Desengane-se quem pensa que o fato de fazer desporto, só por si, dá garantias de vida longa e saudável. Embora a prática desportiva ajude a prevenir inúmeros problemas de saúde, algumas pessoas esquecem-se que há cautelas a ter em conta quando se decide fazer desporto e a vigilância médica é uma delas. Tanto mais que a morte súbita, embora rara, acontece. Portugal não dispõe de estatísticas que permitam perceber a dimensão do problema, mas em Itália, por exemplo, estima-se que a morte súbita afete anualmente um a dois atletas em cada 100 mil.

Também por ser pouco frequente, quando a morte súbita atinge atletas de alta competição torna-se um caso mediático. De tal forma que ainda hoje, passados mais de dez anos, a morte em campo de Miklos Fehér, num desafio em que vestia a camisola do Benfica frente ao Vitória de Guimarães, está bem presente na memória de muitos. Para João Freitas, cardiologista do Instituto CUF Porto, tal acontece por uma razão muito simples: “As pessoas em geral tendem a assumir que os atletas de competição são deuses e não humanos. O que se passa é que eles são o expoente da humanidade em termos de performance física, mas podem sofrer das mesmas patologias que os não atletas.”

A morte súbita no desporto atinge maioritariamente atletas acima dos 35 anos de idade, altura em que “a prevalência da doença coronária aterosclerótica começa a ser mais prevalente” explica o médico. Esta doença, que corresponde à formação de placas de gordura nas paredes das artérias do coração, pode desencadear o enfarte agudo do miocárdio e é a responsável por cerca de 80% dos casos de morte súbita naquela faixa etária, sobretudo nos casos em que há fatores de risco como o tabagismo, diabetes, hipertensão e dislipidemia.

Segundo João Freitas, abaixo dos 35 anos de idade a fatalidade “é muito mais rara, muitas vezes imprevisível e geralmente acontece devido a uma cardiopatia genética, como a cardiomiopatia hipertrófica ou a displasia arritmogénica do ventrículo direito”. Nesta patologia há um espessamento das paredes musculares do coração, dificultando a ejeção do sangue para o corpo, o que pode ser problemático durante atividade física, altura em que há um aumento do trabalho cardíaco.

Prevenir a morte súbita

Tendo em conta que estas situações “são de difícil diagnóstico prévio”, o especialista constata que “frequentemente os atletas não revelam sintomas até ao primeiro evento, que é a morte súbita”. Ainda assim, há formas de a tentar prevenir. João Freitas recomenda a realização de “exames médicos por peritos em Medicina Desportiva”, chamando a atenção para o eletrocardiograma que “deve ser sempre feito e interpretado por peritos com experiência neste tipo de exames em atletas”. Além disso, aconselha a elaboração de “uma boa história clínica, nomeadamente na pesquisa de dor torácica relacionada com o esforço, desmaios e palpitações súbitas com ou sem esforço”. Deve haver ainda “atenção redobrada em caso de história de morte súbita precoce em familiares diretos”.

Questionado sobre o seguimento clínico dado aos desportistas, o médico esclarece que, no nosso país, “os atletas de alta competição são obrigados a frequentar os serviços de Medicina Desportiva”, o que poderá significar que “há cobertura suficiente para se escrutinar os atletas com potencial para morte súbita”. Também alguns clubes fornecem “apoio adequado”, admite.

Desfibrilhadores precisam-se

De acordo com João Freitas, a morte súbita é mais frequente no futebol e basquetebol, mas não há certezas sobre a relação destas práticas desportivas com o evento fatal. “Provavelmente é assim por serem os desportos onde existem mais praticantes”, contextualiza o especialista.

No caso do futebol, dados revelados pela FIFA mostram que entre 2007 e 2012 morreram 84 atletas no decurso de jogos, com uma média de idades de 24,9 anos. Na altura em que o organismo máximo do futebol divulgou estes números alertou também para o fato de apenas em 55% dos jogos, a nível mundial, existir um desfibrilhador disponível. Situação que se torna ainda mais preocupante se considerarmos que apenas em 28% dos centros de treino existe este equipamento que permite salvar vidas.

O desfibrilhador automático é, portanto, outra das vias possíveis para evitar a morte súbita desportiva, razão por que João Freitas frisa a importância da sua utilização “por pessoal de saúde e público em geral”. O médico vai mais longe e considera mesmo que o curso de “suporte básico de vida devia ser ensinado na escola secundária”, como forma de ajudar a prevenir estas situações.

Sabendo que a prática de desporto pode ser fatal, é possível que as dúvidas surjam na mente dos atletas. Afinal, deve ou não fazer-se exercício físico? João Freitas desdramatiza, lembrando que “não fazer desporto ainda aumenta mais o risco de morte súbita”. Por isso, para que a prática desportiva seja o mais segura possível, há que seguir as recomendações e procurar aconselhamento médico especializado.

Recomendações para desportistas amadores

E quanto aos restantes atletas? Que proteções têm os que praticam desporto por iniciativa própria ou integrados em ginásios? “Todos os indivíduos que pretendam iniciar a prática de exercício físico devem fazer um exame médico desportivo com um especialista”, responde o cardiologista, salientando que “todos os humanos podem ter morte súbita, sejam atletas ou não”. Aliás, “os não atletas têm até um risco superior”. Isto porque “o sedentarismo agrava os fatores de risco que promovem a aterosclerose e consequentemente a morte súbita por doença coronária numa faixa etária mais elevada”, justifica o médico que integra uma equipa composta por diversos especialistas capacitados para fazer a triagem dos atletas em risco nas Unidades CUF Porto.

A necessidade de fazer uma avaliação do estado de saúde antes de começar a fazer exercício físico é muito importante, tanto mais que, na maioria dos casos, os atletas que morrem em contexto de prática desportiva – seja de lazer ou competição – aparentam estar em boas condições de saúde. Nas situações em que o risco de morte súbita é detetado, justifica-se a realização de métodos de investigação adicional.

Além de fazer a prevenção de casos de morte súbita, procuram responder às necessidades gerais dos desportistas, amadores ou profissionais, através de uma equipa multidisciplinar com integração de 11 especialidades. O objetivo é garantir uma abordagem especializada e complementar no acompanhamento, diagnóstico e tratamento dos atletas e de eventuais lesões relacionadas com a prática de exercício físico. E porque a investigação é essencial para que se esteja na vanguarda nesta área, a equipa dispõe de um protocolo com o LABIOMEP, um centro tecnológico da Universidade do Porto dedicado à investigação científica e tecnológica em Biomecânica, com destaque para a área desportiva.