No Portuguese Settlement, a três quilómetros do centro de Malaca, vivem cerca de mil descendentes de portugueses e nesta quadra, o bairro recebe “entre 800 a 100 pessoas por dia”, disse à Lusa o chefe da comunidade, Raymond Lopez.

Os dias que antecedem o Natal são de azáfama no bairro de 28 hectares, com cada família a investir muito tempo e dinheiro nas decorações. Para além das iluminações, nas pequenas ruas há casas onde as luzes vestem árvores e pilares, num cenário onde o presépio é o destaque, embora alguns moradores optem por fazer a diferença com animais ou anjos gigantes, preparados para oferecer aos turistas a melhor fotografia.

As celebrações começaram no domingo, mas nos dias anteriores já havia trânsito para entrar no bairro à noite, num país de maioria muçulmana que acorda cedo, tornando necessário pagar um reforço policial durante esta quadra para gerir o trânsito.

O bairro parece nunca adormecer, lembrando as festas de verão portuguesas, com crianças a andar de bicicleta e sem pressa de ir para a cama e grupos de amigos a comer e a beber nos restaurantes ao ar livre em frente ao mar, onde durante todo o ano se promove o “marisco português”. No centro do bairro, há uma árvore de Natal gigante junto ao palco e ao sino recentemente oferecido pelo duque de Bragança.

Dias antes do Natal, prepara-se uma festa para as crianças, com espetáculos e ofertas de brinquedos, gelados e aperitivos, sendo também oferecido um “almoço ou jantar” aos idosos, segundo Raymond Lopez.

Na noite de consoada, a tradição manda ir à missa antes do jantar e depois “visitar os familiares”, às vezes “até às duas ou três da manhã”, relata Raymond Lopez, explicando que “quem não for à igreja não pode visitar” a família, porque na celebração religiosa “recebem uma espécie de bênção”.

“O Portuguese Settlement era muito pacífico e as pessoas adoram-no dessa forma”, mas hoje, depois da missa, “uma pessoa não está mais segura”, porque há pessoas que “não te respeitam” e trazem ‘spray’ para atacar os outros no meio da multidão, lamenta.

Há dias que Sara Frederica Santa Maria, que protege a tradição dando aulas do crioulo português e de danças tradicionais, anda atarefada a fazer doces de Natal, como pequenos bolos de ananás, tal como grande parte da comunidade. No jantar da consoada, Sara recebe os filhos que estudam fora e serve peru e vinho, “claro”, para brindar com “saodi”.

Andrew De Mello, cantor pop e dono de um bar cheio de símbolos e bandeiras de um país que nunca visitou, realça que “os impostos para o álcool são muito elevados”, mas mesmo assim o negócio vai bem.

De acordo com o irmão e um dos responsáveis do Portuguese Settlement Heritage Museum (Museu da Herança do Povoado Português, em inglês), Christopher De Mello, o dia 25 é para ir de casa em casa e beber “cerveja, uísque e vinho” até ficar “tokadu”. Quase todas as casas estão abertas no dia de Natal mesmo para desconhecidos que visitem o bairro, sendo-lhes oferecida comida e bebida.

Christopher De Mello conta que até alguns muçulmanos vêm ao bairro e aproveitam para beber longe das autoridades religiosas e policiais, num país que não é governado de acordo com a Sharia (lei islâmica).

“A maioria dos muçulmanos em Malaca têm uma mente aberta e são muito bons bebedores, mas eles têm de se esconder”, realça, frisando que muitos malaios “dizem que amam o povo português” porque é “muito feliz”.

O malaio, que prefere ser assemelhado aos portugueses, acredita que a alegria característica do bairro vem “talvez de Portugal”, porque “dizem que as pessoas em Portugal adoram beber, divertir-se e cantar”.

As semelhanças estendem-se à missa, com os fiéis a beijarem a imagem de Jesus, e à solidariedade, já que muitos “dão comida aos orfanatos e aos pobres”, por vezes, através da igreja ou por iniciativa própria, de acordo com o pároco Michael Mannayagam.

Nesta época, os mais novos fazem grupos e “vão de casa em casa cantar canções” de Natal. Também os grupos de música e de dança tradicionais portuguesas do bairro têm uma quadra atarefada com deslocações a vários pontos do país.

Nesta comunidade maioritariamente católica e onde a promoção da cultura é vista como a defesa da identidade e da sua existência enquanto grupo, o Natal é a festa mais proeminente, embora o Carnaval e os santos populares sejam igualmente motivos de orgulho.

A lealdade aos costumes portugueses ficou desde os tempos em que o colonizador Afonso de Albuquerque aqui chegou, há mais de 500 anos, promovendo uma estratégia de miscigenação, embora a maioria dos habitantes nunca tenha estado em terras lusas.