O cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, defendeu hoje a “enorme urgência” de as cidades europeias e de todo o mundo praticarem o interculturalismo, afirmando que Portugal e Lisboa, em particular, podem ser um exemplo dessa postura “absolutamente humanista”.

“Foi costume falar-se e praticar-se algo que à primeira vista soa bem, mas que no concreto nem sempre dá bons resultados, refiro-me ao multiculturalismo”, disse Manuel Clemente, durante uma intervenção numa vigília pela paz, em Lisboa, que reuniu líderes de várias confissões religiosas.

Para o cardeal-patriarca, e perante os desafios da atual crise migratória, o princípio da multiculturalidade já não é suficiente.

“Numa grande cidade europeia […] cada comunidade estabelece-se sobre si própria, preservando a sua cultura. É melhor do que nada. Mas não chega. Porque isso muitas vezes descai para autênticos guetos socioculturais e religiosos”, frisou.

“Hoje precisamos de […] interculturalismo, porque isso já estabelece uma relação, não fechados, cada um sobre si próprios, mas aproximados por aquilo que cada um traz. Com certeza conservando aquilo que lhe é particular, mas encontrando e procurando espaços comuns de diálogo, de conhecimento mútuo, e onde nos possamos todos encontrar mais à frente”, referiu, perante dezenas de pessoas que assistiam à cerimónia nos Paços do Concelho.

Segundo o cardeal-patriarca, o interculturalismo é atualmente de “uma enorme urgência” e Portugal e Lisboa estão “fadados para desempenhar essa função e encontrar esse percurso”.

“Que Lisboa seja para o país, com certeza, mas para a Europa e até para o mundo um laboratório de uma outra inter-religiosidade, absolutamente humanista, onde nós caibamos todos”, concluiu.

Esta vigília organizada pela Cáritas, em parceria com o patriarcado e a Câmara Municipal, acontece poucos dias depois da chegada a Portugal do primeiro grupo de refugiados ao abrigo do programa da União Europeia.

O presidente da autarquia, Fernando Medina, destacou que a capital quer afirmar-se como um espaço de acolhimento e de boas-vindas a todos os refugiados.

“A forma como o populismo grassa na Europa, numa matéria como os refugiados, em que se estão a transformar as principais vítimas das situações de guerra e de conflito nos criminosos e responsáveis por essas guerras e desses conflitos é verdadeiramente intolerável para alguém que tenha na dignidade da pessoa humana um elemento central da sua conduta e da sua existência”, referiu.

“Não vacilaremos com as críticas, não vacilaremos ao populismo, […] porque só assim nós estaremos à altura do passado, da dignidade da Europa, mas fundamentalmente da cidade de Lisboa”, concluiu o autarca.

Na cerimónia estiveram igualmente presentes representantes da comunidade Islâmica, da comunidade Bahá’í, da comunidade Hindu, da União Budista, da Igreja Evangélica Metodista e da Igreja Ortodoxa Russa.

A iniciativa foi também marcada por um momento de silêncio em memória das vítimas da crise de refugiados e pela cerimónia do “Círio da Luz da Paz”, aceso pela família Alqais, oriunda do Iraque, que vive em Lisboa há sete anos.

Em declarações à Lusa, o patriarca da família, Ayad Mohamoud Alqais, de 55 anos, contou que chegaram a Portugal em setembro de 2008, depois de terem fugido do Iraque e de terem passado pela Síria, na altura sem guerra.

Hoje vive em Lisboa com a sua mulher e mais quatro filhos, um rapaz e três raparigas, uma delas já nascida em Portugal.

Quando questionado sobre a sua vida em Portugal, e num português ainda ‘atrapalhado’, Ayad destacou a tranquilidade do país e afirmou ter “muitos amigos, muitos vizinhos”, mas também admitiu que os últimos anos, marcados pela crise no país, afetaram a sua família.

Ayad Mohamoud Alqais não esquece o Iraque, mas já tem Portugal no coração porque “é nesta terra que come, é a água desta terra que bebe”.