Diz-se um homem “apaixonado”, que não se vê como um traidor e que retribui aos responsáveis benfiquistas as acusações que lhe fizeram quando trocou o Benfica pelo Sporting no início da época. Eis Jorge Jesus, que conseguiu trazer o Sporting no primeiro lugar do campeonato quase até ao fim da primeira volta, numa entrevista à TVI. Houve um pouco de tudo: Jesus falou do passado e do futuro, de arte, de futebol, dos treinadores e de televisão.

Para os dirigentes do Benfica, este mimo: “Eles é que não foram leais comigo.” Judite Sousa procurava saber se Jesus sentia que tinha traído o clube das águias ao trocar de lado na Segunda Circular. O treinador, de braços cruzados sobre a mesa e sem grandes movimentos expansivos, respondeu que não. “Não podem dizer que eu fui traidor. O meu trabalho é o futebol e mudei porque houve várias circunstâncias que me fizeram mudar”, disse, para logo de seguida acrescentar que sempre teve lealdade ao Benfica — como a qualquer outro clube que treinou. “Não digo 100%, digo 200%. Fui leal até ao último dia.”

Lealdade dá-se aos clubes, sim, mas quem a merece ainda mais é a modalidade, disse Jesus. “Nunca vou ser desleal com aquilo que fez de mim homem, que fez de mim pai, que é o futebol.” E, nesse campo, o Sporting está este ano a entrar num clube que até agora era restrito a FC Porto e Benfica. “São duas equipas que têm muito mais responsabilidade do que o Sporting”, cuja missão é “intrometer-se entre esses dois candidatos” para ganhar o campeonato.

Para já, no entanto, nada de entusiasmos desmedidos. “Os campeonatos não se ganham à 16ª jornada” e para a semana há um clássico com o FC Porto, avisou. Um jogo que encara de forma “normal”, mas não sem pressão. “Não sei viver sem ela, às vezes não sei viver sem isso. Às vezes sinto que não tenho muita noção da responsabilidade que tenho”, atirou.

Sobre o Benfica, ainda mais dois tiros. O diretor de comunicação do clube da Luz, João Gabriel, foi dos primeiros a reagir quando Jesus foi para o Sporting. No Twitter, Gabriel disparou várias vezes contra o treinador, acusando-o de falta de caráter. “É uma pessoa que a mim não me afeta nada”, afirmou Jesus, que depois foi convidado a comentar a prestação de Rui Vitória até agora. “Penso que ele é, entre aspas, vítima de eu ter saído do Benfica”, afirmou, explicando que é sempre tarefa difícil para qualquer treinador substituir um outro que ocupou o cargo por seis anos e fez a equipa ser bicampeã.