC Dinamo. AFP PHOTO / SERGEI SUPINSKY (Photo credit should read SERGEI SUPINSKY/AFP/Getty Images)

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E o que agora se escrever por Inglaterra com base no que alguém-que-ninguém-sabe-quem contou é que isto é tudo resultado de uma bola de neve. Os problemas já viriam desde a pré-temporada, em que nem o facto de Mourinho ter dado uma semana extra de férias à equipa impediu que Diego Costa aparecesse com peso a mais e forma física a menos ou que pelo menos 10 jogadores quisessem abandonar o clube. Entre eles Hazard, Willian e Oscar, três craques em quem os blues muito dependem para serem criativos em campo. Mourinho não deixou e também não viu chegar ao Chelsea os reforços que pretendia. Enquanto o treinador se chateava os jogadores amuavam por não gostarem de decisões que tomava nas digressões de pré-época.

Alguns até alegaram estarem ainda sob o efeito de jet lag quando, em agosto, perderam a Supertaça de Inglaterra para o Arsenal (1-0), ou chatearam-se após verem Mourinho tratar mal Eva Carneiro, a médica de quem todos gostavam e que José não gostou de ver acudir um futebolista que estava a queixar-se no relvado, a meio de um jogo do campeonato. O treinador de Portugal ganhou, a médica de Gibraltar saiu do clube e todos ficaram a perder. O ambiente na equipa foi azedando, as derrotas aparecendo (hoje são 11, nove delas na Premier League) e Mourinho começou a desconfiar que alguém na equipa estava a bater com a língua nos dentes. O treinador achou que um jogador, por bem ou por mal, estava a contar a empresários, agentes ou amigos o que via a acontecer nos treinos e lia nos jornais coisas que tinham acontecido nos treinos.

A ideia de bufos, traições e conspirações para o tirarem do clube aumentaram quando, escreve o Daily Telegraph, alguém do FC Porto lhe terá dito que sabiam que Mourinho ia deixar Cèsc Fabregas no banco, no jogo da Liga dos Campeões contra os dragões. A partida até correu bem porque foi a última vitória (2-0) do português pelo Chelsea, mas a desconfiança já era tanta que o Mourinho pensava os treinos de forma a que nem os jogadores que treinava percebessem como iriam jogar no fim de semana seguinte. A bola de neve agigantava-se até chegar à forma das “discordância palpáveis” entre o português e a equipa que obrigaram o clube a abdicar o primeiro para salvar o segundo. O português foi para casa, em Londres, com um cartaz com uma fotografia sua e uma caneca azul, do Chelsea, na qual estava escrito “Special One” — cortesias do almoço de Natal –, onde ficará até que “outro clube inglês” apareça.

Foi isso que disse em fevereiro, quando falou da hipótese de, algum dia, Roman Abramovich lhe voltar a informar que era tempo de se ir embora.